Alvito 2026 (A. P. Braga)
(2026, Testa de
Ferro)
Alvito 2026, de
A. P. Braga, apresenta-se como um exercício de reinterpretação e
memória, cruzando tradição oral, canção de intervenção e escrita autoral num
território profundamente enraizado na cultura ibérica e mediterrânica. O álbum
articula temas originais com letras de Leonel Neves e poemas de David
Mourão-Ferreira, bem como canções históricas como Trova do Vento Que
Passa, com poema de Manuel Alegre e popularizada por Adriano
Correia de Oliveira, reafirmando a ligação ao cancioneiro de resistência
português. A par destas criações, surgem revisitações de repertórios populares
de diferentes geografias e contextos históricos: da resistência italiana à
Guerra Civil Espanhola, passando por um tema alentejano e pela tradição
açoriana. O diálogo estende-se ainda à canção de Coimbra, imortalizada por Luís
Goes, e a ecos da obra de Vicente da Câmara. O alinhamento inclui
também originais associados a Fausto Bordalo Dias e a António Macedo,
figura central no universo da música de intervenção, aqui convocado tanto como
compositor como referência histórica. O disco encerra com um tema escondido,
num registo mais livre e subtil, evocando uma estética narrativa associada a Sérgio
Godinho. [72%]
Rosendals Garden (YELENA ECKEMOFF)
(2026, L & H
Production)
Depois da abordagem
em sexteto do álbum anterior, Yelena Eckemoff regressa agora ao formato
de trio em Rosendals Garden, numa obra atmosférica e cinematográfica,
como se de um diário musical de uma viagem pela Suécia se tratasse. Inspirado
pelas paisagens, história e identidade cultural suecas, o álbum transforma cada
composição numa pequena narrativa onde o jazz contemporâneo cruza
improvisação livre, apontamentos folk escandinavos e um forte sentido
imagético. A química entre Eckemoff, Svante Henryson e Morgan
Ågren revela-se particularmente natural nas secções mais livres e
experimentais, dando ao disco uma fluidez orgânica que esbate a fronteira entre
composição e improvisação. Sente-se que há vontade de criar espaço para o
risco, para o freestyle e para o diálogo espontâneo entre os músicos. E
esse é, precisamente, o grande trunfo de Rosendals Garden: a capacidade
de soar acessível e estimulante, mostrando uma pianista de enorme sensibilidade
enquanto compositora e contadora de histórias sonoras. [80%]
Tudo ao Contrário (KUMPANIA ALGAZARRA)
(2026, Independente)
Nascidos em 2004 nas
ruas de Sintra, os Kumpania Algazarra afirmaram-se como uma das brass
bands mais explosivas do panorama nacional, cruzando ska, reggae,
folk, ritmos balcânicos e sonoridades latinas numa identidade
multicultural muito própria. Após celebrarem duas décadas de carreira em 2024,
o coletivo regressa agora com Tudo ao Contrário, o seu 10.º álbum de
estúdio e também a primeira edição em vinil da banda. Neste novo trabalho, os
sopros continuam a ser o elemento fundamental, conduzindo temas de ritmos
irresistíveis e dançáveis, carregados de energia nostálgica e festiva. O disco
mistura influências caribenhas, africanas e balcânicas, destacando ainda a presença
do acordeão, incluindo a participação especial de Slavko Pavlovic. Entre
ritmos infeciosos, ambientes mais rockeiros e groovados com sabor
a reggae, e temas cantados em português, inglês e espanhol, além do
recurso a instrumentais, Tudo ao Contrário aprofunda também a vertente
eletrónica da banda. Como se confere em Move Your Body, onde essa
eletrónica ganha ainda maior destaque, encerrando o álbum numa explosão
vibrante e libertadora. [89%]
Love Is Never Enough (TSUNAMIZ)
(2025, Independente)
O álbum Love Is
Never Enough, lançado de forma independente em 2025 por Tsunamiz,
apresenta uma proposta sólida e coerente dentro do universo alternativo e
eletrónico. O disco destaca-se pela mistura de pós-punk, synthpop,
rock alternativo e eletrónica, criando uma sonoridade energética. As
referências a nomes como Joy Division, Depeche Mode ou Tame
Impala surgem frequentemente na memória e, em vários momentos, o álbum
consegue criar ambientes envolventes, ainda que nem todas as ideias atinjam o
mesmo impacto. Embora o resultado final não seja propriamente apelativo a não
ser aos mais fervorosos fãs do género, Love Is Never Enough consolida Bruno
Sobral e o seu projeto Tsunamiz como um dos projetos independentes
portugueses mais prolíficos e versáteis da atualidade. [67%]
Obsidian Light (HER NAME WAS FIRE)
(2026, Independente)
Já não ouvíamos falar
dos Her Name Was Fire desde 2016, embora isso não signifique que a banda
tenha estado parada. De facto, nesse período lançou dois álbuns, mas é com o EP
Obsidian Light que o duo lisboeta regressa com cinco temas onde o fuzz
e o groove surgem mais focados e eficazes do que nunca. Não reinventam a
fórmula, mas João Campos e Tiago Lopes também não se preocupam
com isso. A sua intenção é ser fiel aos seus sentimentos e isso é conseguido
com riffs pesados, baixo musculado, camadas vocais, refrões diretos e equilíbrio
entre agressividade desert/stoner e melodia alternativa. Há ecos
de Queens Of The Stone Age, Alice In Chains ou Foo Fighters,
mas o duo mostra suficiente identidade para se afastar das suas referências. Electrify
e Facekicker destacam-se pela urgência física dançável, enquanto Head
On The Wall introduz um lado mais melódico sem perder peso. Better Days
abranda para criar uma atmosfera hipnótica e sufocante antes do desfecho
explosivo de Steamed. Em suma, Obsidian Light é, acima de tudo,
um regresso convincente ao essencial: volume, instinto e canções que deixam
marca e que prometem fazer furos ao vivo. [82%]






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