Entrevista: Lion's Share

 




O entusiasmo que atravessa as palavras de Lars Chriss e Nils Patrik Johansson não surge por acaso: mais que o regresso discográfico dos Lion’s Share, Inferno é a materialização de um percurso marcado por resiliência, adaptação e fidelidade a uma identidade muito própria dentro do heavy metal europeu. Após Dark Hours, a banda entrou num período de menor atividade em formato longa-duração, optando por uma presença mais intermitente, mas ainda assim significativa, através de singles e colaborações. E é essa maturidade construída ao longo de mais de uma década de interregno discográfico que agora se reflete em Inferno.

 

Em primeiro lugar, Lars e Nils, sejam bem-vindos e obrigado por terem dedicado o vosso tempo para conversar connosco. Inferno marca o tão esperado regresso dos Lion’s Share com um novo álbum. Como se sentem agora que o disco está finalmente pronto?

Obrigado, Pedro. Para ser sincero, é uma sensação fantástica. Depois de tanto tempo, ter finalmente um álbum completo a ser lançado de novo significa muito para nós e a resposta até agora tem sido incrível. Temos recebido críticas muito positivas em praticamente todos os meios, o que é, claro, muito gratificante. É também algo que os fãs têm vindo a pedir, ou mesmo a exigir, há muito tempo, especialmente um lançamento completo a sério, por isso sabe muito bem poder finalmente concretizar isso. O que torna este álbum ainda mais especial é o facto de Inferno ser o nosso primeiro álbum a ser lançado em vinil. Quando lançámos os nossos álbuns anteriores, o vinil não fazia realmente parte do panorama como faz hoje, por isso isto parece um pouco como fechar o círculo. Crescemos com esse formato, por isso é algo muito pessoal para nós. Esperamos que isto seja apenas o começo e que possamos trazer o resto do nosso catálogo de volta em vinil nos próximos anos também.

 

Descreveram Inferno como mais do que apenas um novo álbum, mas sim uma declaração sobre onde os Lion’s Share se encontram hoje. O que é que este disco representa para vocês nesta fase da história da banda? 

Representa quem somos hoje, mas também tudo o que sempre fomos. Não tentámos reinventar-nos nem seguir tendências. Este álbum é muito honesto e enraizado na nossa identidade. É heavy metal clássico com uma produção moderna, construído sobre as influências com que crescemos, mas com a experiência que adquirimos ao longo dos anos. Nesse sentido, é tanto uma continuação como uma declaração de que os Lion’s Share continuam muito vivos e relevantes.

 

O vosso álbum de estúdio anterior, Dark Hours, foi lançado em 2009. Apesar de terem continuado a lançar singles ao longo dos anos, os fãs tiveram de esperar muito tempo por outro álbum. Por que demorou tanto tempo e o que fez com que este fosse finalmente o momento certo para lançar um novo álbum?

Foi realmente uma combinação de diferentes fatores. Um dos principais foi a forma dramática como a indústria musical mudou durante esse período. A transição dos álbuns físicos para o streaming e os lançamentos de singles aconteceu muito rapidamente e, naquela altura, não parecia certo apressar-nos a fazer um álbum enquanto tudo ainda estava em evolução. Ao mesmo tempo, eu (Lars) estava muito envolvido na produção, gravação e mistura para outros artistas, o que consome muito tempo. Mesmo assim, continuámos a compor sempre que podíamos, reunindo-nos algumas vezes por ano e construindo gradualmente uma coleção sólida de material. Quando começámos a dedicar-nos mais a sério por volta de 2017–2018, percebemos quantas canções boas tínhamos realmente. O plano era lançar o álbum em 2020 e voltar à estrada, e já tínhamos começado a dar alguns concertos novamente. Mas depois a pandemia chegou e, tal como toda a gente, tivemos de colocar tudo em espera. No final, demorou apenas mais tempo do que o esperado, mas também nos deu tempo para aperfeiçoar realmente o material e garantir que o álbum ficasse exatamente como queríamos.

 

Entre 2009 e agora, os Lion’s Share mantiveram a chama acesa através de uma série de singles digitais. Olhando para trás, quão importantes foram esses lançamentos para manter a banda ativa e ligada aos fãs durante aquele longo intervalo entre álbuns?

Foram muito importantes. Lançar singles permitiu-nos manter-nos ativos e mostrar que a banda ainda estava viva, mesmo sem um álbum. Também proporcionou aos fãs novas músicas regularmente, em vez de terem de esperar anos. Para nós, em termos criativos, foi uma ótima maneira de nos concentrarmos numa música de cada vez e de a levar o mais longe possível. Algumas dessas faixas eram quase como versões em desenvolvimento, que mais tarde aperfeiçoámos e regravámos para o Inferno. No final, esse processo ajudou, de facto, a tornar o álbum mais forte.

 

Desde 2017, os Lion’s Share têm funcionado essencialmente como um duo, com Lars Chriss e Nils Patrik Johansson no centro, recorrendo a colaboradores de confiança quando necessário. De que forma esta estrutura de trabalho influenciou o processo de composição e gravação do Inferno? 

Tornou as coisas mais focadas e eficientes. Sendo apenas nós os dois no núcleo, partilhamos a mesma visão e podemos tomar decisões rapidamente sem compromissos desnecessários. Isso permite-nos mantermo-nos muito fiéis ao que queremos que a música seja. Ao mesmo tempo, trabalhamos com excelentes músicos à nossa volta que contribuem quando necessário, tanto em estúdio como ao vivo. É uma configuração flexível que nos dá tanto controlo como liberdade criativa.

 

Mencionaste que querias criar o álbum mais forte e mais coeso dos Lion’s Share até à data. Do ponto de vista musical, que elementos enfatizaste para atingir esse objetivo?

O foco principal esteve na composição e no fluxo geral do álbum. Tínhamos uma grande quantidade de material à escolha, por isso, em vez de nos limitarmos a selecionar canções fortes individualmente, concentrámo-nos na forma como elas funcionam em conjunto: o tempo, a tonalidade, a dinâmica e a viagem global do início ao fim. Viemos de uma época em que os álbuns eram concebidos para serem vividos como um todo, e essa mentalidade guiou-nos verdadeiramente. Também tivemos a vantagem do tempo, o que nos permitiu aperfeiçoar cada detalhe e garantir que cada música atingisse o seu pleno potencial.

 

Olhando para a lista de faixas, músicas como Pentagram, Baptized In Blood e The Lion’s Trial, bem como o título do álbum, Inferno, sugerem imagens poderosas. Existem temas líricos ou mensagens específicas que percorrem o álbum?

As letras estão muito enraizadas em temas clássicos do heavy metal: imagens mais sombrias, lutas internas, força e a batalha entre a luz e as trevas. Sempre nos sentimos atraídos por esse tipo de atmosfera porque encaixa muito bem na música. Trata-se mais de criar um clima e uma sensação do que de transmitir uma mensagem específica. Ao mesmo tempo, tendemos a manter-nos afastados da política e da religião. Desde que as letras correspondam à energia e à emoção das canções, é isso que mais nos importa.

 

Este álbum é lançado pela Metalville. Como surgiu esta parceria e o que fez com que a editora fosse o lar certo para os Lion’s Share neste momento?

Tanto eu como, especialmente, o Nils Patrik já trabalhámos bastante com a Metalville no passado, por isso pareceu-nos um passo muito natural continuar a trabalhar com pessoas que já conhecemos, em quem confiamos e com quem gostamos de colaborar. Claro que as editoras são importantes, mas, no final, o que realmente importa são as pessoas envolvidas e a forma como trabalham com a nossa música. É isso que faz a verdadeira diferença. Estamos confiantes de que encontrámos um bom lar para o Lion’s Share e, esperamos, que este seja o início de uma parceria de longo prazo com muitos lançamentos futuros juntos.

 

Lars, foste tu que trataste da produção e da mistura do álbum. Produzir o disco internamente deu-te mais liberdade para moldar o som final exatamente como o imaginavas?

Sem dúvida. Essa é provavelmente uma das maiores diferenças em comparação com os nossos álbuns anteriores. Embora eu tenha produzido álbuns anteriores, contratámos engenheiros de mistura externos. Desta vez, tratei de tudo sozinho, o que significou que tivemos 100% de controlo sobre o resultado final. Pude moldar o som exatamente da forma como o ouço na minha cabeça quando escrevo as canções, e não fomos limitados por orçamentos de estúdio ou restrições de tempo. Essa liberdade teve definitivamente um impacto no som geral do álbum.

 

Ao longo dos anos, os Lion’s Share fizeram digressões ou colaboraram com membros de bandas lendárias como Motörhead, Saxon, Dio e outras. Olhando para trás, que experiências tiveram o maior impacto na formação da banda que são hoje?

Há muitos momentos que se destacam, mas as digressões com essas bandas tiveram um enorme impacto em nós, tanto musical, como pessoalmente.  Fizemos duas digressões fantásticas com os Saxon, e essa combinação continuaria a ser perfeita hoje em dia. Também passámos um mês inteiro a abrir os concertos do Dio, Manowar e Motörhead, o que foi completamente surreal. Estas eram bandas que eu cresci a ouvir, por isso, de repente, estar na estrada com elas foi algo que eu nunca poderia ter imaginado naquela altura. Todos eles nos trataram muito bem e fomos até convidados para tocar no Magic Circle Festival dos Manowar em 2007. Duas músicas desse concerto acabaram por entrar num dos seus lançamentos em DVD, o que foi uma experiência fantástica. A digressão com U.D.O. também foi muito especial, especialmente porque havia membros dos Accept na banda (outra grande influência para nós). Um momento que realmente ficou gravado na minha memória foi quando Ronnie James Dio disse à sua banda e equipa que eu era bem-vindo para me juntar a eles no palco a qualquer momento. Isso significou muito, vindo de alguém como ele. Outro ponto alto foi quando atuámos como banda de apoio do Dio e do baterista dos Black Sabbath, Vinny Appice, numa clínica em Estocolmo, tocando material tanto do Dio como dos Sabbath juntos. Foi uma experiência muito fixe e memorável. Ele até nos chamou de Black Sabbath júnior (risos).

 

O álbum soa claramente concebido para um ambiente ao vivo poderoso. Quais são os vossos planos para levar estas novas canções ao palco? Os fãs podem esperar digressões ou participações em festivais para promover o Inferno?

Sem dúvida! Subir ao palco é uma parte importante deste lançamento. Tudo começou com o nosso concerto de lançamento a 27 de março, no mesmo dia em que o álbum saiu, e, a partir daí, temos atualmente oito concertos confirmados na Suécia, incluindo o Sweden Rock Festival, o maior festival de rock daqui. Para além disso, estamos muito ansiosos por levar o álbum a um público mais vasto. Olhando para as nossas estatísticas no Spotify, países como a Suécia, a Alemanha, os EUA, a Espanha, o Brasil, o Reino Unido e a Finlândia estão entre os nossos mercados mais fortes; por isso, adoraríamos mesmo ir até lá e conhecer os fãs. Como sempre, tudo se resume a ter os promotores e parceiros certos no terreno para que isso aconteça. Esperamos que os fãs ajudem a pedir a nossa presença em festivais e eventos, para que possamos ganhar impulso e voltar a fazer digressões com mais regularidade.

 

Por fim, após uma jornada tão longa que conduziu ao Inferno, que mensagem gostariam de deixar aos fãs que apoiaram os Lion’s Share ao longo de todos estes anos?

Estamos incrivelmente gratos pelo apoio que recebemos ao longo dos anos. Significa realmente muito para nós. O facto de as pessoas terem permanecido connosco, continuado a pedir novas músicas e estarem agora tão entusiasmadas com o Inferno é algo que não tomamos como garantido. Esperamos vê-los em breve na estrada e, até lá, continuem a apoiar o heavy metal e a manter o espírito vivo.

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