Entrevista: Black Flare

 


Cinco anos depois de um arranque prometedor abruptamente travado pelas circunstâncias globais, e a estrearem-se numa nova editora, a Anti-Corpos Records, os Black Flare regressam com Scorched, um trabalho que reafirma a identidade, consolida intenções e, sobretudo, recupera o tempo perdido. Nesta conversa com Nuno, revisitamos o passado e olhamos para o futuro imediato e para a tão desejada afirmação em palco.

 

Olá, Nuno, como estás? O que têm feito os Black Flare desde a última vez que conversámos em 2021?

Olá! Infelizmente, para além de alguns concertos esporádicos, a banda não esteve muito ativa. Pode-se atribuir esse facto ao azar de termos lançado o primeiro álbum pouco antes do COVID, o que veio abortar aquilo que tínhamos planeado fazer.

 

Scorched surge cinco anos após o álbum de estreia. Que fatores explicam este intervalo relativamente alargado? De alguma forma esse tempo contribuiu para a maturação da identidade da banda?

Além da questão do COVID já falada, todos nós temos bandas paralelas que também nos ocuparam tempo com novos lançamentos e tours. Quando conseguimos finalmente voltar a atenção para os Black Flare, o processo foi até bastante rápido, pois as ideias do que queríamos foram fáceis de alinhavar e fechar. O nosso modus operandi tem sido, até aqui, eu chegar com as ideias já bem amadurecidas para os restantes acrescentarem/mudarem o que acharmos resultar melhor…é relativamente simples e tem resultado até agora.

 

A edição de Scorched via Anticorpos marca o início de um novo ciclo. O que esperam desta parceria em termos de alcance e projeção?

A Anti-Corpos é uma editora com que sempre nos identificámos. Foi uma das pioneiras do underground português no que diz respeito a lançamentos de bandas alternativas, por isso fez todo o sentido esta parceria. Esperamos continuar na senda do álbum anterior que recebeu críticas bastante positivas, nomeadamente nos EUA, onde foi considerado álbum do mês e do ano por alguns reviewers.

 

Referiram que este é um disco “mais sólido e focado”. Em termos práticos, onde se sente essa evolução?

A meu ver, as músicas estão mais polidas, e nota-se uma evolução em termos de composição e de execução. Também a produção terá contribuído para isso sendo mais clean se bem que o peso continua lá! Mais profissional, talvez.

 

Todo o processo criativo esteve novamente a teu cargo. Essa centralização criativa é uma opção estética consciente ou resulta de uma dinâmica natural dentro da banda?

Sim, tem a ver com a dinâmica da banda. O que não quer dizer que eu seja um grande fascista e não aceite a opinião de ninguém… (risos). Tem a ver com o simples facto de que eu estou sempre a compor e a criar e os restantes elementos nem por isso, e é assim que tem resultado.

 

O álbum de estreia foi, em certa medida, associado a uma sonoridade mais próxima do stoner. Em Scorched, sentem que conseguiram afirmar de forma mais clara a vossa matriz heavy metal tradicional? Que influências quiseram aqui sublinhar com maior nitidez?

É pá, confesso que essa conotação stoner me deixou um bocado surpreendido. Não foi de todo nossa intenção, não que não gostemos de stoner, que até gostamos, mas não era essa a visão que nós tínhamos de nós próprios. Esperemos que com este novo disco tenhamos conseguido passar mais a nossas raízes e aquilo que nos influenciou e que ouvíamos enquanto crescemos. Crescemos a ouvir heavy metal tradicional, e é esse tipo de som que nos motiva em Black Flare. Não mudámos a nossa composição para que isso acontecesse, acho que está na mesma onda do primeiro disco, mas em termos de produção tentamos mostrar mais a veia tradicional, mas de maneira moderna como uns 3 Inches Of Blood ou uns Grand Magus, entre outros.

 

Na altura do álbum homónimo, referiam a importância das melodias fortes e dos refrões marcantes como assinatura da banda. Em Scorched, essa preocupação mantém-se ou houve espaço para arriscar estruturalmente?

Inconscientemente, acho que este disco tem uns refrões mais grandiosos e orelhudos. Inconscientemente porque faz parte da evolução natural da banda…e não, não tem baladas! (risos) Foi assim que saiu naturalmente, não houve intenções de fazer nada especialmente diferente.

 

Sendo um trio, como equilibram a necessidade de densidade sonora com a clareza estrutural dos riffs e das melodias? Sentem que esta formação curta é, hoje, uma das vossas maiores forças?

Por um lado, a banda perde um pouco ao vivo, o que é natural, com uma guitarra não se consegue a densidade e replicar algumas partes melódicas que temos no disco. Por outro lado, acho que um trio tem uma atração especial, cria uma vibe old school, tradicional, não te sei explicar bem por quê, e isso torna-nos diferentes, acho que não se vê muito hoje em dia.

 

A abordagem vocal do Antim continua a privilegiar uma entrega direta e afirmativa. Houve algum trabalho específico na voz para este álbum?

O Antim tem uma voz crua, agressiva, mas ao mesmo tempo melódica. Foi isso que nos atraiu e achámos que encaixava exatamente naquilo que queríamos. Neste disco houve talvez uma tentativa de variar mais, criar mais diferença nas vozes, não serem tão lineares, não ter, por exemplo, três refrões numa música, todos iguais.

 

A experiência prévia em projetos como Toxikull e Simbiose influencia ainda a forma como encaram os Black Flare ou sentem que a banda já conquistou uma identidade totalmente autónoma?

A banda tem uma identidade autónoma. A intenção é mesmo essa, senão estávamo-nos a repetir e não faria sentido. É um projeto completamente diferente, com uma sonoridade diferente.

 

Em 2021, falavam da ambição de consolidar o nome Black Flare através de concertos e de afirmar um heavy metal honesto e energético. Cinco anos depois, sentem que essa missão foi cumprida?

Infelizmente não, devido ao que disse há pouco, na altura em que saiu o primeiro álbum. Mas temos esperança e confiamos que neste disco vai correr bem.

 

Como está a ser preparada a agenda para levarem este álbum para palco?

Temos já alguns concertos agendados e vamos andar por aí a espalhar o nosso som.

 

Obrigado, Nuno. Queres acrescentar mais alguma coisa?

Apareçam nos concertos, apoiem as bandas nacionais underground. Sinto que o meio underground no nosso país não está a receber o apoio merecido. Há por aí muitas bandas boas que não sobrevivem se não houver o vosso apoio, por muita vontade que tenham.

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