Três
décadas depois do arranque de Cover de
Bruxelas, Rui Ferreira continua a provar que uma canção nunca é um objeto
fechado. Pode ser reescrita, desviada e até apropriada até ganhar uma nova
identidade. É precisamente essa ideia que sustenta Cover de Bruxelas
Sessions – Volume 2, mais um capítulo de um projeto que cruza memória,
descoberta e curadoria. Mais do que contextualizar o novo registo, esta
conversa acaba por assumir-se como uma autêntica lição de música: um percurso
por referências, ligações improváveis e pela forma como as versões podem,
tantas vezes, superar ou redefinir os próprios originais.
Antes de mais, Rui,
bem-vindo. O lançamento de Cover de Bruxelas Sessions – Volume 2 marca
um novo capítulo para um projeto que já tem décadas de história através do
programa de rádio. Como estás a viver este momento e o que representa para ti
ver estas sessões reunidas novamente em formato de disco?
Gosto que as coisas fiquem registadas para a
posteridade; é por isso que sou colecionador de discos. Este Cover de
Bruxelas Sessions – Volume 2 significa isso mesmo, finalmente estão
registadas em disco cinco sessões exclusivas do programa Cover de Bruxelas
gravadas por John Mercy, From Atomic, Surma, Corsage
e Paul Oak. Sempre que temos um conjunto de 5 novas sessões, reunimo-las
num disco.
O programa na Rádio
Universidade de Coimbra nasceu em 1995 e rapidamente se tornou uma referência
nacional no que toca ao universo das versões. O que te fascinou originalmente
no conceito de covers a ponto de o transformares num programa de longa
duração como Cover de Bruxelas?
O fascínio das covers pode dividir-se em duas
vertentes. A primeira mostra porque é que as covers sempre foram um
caminho para a descoberta das versões originais. Quando em meados da década de
80 ouvi a versão de Third Uncle pelos Bauhaus, isso levou-me a conhecer
a obra a solo de Brian Eno. Em 1994, a escuta de Kathleen dos Tindersticks
fez-me descobrir um dos meus cantautores preferidos: Townes Van Zandt. Em
2022, um disco de versões da Lux Records, Midnight Presents de Tracy
Vandal & John Mercy, trazia uma canção incrível chamada You’re Dead.
Naquela altura, nunca tinha ouvido falar da Norma Tanega; agora tenho os
dois primeiros álbuns: Walkin' My Cat Named Dog (1966) e I Don't
Think It Will Hurt If You Smile (1971). Podia referir muito mais exemplos. Por
outro lado, fascina-me que canções que adoro conheçam novas roupagens e se
transformem de forma irreversível. Nalguns casos com verdadeiros processos de
apropriação; por exemplo, Mercy Seat de Nick Cave & The Bad Seeds
na versão de Johnny Cash, I Can’t See Nobody dos Bee Gees
na versão de Nina Simone e Wonderwall dos Oasis às mãos de
Ryan Adams.
O lema atual do
programa fala dos “três Rs da sustentabilidade sonora: revisitar, reciclar e
reutilizar”. De que forma essa ideia evoluiu ao longo dos anos e como se aplica
concretamente às escolhas musicais que vão sendo feitas?
Há várias abordagens possíveis quando um artista faz
uma versão. Há artistas que simplesmente reinterpretam o original, há aqueles
que os atualizam e depois há os que pegam numa canção e conseguem absorver a
sua essência transformando-a em algo próprio. Por exemplo, quando em 1965 os Rolling
Stones fizeram uma versão do Cry To Me do Solomon Burke,
parecia que a canção havia sido sempre dos Stones. Mais curioso é que mais de
50 anos depois, os Idles pegam no mesmo tema e aquilo soa como se
tivesse sido uma canção escrita por Joe Talbot e companhia. É este o
tipo de versões que mais aprecio. As emissões da Cover de Bruxelas são
normalmente temáticas, dedicadas a um artista, a um disco, a uma canção, a um
estilo musical, e por isso acabo por passar covers com as várias
maneiras de abordar um original.
O primeiro volume das Cover de Bruxelas
Sessions, editado em 2021, teve uma receção muito positiva. Que balanço
fazes hoje desse lançamento e em que medida influenciou o desenvolvimento deste
segundo volume?
Quando editámos o primeiro volume, já sabíamos que
iria haver mais volumes. O CD Cover de Bruxelas Sessions – Volume 1 foi
editado em dezembro de 2021, e na altura John Mercy e os From Atomic
já tinham não só gravado as respetivas sessões, como estas já tinham sido
emitidas no programa Cover de Bruxelas. A sessão de John Mercy
foi emitida a 17 de dezembro de 2020 e a dos From Atomic a 23 de setembro
de 2021. Já foi emitida uma sessão que fará parte do terceiro volume, a cargo
dos The Pages. E brevemente serão emitidas as sessões de RAY e
dos Caustic, Babe!. Sempre que tivermos um conjunto de 5 sessões,
surgirá um novo volume das Cover de Bruxelas Sessions.
No novo disco surgem
cinco artistas bastante distintos — John Mercy, From Atomic, Surma, Corsage e
Paul Oak. Que critérios seguiste para escolher estes nomes e como procuraste
garantir diversidade estética no alinhamento?
Vou fazendo convites a alguns artistas, a maioria do
catálogo da Lux Records, e depois estou sempre dependente da sua
resposta e do grau de celeridade. Se dependesse de mim, teria uma Cover de
Bruxelas Sessions todos os meses. Depois, os artistas têm completa
liberdade na escolha das versões. O John Mercy, por exemplo, resolveu
fazer 3 versões dos Parkinsons.
O single de
apresentação é a versão de My Friend Jack, interpretada por Paul Oak,
originalmente dos The Smoke. O que te chamou a atenção nesta leitura em
particular para a destacar como cartão de visita do álbum?
Em primeiro lugar, porque se trata da sessão mais
recente incluída no disco. Depois, porque é mais um daqueles casos em que
conheci o original através da versão. E finalmente, porque se trata de uma
grande versão e com grande potencial radiofónico.
O projeto Cover de Bruxelas
Sessions, Volume 2 mostra que uma cover pode ser mais do que um
simples exercício de estilo, podendo revelar novas leituras de uma canção.
Houve alguma versão deste disco que te tenha surpreendido particularmente pela
forma como transformou o tema original?
Ouvir hinos do punk rock dos Parkinsons
revistos pela mão de John Mercy é sempre surpreendente. As versões dos From
Atomic para Gigantic dos Pixies e Dream Baby Dream dos
Suicide são belos exemplos de atos de apropriação bem-sucedidos.
Ao longo da tua
carreira tens estado ligado à edição e gestão de artistas através da Lux
Records, trabalhando com nomes como Belle Chase Hotel, Wraygunn ou The
Legendary Tigerman. Como é que essa experiência enquanto editor e curador
musical influencia a forma como pensas projetos como estas sessions?
Trabalhar com talentos musicais ajuda sempre. Não
deixa de ser curioso que os três nomes que referes gravaram inúmeras versões.
Quando conheci os Belle Chase Hotel, eles costumavam tocar ao vivo uma cover
do More Than Rain do Tom Waits. Nunca chegaram a gravar essa
versão, mas gravaram o Telephone Call From Istambul do Tom Waits,
o Goldfinger da Shirley Bassey e o Donzela Diesel do Rui
Veloso. Os Wraygunn também gravaram várias versões, e foi através
deles que conheci a obra do artista da Stax, Frederick Knight.
O primeiro single retirado do álbum Soul Jam chamava-se Lonely
e era uma bela cover de I've Been Lonely For So Long de Frederick
Knight. Depois gravaram versões de Suicide, Kinks,
The Machine, Golden Gate Quartet (via Johnny Cash) e Handsome
Boy Modelling School. Legendary Tigerman tem versões em quase todos os discos, de Bo Diddle a Johnny Cash,
de Link Wray aos Suicide, da Nico a Nancy Sinatra, de Tom Waits a
Daniel Johnston, de Nat King Cole a Booker T e de Ricky
Nelson a Hasil Adkins.
Este volume contou com
masterização de João Rui e grafismo de Toni Fortuna. Até que ponto a dimensão
visual e a qualidade sonora continuam a ser essenciais numa edição física,
sobretudo numa época dominada pelo digital?
Claro que são essenciais, mesmo que o destino sejam só
as plataformas digitais. Numa edição física queremos ir mais longe e pretendemos
que seja o mais atrativa possível. O João Rui é responsável pela grande
maioria das misturas e masterizações de discos da Lux Records e o Toni
Fortuna é responsável por vários grafismos. São dois artistas umbilicalmente
ligados ao sucesso da editora. A capa deste segundo volume é próxima da
anterior, mas eu gosto que haja uma identidade distintiva no grafismo.
Lembro-me de que as famosas Peel Sessions, que inspiraram estas Cover
de Bruxelas Sessions, tiveram durante muito tempo o mesmo grafismo.
Além do trabalho
radiofónico e editorial, tens mantido um contacto direto com os melómanos
através da loja Lucky Lux. Que importância têm hoje espaços físicos como este
para manter viva a cultura do vinil e da descoberta musical?
São importantes para que os amantes de música na sua
vertente material tenham acesso não só aos novos lançamentos, mas também a
edições antigas. Coimbra esteve órfã de lojas de discos durante alguns anos e orgulho-me
imenso de que desde a sua inauguração, a Lucky Lux tenha crescido em
número de clientes e faturação. A
loja ajuda-me também a perceber as tendências do mercado. Um exemplo disso é o
crescimento gradual e sustentado das vendas de CDs, contrariando as previsões
do desaparecimento daquele formato.
Olhando para três
décadas de Cover de Bruxelas, como sentes que mudou a perceção do
público português em relação às versões musicais? Hoje existe maior abertura
para estas reinterpretações?
Acho que, acima de tudo, há muitos artistas que persistem
em gravar versões e os discos de tributo continuam a inundar o mercado. Mas noto
ainda algum preconceito em relação às versões. Quando passo música, incluo
sempre muitas covers nos meus sets de DJ, e ainda há muito boa
gente que me vem pedir para passar antes os originais. Claro está que lhes
respondo sempre com 4 ou 5 versões seguidas (daquelas em que a versão ficou
mais célebre que o original), e eles saem todos satisfeitos.
Para terminar, Rui,
depois deste segundo volume e de tantos anos a celebrar a arte da
reinterpretação, que próximos capítulos podemos esperar do universo Cover de Bruxelas e
que mensagem gostarias de deixar aos ouvintes e leitores que continuam a
acompanhar este projeto?
Há várias emissões em lista de espera na Cover de
Bruxelas, a maioria de artistas que nunca estiveram em destaque no nosso
programa. Estão em preparação emissões especiais dedicadas aos Felt, Lush,
Soundgarden, Portishead, Mazzy Star, Sharon Van Etten, William
Shatner e Morphine. Temos também preparada uma emissão dedicada a
canções estreadas em filmes de animação. Na próxima emissão da Cover de
Bruxelas vamos desfilar versões do álbum Rain Dogs (1985) de Tom
Waits. Quanto às Cover de Bruxelas Sessions, as próximas estarão a
cargo de RAY e Caustic, Babe!


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