Entrevista: Hardline

 




O regresso dos Hardline com Shout assinala um novo capítulo marcado menos pela reinvenção e mais pela afirmação de identidade. Cinco anos depois de Heart, Mind And Soul, a banda opta por refinar a sua fórmula, apostando na solidez melódica e numa escrita mais direta e consciente. No centro de tudo, Alessandro Del Vecchio volta a assumir um papel determinante, ajudando a equilibrar o peso do legado com uma abordagem atual. Nesta interessante entrevista, o músico reflete sobre esse processo e sobre uma fase em que os Hardline parecem mais seguros e mais fiéis a si próprios do que nunca.

 

Em primeiro lugar, Alessandro, obrigado por teres dispensado algum do teu tempo para falares connosco. Como estão as coisas para ti neste momento e como te sentes por finalmente apresentares o Shout ao mundo?

Obrigado pelo convite. As coisas estão intensas, como sempre, mas no bom sentido, aquele tipo de caos que a gente escolhe na vida. Neste momento, parece que estou a fazer malabarismos com espadas em chamas enquanto ando de bicicleta, mas, de alguma forma, continuo a sorrir. Apresentar o Shout ao mundo é especial. Passas meses, às vezes anos, a viver com estas canções, elas tornam-se parte da tua paisagem emocional diária. Depois, de repente, já não são tuas, pertencem a toda a gente. É emocionante, um pouco assustador e também um alívio, como mandar os teus filhos para a escola pela primeira vez e esperar que se comportem bem.

 

Já passaram cerca de cinco anos desde o Heart, Mind And Soul. Olhando para trás, para esse período, o que achas que mais mudou nos Hardline, tanto musicalmente como a nível pessoal?

Muita coisa mudou, mas o essencial permaneceu o mesmo. Musicalmente, acho que ficámos mais focados. Deixámos de pensar demais e começámos a confiar naquilo que os Hardline devem transmitir. Há menos «vamos tentar reinventar a roda» e mais «vamos fazer a roda rodar melhor». Pessoalmente, acho que todos amadurecemos, não só como músicos, mas como pessoas. A vida acontece, crescemos, passamos por coisas, e isso molda inevitavelmente a forma como escrevemos e tocamos. A banda hoje parece mais assente, mais consciente da sua identidade e, ironicamente, mais livre por causa disso.

 

Shout conecta-se com o espírito de Double Eclipse, mantendo-se ao mesmo tempo contemporâneo. Esse equilíbrio foi algo que procuraram conscientemente desde o início do processo de composição?

Sem dúvida, mas não de uma forma nostálgica. Não ficámos ali a pensar «vamos copiar o Double Eclipse». Essa seria a forma mais rápida de falhar. O que queríamos era reconectar-nos com a sensação daquele álbum, a urgência, as melodias, o impacto emocional, e depois expressá-lo com quem somos hoje. É como encontrar o teu eu mais jovem, apertar-lhe a mão e dizer: «Tu estavas no caminho certo… mas deixa-me mostrar-te alguns truques novos.»

 

Este álbum marca a estreia da vossa colaboração com a Steamhammer/Open. Como surgiu esta parceria e o que é que a editora traz aos Hardline nesta fase da vossa carreira?

A parceria surgiu de forma muito natural. Depois de muitos anos num ambiente diferente, parecia ser o momento certo para iniciar um novo capítulo. A Steamhammer compreendeu imediatamente o que são os Hardline e, mais importante ainda, o que ainda podem vir a ser. Nesta fase, não precisas apenas de uma editora, precisas de parceiros que acreditem na visão, que te apoiem sem tentarem transformar-te em algo que não és. Eles trazem experiência, paixão e respeito pelo legado da banda, o que é crucial. Além disso, depois de centenas de discos e de ter sido diretor de A&R noutras editoras, consigo perceber desde o primeiro momento quando alguém sabe o que está a fazer, e, meu, o Olly, o Bjoern e toda a gente na Steamhammer são profissionais absolutos nesta área. O apoio que nos têm dado é absolutamente incrível. Não podíamos estar mais felizes.

 

O álbum inclui um cover de When You Came Into My Life, dos Scorpions, o que se destaca como uma escolha surpreendente. O que vos atraiu nessa música em particular? Como abordaram a adaptação dela à identidade do Hardline?

Em primeiro lugar, é simplesmente uma música linda. Às vezes, a razão mais simples é a melhor. Ela tem uma profundidade emocional que realmente ressoa em nós. Não queríamos reinventá-la apenas por reinventar. A ideia era respeitar a alma da canção, deixando ao mesmo tempo que o ADN dos Hardline fluísse através dela. A voz do Johnny traz naturalmente uma intensidade diferente, e a dinâmica da banda acrescenta um peso diferente. É como pegar numa pintura clássica e mudar a moldura, não a obra-prima em si.

 

A composição em Shout reforça a abordagem melódica de hard rock característica da banda, em vez de a reinventar. Vês isto como uma afirmação de identidade no panorama musical atual?

Sim, e acho que isso é mais importante do que nunca. Hoje em dia, toda a gente tenta ser tudo ao mesmo tempo, perseguindo tendências, algoritmos, o que quer que seja que deva funcionar esta semana. Escolhemos a abordagem oposta. Sabemos quem somos. Aceitamo-lo. Essa é a nossa afirmação. Ser autêntico hoje em dia é quase rebelde. E, honestamente, prefiro ser uma versão muito boa dos Hardline do que uma versão confusa de outra coisa qualquer.

 

Também há uma forte componente emocional no álbum, especialmente em faixas como Glow. Podes falar-nos mais sobre a inspiração por trás dessa canção e o seu significado pessoal?

Glow vem de um lugar muito real. É sobre encontrar a luz quando as coisas não estão propriamente brilhantes, o que, sejamos honestos, é algo com que todos lidamos em algum momento. Para mim, essas são as canções que mais importam. Não aquelas que soam impressionantes, mas aquelas que parecem honestas. Se alguém ouvir Glow e se sentir um pouco menos sozinho, então cumprimos a nossa missão. É uma canção que escrevi sobre a perda de um animal de estimação e que pode ser relacionada com qualquer perda e com a forma de ver a luz para além da dor no coração, da dor na alma, da perda e do luto.

 

Há anos que és uma força criativa essencial dentro dos Hardline. Como é que a dinâmica entre ti, o Johnny Gioeli e o resto da banda molda o resultado das canções?

A magia está no equilíbrio. O Johnny traz esta identidade vocal crua, emocional, quase explosiva. Eu costumo abordar as coisas de uma perspetiva estrutural e de produção. O resto da banda acrescenta personalidade, atitude e aquela faísca imprevisível. Às vezes é muito tranquilo, outras vezes é mais como uma luta criativa, mas isso é saudável. Se todos concordarem sempre, algo está errado. O atrito é o que torna o resultado final interessante.

 

Com um novo álbum lançado, a digressão torna-se inevitável. Quais são os planos para levar o Shout ao palco e o que os fãs podem esperar da próxima digressão europeia?

É na digressão que tudo se torna real. O plano é dar vida ao Shout com o máximo de energia possível, misturada com as canções clássicas que as pessoas adoram. Os fãs podem esperar um espetáculo muito dinâmico, grandes melodias, grandes vozes e, com sorte, alguns momentos em que se esquecem de tudo o resto e simplesmente desfrutam da música. Esse é o objetivo. Além disso, muito suor. Principalmente o meu.

 

Dado o teu envolvimento extensivo em inúmeros projetos como músico, produtor e compositor, como consegues manter cada trabalho distinto e criativamente gratificante?

Disciplina e mentalidade. Quando entro num projeto, dedico-me totalmente à sua identidade. Não se trata de mim, trata-se do que esse projeto precisa. Além disso, curiosidade. Se deixares de ser curioso, tudo começa a soar igual. Desafio-me constantemente a abordar as coisas de ângulos diferentes, mesmo que sejam apenas pequenos detalhes. E, por vezes, o melhor truque é saber quando parar e não exagerar.

 

Por fim, Alessandro, obrigado mais uma vez pelo teu tempo. Há alguma mensagem que gostasses de deixar aos fãs que apoiaram os Hardline ao longo dos anos e que estão prestes a descobrir o Shout?

Apenas um grande obrigado. A sério. O facto de as pessoas ainda se importarem com esta banda após tantos anos é algo que não dou por garantido. O Shout é para vocês. Ouçam-no alto, cantem junto, façam-no parte da vossa vida. E se vos der apenas uma fração do que nos deu enquanto o criávamos, então valeu a pena. E lembrem-se… se os vossos vizinhos se queixarem, provavelmente significa que estão a ouvir no volume certo.

Comentários

DISCO DA SEMANA VN2000 #15/2026: Piercing The Heart Of The World (TRIUMPHER) (No Remorse Records)

GRUPO DO MÊS VN2000 #04/2026: LAST PISS BEFORE DEATH (Raging Planet Records)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #15/2026: Waves (MR. WEATHER) (Art Gates Records)