Depois
de um percurso marcado pelo trabalho no universo do fado, do teatro e da
composição, Miguel da Silva apresenta Os Melros, um disco profundamente
pessoal onde a viola de fado se cruza com a poesia de João Monge e as
interpretações de nomes como Maria João Luís, André Gago ou Zeca Medeiros. Ao
longo desta entrevista, o músico fala sobre a vontade de explorar novas
possibilidades para a viola de fado e a construção de uma obra livre de
barreiras estilísticas.
Olá,
Miguel, como estás? Para começar, e tendo em conta que este é um momento
marcante da tua carreira, como apresentarias Os Melros a quem
ainda não teve qualquer contacto com o álbum?
Olá! Antes de mais, muito obrigado pelo interesse neste meu álbum e por
esta oportunidade de o poder dar a conhecer aos seguidores do Via Nocturna.
A forma mais clara de apresentar o álbum
Os Melros é através do seu subtítulo: Música para Viola de Fado e
Poesia de João Monge. Este é um álbum em que a minha música instrumental
para viola de fado se encontra com poesia original de João Monge,
recitada por Maria João Luís, André Gago, Pedro Lamares, Zeca
Medeiros e Sandro Feliciano. É um álbum em que a palavra dita tem
uma importância enorme e dita o tom de cada uma das faixas. Contudo,
desengane-se quem pensar que este é somente um álbum de poesia recitada e
música instrumental para viola de fado - este é um trabalho com uma sonoridade
muito diversa e peculiar, com muitas subtilezas para serem descobertas em cada
tema e que foi pensado para ser escutado com tempo e atenção.
Este
disco surge após um percurso longo e multifacetado na música. Em que momento
sentiste que já não fazia sentido adiar um trabalho verdadeiramente teu e
autoral?
O meu percurso na música tem-me permitido ter experiências muito
diversas e contactar com excelentes artistas e profissionais de várias áreas, o
que tem sido determinante para a minha formação enquanto artista. A decisão de
avançar para este álbum não se prendeu tanto com uma questão de não poder adiar
mais o início deste trabalho, mas sim com uma certeza de já ter maturidade
artística suficiente para criar algo como Os Melros. Em 2023, quando
comecei a reunir material para este trabalho, estava num ponto da minha
carreira em que já tinha colaborado com vários artistas que admiro bastante, já
tinha composto para alguns artistas e projetos, já tinha produzido alguns
trabalhos, já tinha bastante experiência como músico em teatro e musicais…e,
aí, senti que estava num ponto da minha carreira em que não só fazia sentido
criar um projeto meu como também considerava que já tinha as ferramentas e
experiências que eu achava suficientes para o poder fazer com o nível de
qualidade com que gosto de trabalhar.
Há um
episódio-chave em 2023, ligado ao concerto com António Chainho e ao desafio que
te foi lançado. Até que ponto esse momento funcionou como gatilho decisivo para
o nascimento de Os Melros?
Em 2023 tive a oportunidade de acompanhar o Mestre António Chaínho
em alguns dos concertos da sua última digressão, o que foi uma experiência
muito marcante, não só a nível musical como pessoal. No final do concerto de
estreia dessa digressão, uma das pessoas da sua equipa falou comigo e
desafiou-me a que eu desenvolvesse algum trabalho meu. Fiquei a pensar nesse
desafio durante algum tempo porque se, por um lado, isso era algo que já queria
fazer, por outro, era importante para mim descobrir o que é que eu poderia
trazer ao mercado artístico português que fosse único e pertinente. Foi desse
processo de reflexão que surgiu a ideia base para este álbum, ou seja, a ideia
da ligação entre a música para viola de fado e a poesia recitada.
A
viola de fado assume aqui um papel central, mas fora da sua função tradicional
de acompanhamento. O que te atraiu neste “desvio” e que potencial descobriste
no instrumento enquanto voz principal?
A viola de fado é um instrumento com um timbre muito especial que
descobri ao longo do meu percurso profissional no meio do fado. No fundo, a
viola de fado é uma variação da guitarra que foi sendo desenvolvida em Portugal
com vista ao acompanhamento do fado (a caraterística mais evidente deste
instrumento é a utilização de cordas de aço num corpo semelhante ao de uma
guitarra clássica, mas há mais diferenças estruturais que fazem com que o mesmo
tenha um timbre particular). O som deste instrumento remete-nos para a tradição
musical portuguesa, mas não de uma maneira óbvia ou direta, e isso é algo que
me interessa bastante. Quando comecei a tocar com uma viola de fado, percebi
que este instrumento tinha potencial para muito mais do que apenas ficar
cingido à função de acompanhamento do fado - percebi que é um instrumento que
pode soar bastante completo se utilizado como solista, que pode ser muito
expressivo e muito rítmico se assim o desejarmos e que pode conferir uma
profundidade muito especial a algumas peças, dada a sua sonoridade. Essa
versatilidade que encontrei na viola de fado despertou-me curiosidade, visto
que gosto de explorar caminhos novos na música que faço. Por isso, ao preparar
este álbum, fez-me sentido tentar explorar o potencial deste instrumento
enquanto instrumento solista, libertando-o por completo da função de
acompanhamento à qual está normalmente associado. Uma boa parte do trabalho de
composição passou, então, por perceber que tipo de recursos resultam na viola
de fado, pois a resposta do instrumento é muito diferente da resposta da
guitarra clássica. Isso fez-me descobrir soluções diferentes, pensadas para a
resposta da viola de fado, e que estão bem patentes em composições como Da
Janela Vej’o Melro, Maçãs de Deus ou Ainda Há Flor-da-pele,
por exemplo. Depois de terminado este álbum, tenho a certeza de que há ainda
nesta viola de fado muito mais recursos por descobrir.
O
álbum nasce, em parte, de improvisações antigas guardadas no telemóvel. Como
foi revisitar esse material e transformá-lo em composições estruturadas?
Conseguiste manter a espontaneidade original?
Revisitar todo esse material que tinha, inadvertidamente, composto ao
longo de anos foi uma experiência importante, pois foi nesse processo que me
apercebi de que teria material suficiente para iniciar a composição de um
álbum. Transformar os trechos que selecionei em composições estruturadas foi um
processo de descoberta muito importante: esses trechos não tinham sido
originalmente pensados para este projeto e fazer essa adaptação foi um processo
que passou por descobrir soluções e por, de certo modo, reinventar algum do
material que tinha composto, tentando sempre manter a energia que estava
associada a cada uma das improvisações. Esse processo de adaptação só terminou
com a finalização da produção de cada um dos temas, mas todo o processo teve
por base uma ideia de liberdade criativa e interpretativa quase absoluta. Por
isso, essa espontaneidade e energia de cada uma das improvisações acabaram por
ficar sempre presentes, mas de uma forma diferente: acabam por estar em muitos
pormenores e em muitas decisões que foram sendo tomadas ao longo do processo e
que se refletem no resultado final.
A
presença da poesia de João Monge é absolutamente estruturante no disco. O que
mudou na tua forma de compor ao trabalhares com palavras que, muitas vezes,
exigem espaço, respiração e intenção própria?
Trabalhar tão de perto com poesia de João Monge fez-me ter um
cuidado e um respeito ainda maiores pela palavra no processo de composição e
produção. O maior cuidado que tive ao longo deste processo foi garantir que
todas as decisões fossem tomadas em prol do poema: ou seja, a principal
preocupação para mim e para os atores que trabalharam neste álbum foi garantir
que cada poema fosse bem compreendido. O facto de ter a palavra como farol
orientou muitas das decisões (por exemplo, a nível de arranjos e de mistura) e
acabou por me permitir encontrar caminhos que não teria encontrado de outra
maneira. Penso que neste álbum é possível notar esse respeito e cuidado pela
poesia do João Monge e essa postura de respeito e cuidado pela poesia é
algo que, certamente, vai continuar a marcar o meu trabalho e a minha abordagem
à composição.
Convidaste
um conjunto muito particular de intérpretes (André Gago, Maria João Luís, Pedro
Lamares ou Zeca Medeiros) para dar corpo a esses poemas de João Monge. O que
procuraste em cada uma dessas vozes e de que forma essas escolhas influenciaram
o resultado final das composições?
Cada um dos convidados trouxe caraterísticas muito próprias a este
trabalho. São 5 artistas com bastante experiência que têm abordagens muito
próprias à recitação de poesia, sendo todas elas muito diferentes e muitíssimo
interessantes.
O André Gago é um artista extremamente criativo
que não só recita muito bem como também canta bastante bem. Quando o convidei, a ideia inicial
era apenas que ele recitasse o poema Terra para que eu, depois,
compusesse a música sobre isso. Quando começou a preparar a gravação, o André
Gago enviou-me um trecho da sua interpretação do poema que continha uma
parte cantada por si com uma melodia que criou sobre uma parte do poema. Isso
acabou por fazer com que eu gravasse a música em simultâneo com ele para que o
pudesse acompanhar durante a gravação dessa secção que seria cantada, o que foi
determinante para toda a dinâmica que conseguimos no tema Terra.
A Maria João
Luís tem uma maneira
de recitar poesia que é muito própria, que conduz o ouvinte de uma forma muito
especial e intensa pelo poema e que, por vezes, parece ser quase cantada. Foi
exatamente por essa caraterística que a convidei para recitar O Gesto e Águas
da Terra, pois gostava de ter essa sua abordagem a esses dois
poemas. A expressão e
musicalidade que imprimiu a esses dois poemas transformaram esses dois temas em
obras muito especiais.
Convidei o Pedro Lamares, depois de ter ouvido algumas gravações
suas, a recitar poesia, que adorei. A meu ver, o Pedro Lamares consegue uma mistura muitíssimo interessante entre uma
enorme noção musical da recitação de poesia e uma importantíssima preocupação
pela perceção do poema. A forma como ele trabalha o ritmo, os silêncios, as dinâmicas
e as pausas para dar intensidade às palavras é mesmo muito especial e fez
toda a diferença no resultado final de Quem Ama e Maçãs
de Deus.
O Sandro Feliciano tem uma voz jovem, mas que carrega consigo uma experiência
sólida no uso artístico da palavra. Já tinha trabalhado com ele
numa composição minha com um poema de Mário Cesaniry intitulada Em Forma
de Carta e convidei-o para interpretar o tema Irmão depois de ver
uma interpretação dele na peça Casa Portuguesa (de Pedro Penim).
A intensidade que dá às palavras e a forma como trabalha o poema, sugerindo até
diferentes interpretações do mesmo, foram o que me fez contactá-lo de novo para
fazer parte deste álbum - e sei que foi a escolha certa para o tema Irmão.
O Zeca
Medeiros tem uma voz
inconfundível! Tem uma forma de interpretar que confere um peso muito especial
às palavras, dando-lhes um timbre muito especial. Isso ficou especialmente
patente na sua interpretação do poema Consulta, tema no qual toda a
composição e arranjo foram feitos a partir da sua interpretaçãoo.
A sua interpretação do poema Consulta influenciou não só esse tema como
também levou ao surgimento do tema que se segue a esse - Ainda Há Flor-da-pele.
Musicalmente,
o álbum cruza fado, música erudita, jazz, eletrónica e tradição coral
portuguesa. Essa diversidade foi uma consequência natural do processo ou houve
um momento em que percebeste que o disco teria de assumir essa identidade mais
aberta?
Uma das primeiras premissas que defini para este trabalho foi a de que
este álbum não estaria limitado por um género musical ou por referências
específicas. Decidi, logo no início do processo de produção, que deixaria que a
identidade sonora de cada faixa e do álbum fosse sendo construída ao longo do
processo mediante o que me fizesse sentido e foi isso que acabou por acontecer.
Na minha composição já cruzo, naturalmente, muitas das influências que me
marcaram e à medida que fui trabalhando sobre cada uma das músicas e sobre cada
um dos poemas, fui também explorando elementos sonoros que me faziam sentido
para cada tema (que acabavam por ter também uma grande relação com a minha
própria identidade sonora e musical). No fundo, a sonoridade deste álbum foi sendo
construída faixa a faixa e sempre com uma premissa de liberdade criativa
bastante presente.
Para terminar, depois de um disco tão pessoal e construído a partir da tua identidade artística e humana, que caminho gostarias que Os Melros abrisse daqui para a frente, tanto para ti como para quem o escuta?
O facto de este álbum estar tão ligado à poesia tem-me permitido ter cada vez maior contacto com a poesia e com quem a escreve, declama e escuta. Espero que o caminho deste álbum continue a ajudar-me a conhecer mais e melhor este universo tão livre de que tanto gosto e sobre o qual tanto gosto de trabalhar. Para quem escutar este álbum, espero que Os Melros possam ser uma forma de conhecerem ainda melhor a poesia de João Monge, a minha música e a arte de todos os artistas e técnicos que colaboraram neste álbum.
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