Reviews VN2000: MARCO OLIVEIRA/JOSÉ PEIXOTO; WHATEVER HAPPENS DON'T BE YOURSELF; PAUS; FJORDS; THE CHUCK NORRIS EXPERIMENT
Caminho é Quanto Fica da Viagem (MARCO OLIVEIRA/JOSÉ PEIXOTO)
(2026, Indie Music)
Caminho é Quanto Fica
da Viagem é o mais recente trabalho que junta a bela voz de Marco
Oliveira à destreza técnica e emocional da guitarra de José Peixoto.
E que se afirma como um objeto profundamente narrativo, conceptual, guiado pela
figura de um marinheiro-fadista, de seu nome António dos Santos (1919-1993),
que serve de âncora a um disco onde o mar, a memória e a errância se entrelaçam
com notável coesão. A estrutura revela-se multifacetada entre o fado (por vezes
estranho e exploratório, com a guitarra a assumir uma segunda voz constante), a
canção de Coimbra (luminosa no seu recorte mais clássico) e uma vertente de
cantautor que evoca Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira.
Rico em dedilhados minuciosos e arranjos meticulosamente trabalhados, pelo
meio, há espaço para incursões subtis em territórios mais jazzísticos e
momentos instrumentais exploratórios. Tudo assenta numa abordagem minimalista,
mas enganadora. Uma única guitarra, de Peixoto, sustenta um trabalho de detalhe
impressionante, dialogando com uma voz grave, sentida, confessional, de
Oliveira. A incorporação de poemas de Eugénio de Andrade, Sophia de
Mello Breyner, Miguel Torga ou José Mário Branco, autor da
frase que batiza o álbum e retirada de Fado das Nuvens, reforça a
densidade literária. Um disco de escuta exigente, onde cada silêncio também
conta. [90%]
Tales Of No Consequences (WHATEVER HAPPENS DON’T BE YOURSELF)
(2026, Is It Jazz? Records)
Tales Of No
Consequences confirma os Whatever Happens Don’t Be
Yourself como um dos coletivos mais inquietos da cena jazz/impro
de Bergen. Longe de qualquer conforto estilístico, o álbum ergue-se como um
exercício de tensão permanente entre caos e groove, onde a cacofonia
inicial rapidamente se transforma em linguagem. Logo no arranque, a dissonância
assume protagonismo, mas é em What’s My Chances que tudo ganha corpo: um
groove contagiante, sustentado por um trabalho percussivo notável e
sopros incisivos, com o saxofone em particular evidência, enquanto a voz
feminina acrescenta uma inesperada dimensão melódica. A breve introspeção que
se segue em Stormy Nights funciona como respiro antes de Where the
Sky Is The Highest, uma impressionante demonstração de virtuosismo
coletivo, onde a improvisação se afirma sem concessões. Entre explosões de
ruído organizado e momentos de desenvolvimento rítmico verdadeiramente
eletrizantes, destaca-se ainda o peso do baixo aliado ao piano e à secção
rítmica em Green Candela Blues, conferindo densidade e pulsação. A curta
peça experimental que antecede o final expande limites, antes de tudo colapsar novamente
numa catarse cacofónica. Tales Of No Consequences é um disco exigente e profundamente
imprevisível. Mas não é assim que toda a arte musical deveria ser? [87%]
Enterro (PAUS)
(2026, Independente)
O derradeiro capítulo
dos Paus materializa-se em Enterro, um álbum que assume, sem
ambiguidades, a forma de ritual de despedida. Após 18 anos de atividade, o
quarteto encerra o seu percurso com um registo coeso e simbólico, mantendo a
sua postura a oscilar entre o caos, a experimentação e uma pulsação rítmica
muito própria. Composto por sete temas, o disco funciona como uma espécie de
cerimónia sonora onde a banda revisita a sua identidade, ao mesmo tempo que a
desconstrói. Logo a abrir, no curtíssimo Ficamos Por Aqui, a banda
estabelece o tom de aceitação, que se adensa na reflexão clínica de Causa de
Morte. Entre momentos de ironia e tradição subvertida, Não Há Vinho Pra Carpideiras
e Uma Vala Aberta reforçam o simbolismo fúnebre que atravessa todo o
registo. Musicalmente, mantém-se a essência crua e tribal que sempre definiu os
Paus, embora agora envolta numa carga emocional mais densa. Mais que um
ponto final, Enterro é um gesto consciente, uma cerimónia sonora onde
cada tema representa uma etapa de um adeus. Mas que deixa em aberto o espaço
para que outras vozes e inquietações floresçam a partir das suas cinzas. [73%]
Gehenna (FJORDS)
(2026, Paralelopípedo
Sónico)
Gehenna dos
Fjords é um daqueles discos que vive exclusivamente do risco. Mas, como
sempre acontece nestas situações, nem sempre se sai a ganhar. Estruturado como
uma viagem conceptual à Divina Comédia, o registo aposta numa lógica
expansiva em apenas quatro temas, dois deles a ultrapassar a marca dos dez
minutos, onde garage, noise e psicadelismo se entrelaçam num fluxo denso
e abrasivo. A distorção é constante, suja, sufocante, e a produção crua reforça
essa estética de confronto e desconforto. No entanto, o formato de duo
revela-se limitativo, levando a que a densidade sonora nem sempre se traduza em
profundidade composicional. Há atitude, há vontade de rutura, mas escasseiam
momentos verdadeiramente memoráveis, faltam temas que agarrem, que permaneçam.
Há, todavia, caos e derivações e, desta forma, Gehenna afirma
identidade, mas tropeça na própria ambição. Fica a sensação de um disco mais
interessante enquanto ideia do que enquanto experiência plenamente conseguida. [65%]
Hot Stuff 3 (THE CHUCK NORRIS EXPERIMENT)
(2026, Ghost Highway Recordings/Chaputa Records)
O novo lançamento dos
suecos The Chuck Norris Experiment é exatamente o que o título promete:
combustível bruto para motores de rock’n’roll. Hot Stuff 3
funciona como uma coletânea de lados B, raridades e material inédito, mas está
longe de ser apenas um arquivo de sobras. Pelo contrário, o disco transborda
energia caótica, frenética e suja, como se cada faixa tivesse sido gravada com
amplificadores no limite e pressa em incendiar o próximo palco. Misturando punk
rock veloz, garage rock e high-energy rock’n’roll, a banda
mantém aquele espírito descontrolado que sempre definiu sua carreira: riffs
diretos, bateria a atropelar tudo e vocais rasgados que parecem saídos de um
bar prestes a desabar. Há algo de clássico na atitude, há ecos do punk
escandinavo e do rock de garagem, mas executado com a urgência de quem
ainda vive na estrada. Para fãs da banda, o álbum é um baú de dinamite sonora;
para novos ouvintes, uma porta de entrada perfeita para entender por que, após
mais de duas décadas, os suecos continuam a ser uma máquina de rock
rápida, barulhenta e perigosamente divertida. [75%]






Comentários
Enviar um comentário