Com uma história que
atravessa mais de três décadas, os Morbid Death são uma das pedras basilares do
metal
extremo açoriano. Volvidos seis anos desde Oxygen e após um período de
transformação interna significativo que incluiu a quase dissolução do projeto,
os Morbid Death regressam agora com Veil Of Ashes, um trabalho que reafirma
a sua essência resgatando o espírito primordial que os definiu nos primeiros
anos. Mais uma vez estivemos à conversa com Ricardo Santos, procurando compreender
de que forma a banda se reergueu e que motivações continuam a alimentá-la.
Viva, Ricardo, como
estás? Antes de mais, obrigado pela disponibilidade. Para começar, como
enquadras este momento na já longa história dos Morbid Death, agora com o
lançamento de Veil Of Ashes?
Bem, obrigado, Pedro! Eu é que agradeço a oportunidade
de falar de Morbid Death aos leitores da Via Noctura. Este é um
bom momento! Sem dúvida, um momento que já ambicionava há algum tempo, mas que,
devido a certas divergências, com a anterior formação não foi possível
alcançar.
Passaram cerca de seis
anos desde Oxygen. Que tipo de transformações marcaram este intervalo
até ao novo disco?
Oxygen foi lançado na altura da Covid, logo aí, praticamente dois
anos e qualquer coisa 'arderam'. Depois dos confinamentos, houve alguns
espectáculos e muita perda de tempo com nada, as coisas praticamente não
avançavam. Ainda demos alguns gigs em solo continental, mas senti sempre
que naquela altura já devíamos estar a preparar um sucessor de Oxygen. A
maior transformação foi mesmo em mim, precisava de voltar ao que sempre devia
ter sido MD.
Veil Of Ashes aponta para um regresso
a uma abordagem mais crua, pesada e urgente. Foi uma decisão consciente
revisitar essa identidade mais primitiva da banda?
Indo de encontro à transformação referida na resposta
anterior, foi sem dúvida uma decisão 100% consciente. Era suposto, foi
anunciado e estava marcado o espetáculo de despedida, para ser o fim da banda
em janeiro de 2025. Por questões de saúde de um dos elementos, o espetáculo
acabou por não se concretizar e levou a que eu repensasse a decisão inicial.
Percebi que era tempo de dar um novo rumo à banda! Mostrei esse interesse aos
elementos que estavam comigo naquela altura, mas, por motivos pessoais e extra
banda, decidiram seguir outro rumo. Esse foi o momento preciso para
reconquistar o espírito e a sonoridade dos primórdios de Morbid Death.
Foi o timing perfeito para revitalizar a banda, até o logotipo foi
recuperado!
Aliás, os temas de
avanço já deixavam antever um disco bastante incisivo. Em termos líricos, que
tipo de inquietações ou reflexões atravessam este novo trabalho?
Liricamente falando, este álbum gira à volta do Homem
como o ser vivo mais inteligente à face da Terra e, ao mesmo tempo, o mais
cruel e sem compaixão para com os seus semelhantes.
Ao longo da vossa
carreira, as mudanças de formação têm sido uma constante. Este novo álbum surge
também com alterações no line-up. De que forma isso influenciou o
processo de composição e o resultado final?
De todas as formas! Pessoas diferentes levam a
resultados diferentes, é inevitável. Confesso que estou acompanhado por músicos
bastante talentosos, trabalhadores e, acima de tudo, humildes. Em pouco mais de
um ano, com esta formação, já se fez mais que com outras formações em 3 ou 4
anos, só por aí já se pode concluir a influência positiva desta formação.
A gravação, mistura e
masterização foram feitas em Ponta Delgada, no StepKeys Studio. Sentem que
trabalhar “em casa” contribuiu para uma maior coesão ou identidade sonora?
Trabalhamos com o Stepan Kobyakin, nosso
produtor, de uma forma bastante descontraída. Transmitimos o que era pretendido
e conseguimos materializar o que queríamos. Ele foi o nosso quinto elemento e
teve um papel importante na recuperação da identidade sonora de MD. Na nossa
opinião, foi a escolha acertada!
Há uma clara noção de
continuidade na vossa trajetória, mas também de reinvenção. Ainda sentes essa
necessidade de provar algo, mesmo após mais de três décadas de atividade?
A fase de provar algo já passou há mais de vinte anos.
O que faço, faço por gosto e por diversão, tal como os restantes membros.
Primeiramente, enquanto músicos, temos que estar satisfeitos com o resultado
final do nosso trabalho. Depois, vemos qual o feedback por parte dos
ouvintes. Felizmente, e até ao momento, tem sido na sua maioria bastante
positivo, deixando-nos muito orgulhosos.
O regresso a uma
editora nacional, neste caso a Firecum Records em parceria com o Museu do Heavy
Metal Açoriano, tem um significado especial para vocês?
Sim, claro que sim. Quando falamos todos a mesma
língua, a comunicação é bem mais fácil e tudo está a correr sobre rodas.
Na nossa última
conversa, em 2020, falavas da importância de manter a chama acesa apesar das
dificuldades. Hoje, sentes que essa chama se transformou ou mantém a mesma
intensidade?
Houve um período em que senti que, aos poucos, se
estava a extinguir. Contudo, estava em mim decidir e escolher o melhor rumo
para a banda. Em boa hora o fiz, há males que vêm por bem!
A história dos Morbid
Death confunde-se, em muitos aspetos, com a própria evolução do metal açoriano. Como
vês hoje o impacto da banda nesse contexto e o estado atual da cena nas ilhas?
No início, inconscientemente, fomos abrindo caminhos,
não foi nem é nosso objectivo carregar o peso dessa responsabilidade ou receber
todos os louros, mas reconheço que não o podemos ignorar. Atualmente o nosso
meio é um pouco estranho e, por vezes, difícil de entender. Ou talvez seja eu,
da velha guarda, que gosto do palco, do contacto com o público, não sei. Para
além disso, vive-se muito o reclamar a falta de eventos, mas depois, quando os
há, o público na sua maioria não comparece. Vá-se lá entender…
Depois de tantos anos
de estrada, o que continua a motivar-te a seguir em frente com os Morbid
Death?
Sabes, os Morbid Death são quase 36 dos meus 53
anos de vida, fez-me crescer enquanto indivíduo. É uma vida dedicada a esta
banda, enquanto tiver saúde, estarei aqui a fazer o que gosto. Não procuro
fama. Não procuro dinheiro. Procuro apenas divertir-me. Para isso tenho de
estar acompanhado de pessoas que tenham o mesmo gosto que eu, e, presentemente,
sinto que estou a reviver momentos áureos da banda, com o João, o Hélder e o
Pedro.
Estiveram presentes em
Lamego, no Lamaecum Metal Fest. Como correu?
Foi brutal! Fomos muito bem recebidos em todos os
aspetos. O espetáculo correu-nos muito bem, com o público bastante ativo. Foi o
evento de apresentação de Veil Of Ashes e, sem qualquer dúvida, entrou
para o nosso Top 5 de espectáculos.
Existem planos para uma
digressão mais alargada de promoção a Veil Of Ashes?
Adoraríamos fazer uma digressão alargada, mas os
recursos são escassos. Vamos fazendo o que está ao nosso alcance.
Para terminar, que mensagem gostarias de deixar aos ouvintes que vão agora mergulhar em Veil Of Ashes e aos que acompanham a banda desde os primeiros dias?
Para quem ainda não teve oportunidade de ouvir Veil Of Ashes , deem-nos essa oportunidade. Temos a perfeita noção de que nem toda a gente vai gostar, mas pelo menos ouçam uma vez. Nunca saberemos se poderemos conquistar mais um fã!

Comentários
Enviar um comentário