A
Indieota concretiza em 2026 uma ambição que vinha sendo construída há vários
anos com o lançamento do AltMania. Descrito como um dia de concertos dedicado
ao que de melhor se faz no panorama indie
e alternativo, o festival estreia-se a 4 de julho na Banda Democrática 2 de
Janeiro, no Montijo, apostando numa programação que cruza rock
psicadélico, punk, hardcore, rap e hip hop. Sobre a
origem do projeto, a importância de dar palco às novas vozes do underground
português e a visão para o futuro do AltMania, conversámos com Luís Teixeira,
fundador da Indieota e um dos principais impulsionadores desta nova aventura.
Olá, Luís, tudo bem? O
AltMania nasce em 2026, mas a Indieota existe há mais de uma década. Em que
medida este festival representa a concretização de uma ideia que já vinha a ser
amadurecida há anos?
Representa o desejo da Indieota de ter o seu
próprio festival de música. Já fizemos em 2016 o IndieotaFESTAval que
foi um sucesso e agora com a AltMania queremos fazer um rebrand do
festival e começar do zero. Com trabalho, poderemos transformar a AltMania na
nova atração para os alternos, os indies, os undergrounders e ao
mesmo tempo continuar a encontrar os nomes do futuro na música portuguesa.
O cartaz mistura rock
psicadélico, hardcore, punk, rap e hip hop. Qual foi
o critério para construir uma programação tão diversa e o que une
artisticamente estes projetos?
Não houve critério, nós (a Indieota) estamos
sempre atentos ao que de melhor acontece no indie e no underground,
por isso seria inevitável não exibir um cartaz destes. Estas são as bandas
do futuro e estão aqui presentes! É uma alegria imensa poder descobrir estas
joias e poder dar-lhes um palco para exibirem os seus dons. Não podia estar
mais satisfeito com isto.
A primeira edição
realiza-se no Montijo, cidade intimamente ligada ao percurso da Indieota. Que
significado tem lançar o festival precisamente aí, em vez de optar por Lisboa
ou outro grande centro urbano?
O desejo do Indieota, que antes se chamava Montijo
Sound sempre teve o grande objetivo de impactar a cidade do Montijo e hoje,
com um cartaz destes estamos a fazer muito mais que impactar, estamos a
dinamizar uma cidade que é um deserto cultural, não sei por culpa de quem mas a
verdade é que nos falta alguém que esteja verdadeiramente atento ao underground
e ao indie e que consiga materializar isso em grandes cartazes que
espelham esse poderio nacional que temos na nossa música atualmente e nós
achamos que a Indieota é o curador certo para isto.
A Indieota tem
trabalhado como revista, editora, promotora e agência de comunicação. O
AltMania é mais um passo nessa expansão. Como é que todas estas vertentes se
complementam na construção de uma comunidade musical?
Complementa-se imenso, pois é o continuar de uma
jornada que não seria feita sem essa mesma comunidade. Por isso é que nós
seguimos quase 53% das pessoas que nos seguem, pois 90% delas são bandas,
artistas. E eles são os próximos a tocar na Altmania! Essa comunidade é
o nosso espelho, espelha bem aquilo que a Indieota é como marca.
No cartaz encontramos
nomes emergentes e outros com percursos mais consolidados. Consideras que o
principal objetivo do AltMania é descobrir novos talentos ou criar um espaço de
encontro entre diferentes gerações da música alternativa portuguesa?
Eu acho que o melhor que podemos tentar fazer
anualmente, se Deus quiser, é sem dúvida encontrar os novos talentos do amanhã.
Interessa-nos ter alguns nomes locais do Montijo no cartaz, por isso é que
trouxemos o Utigas ou o Genes, por exemplo, porque são os dois
filhos do Montijo. Mesclando esses artistas locais assim por dizer e misturando
outros vindos de fora, teremos sempre a receita para grandes cartazes AltMania,
esperamos nós.
O Indieota sempre
demonstrou uma atenção especial ao underground nacional. Achas que
continua a existir um défice de espaços e eventos dedicados à música
independente em Portugal?
Acho que muitos desses espaços vivem numa bolha e nem
sempre se apercebem de que há nomes como o Genes, por exemplo, que já
fazem isto há dez anos e que merecem tanto tocar como os outros artistas. Acho
que muitas vezes temos de esquecer o orgulho e focarmo-nos no potencial do
artista e por vezes não é isto que os espaços demonstram. Por isso é que têm de
existir mais pontes entre esses estabelecimentos e a cena underground,
por exemplo, porque a nossa cena musical portuguesa é tão pequenina que nos
esquecemos de que no fundo todos vimos do underground, todos começamos
de algum lado. É mesmo muito importante algumas destas entidades acordarem para
um novo mundo dominado pelo indie e pelo underground.
Sendo também músico,
sob o nome artístico de Genes, como geres a passagem entre o papel de artista e
o de organizador de um festival? Existem conflitos ou vantagens nessa dupla
perspetiva?
Eu tento sempre representar ambas as marcas da melhor
forma que consigo. O Genes é o Genes, a Indieota é a Indieota.
A Indieota é a entidade onde o Genes trabalha. Eu tento sempre
esquecer o orgulho quando trabalho com ambos para não haver demasiadas
preferências... Mas sim, eu lido bem com ambos e existem sempre algumas
vantagens nesta dupla personalidade.
Que tipo de experiência
gostarias que o público levasse para casa após esta primeira edição do
AltMania? Há algum festival ou evento que sirva de inspiração para aquilo que
pretendes construir?
Gostaria que levassem uma experiência de
experienciarem algumas das bandas rock mais ferozes da atualidade, as
tais ditas bandas rock do futuro. Claro que me inspiro em muitos
festivais, nomeadamente o Camp Flog Gnaw porque é basicamente o Tyler a
trazer as bandas que mais curte para o cartaz, é exatamente isso que a Indieota
faz, só que em vez de só fazer booking com as bandas que curte, traz as
bandas que o pessoal curte. É muito importante não haver votações nem nada
disso, é muito importante ir às ruas e perceber o que o povo gosta e neste
cartaz temos um pouco de tudo isto, o que eu acho ser genial.
Se esta edição correr
como esperado, qual é a visão para o futuro do AltMania? Imagina-o como um
festival de nicho, focado na curadoria, ou como um evento com potencial para
crescer significativamente nos próximos anos?
Se esta edição correr muito bem, eu espero levar o
projeto até à Câmara Municipal e tentar expandir o evento. Não vou e recuso-me
a rivalizar com outros eventos idênticos; pode muito bem haver dois ou três
festivais de música na mesma localidade e eu acho importante haver mais eventos
similares à AltMania a acontecerem no Montijo.
O slogan implícito do
Indieota parece ser o apoio persistente à música feita fora dos circuitos mais
óbvios. Em 2026, o que significa para ti ser verdadeiramente “alternativo” na
música portuguesa?
Eu acho que ser alternativo na música portuguesa é
conseguir sobreviver com a tua arte. Eu acho que essa é a nova direção. Seja a
fazer o que for preciso: vendas, bordados, roupa, merch, música...
Desde que seja algo relacionado com artes, já estás a fazer a diferença e se
consegues obter lucro, não só é apenas de uma só coisa (como só a fazer música)
como a vender t-shirts, por exemplo, ou rifas ou o que for dentro da
área: parabéns por isso. Eu acho que esse é o novo significado de ser
alternativo na música portuguesa, mesmo com todas as dificuldades.
Para terminar, obrigado mais uma vez pelo teu tempo. Queres deixar uma última mensagem aos leitores do Via Nocturna 2000 e a todos os que irão assistir ao AltMania?
Queremos encher a Banda Democrática 2 de Janeiro, queremos esgotar o sítio. Por isso venham com amigos, tragam as namoradas e namorados e vamos curtir à brava, diversão pura mesmo.



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