Ao
longo de mais de duas décadas, os Kumpania Algazarra construíram um percurso
singular na música portuguesa, cruzando sonoridades balcânicas, ska, fanfarra, reggae e música do mundo numa
identidade festiva e interventiva. Depois de celebrarem os 20 anos de carreira,
a banda regressa agora com Tudo ao Contrário, o seu décimo álbum de
estúdio, um trabalho que abraça algumas novidades estilísticas. Apesar de os
Kumpania Algazarra continuarem a ser um espaço de celebração, reflexão e
resistência, quisemos saber mais sobre o significado deste novo marco na
carreira da banda.
Viva, pessoal, como
estão? Já passaram três anos desde a nossa última conversa. Muita estrada,
muitos concertos e novas experiências pelo meio. Como olham hoje para este
percurso recente dos Kumpania Algazarra e para aquilo que a banda se tornou
nesta nova fase?
Estes últimos três anos passaram a correr. Fizemos
muitos quilómetros, tocamos em muitos sítios diferentes e vivemos experiências
que nos fizeram crescer bastante como banda. Esta nova fase dos Kumpania
Algazarra tem sido uma aventura divertida. Temos explorado mais a música
eletrónica e procurado misturá-la com a nossa identidade e energia de sempre.
Tem sido um processo natural que nos tem dado novas ideias e uma liberdade
criativa enorme. O melhor de tudo é que temos sentido uma ótima reação por
parte do público. Nos concertos, as pessoas têm recebido muito bem estas novas
sonoridades e isso dá-nos ainda mais vontade de continuar a experimentar e a
levar a banda por novos caminhos.
Tudo ao Contrário marca o vosso 10.º
disco de estúdio, uma marca simbólica para qualquer banda. O que representa
para vocês chegar a este marco depois de mais de duas décadas de carreira?
Chegar ao 10.º disco é um marco muito especial para
nós. Sentimos que era a altura certa para assinalar esse momento de uma forma
diferente e, por isso, decidimos lançar este álbum também em vinil. É uma
maneira de deixar uma marca física deste percurso e de celebrar tudo o que
vivemos até aqui. Brincamos muitas vezes com a ideia de que estas são as nossas
"bodas de estanho": uma prova de resistência. Ao longo de mais de
duas décadas, enfrentámos muitos desafios, tanto na estrada como na realidade
de fazer música em Portugal. Nem sempre foi fácil, mas continuamos aqui, com
vontade de criar, de tocar ao vivo e de partilhar a nossa música com as
pessoas. Este disco acaba por simbolizar um pouco isso tudo: a nossa capacidade
de adaptação, a persistência e a paixão que nos trouxe até aqui.
Este novo álbum surge
depois das celebrações dos 20 anos da banda. De que forma esse período de
celebração, revisitação e contacto com o público influenciou a criação deste
disco?
De certa forma, este disco nasceu muito desse processo
de olhar para trás. As celebrações dos 20 anos fizeram-nos revisitar muita
coisa e foi quase como tirar o pó às prateleiras. Tínhamos músicas e ideias que
foram surgindo em ensaios ao longo dos anos, mas que nunca chegaram a ser
gravadas ou lançadas. As bases de algumas dessas músicas já existiam há
bastante tempo, mas a maior parte das letras foi escrita agora. E isso acabou
por dar ao disco uma perspetiva muito interessante, porque as letras refletem simultaneamente
o caminho que fizemos, o momento que estamos a viver e aquilo que imaginamos
para o futuro. Há um olhar para o ontem, para o hoje e para o amanhã. Muitas
destas músicas já tinham sido experimentadas ao vivo e fomos percebendo, pela
reação do público, que havia ali qualquer coisa especial. Este disco acaba por
juntar essa energia que nos acompanha há anos com uma visão mais madura e atual
da banda.
Como nasceu Tudo ao Contrário?
Houve algum momento, ideia ou necessidade específica que tenha servido de ponto
de partida para este álbum?
Tudo ao Contrário nasceu muito da observação do mundo à nossa volta e
da forma como as coisas vão mudando. Vivemos numa altura em que tudo parece
estar constantemente a transformar-se: os valores mudam, as prioridades mudam
e, muitas vezes, aquilo que antes era importante acaba por perder espaço ou
significado. Essa sensação de que as coisas estão, de certa forma, "ao
contrário" foi-nos acompanhando ao longo da criação do disco. Não numa
perspetiva pessimista, mas como uma reflexão sobre a sociedade e sobre a forma
como nos relacionamos uns com os outros e com o que nos rodeia. A música Tudo
ao Contrário acabou por resumir muito bem essa ideia e percebemos que fazia
todo o sentido dar esse nome ao álbum. É um tema que representa o espírito do
disco e as questões que fomos explorando ao longo das canções: olhar para as
mudanças, questioná-las e tentar encontrar o nosso lugar no meio delas.
O disco aprofunda um
pouco a componente eletrónica da vossa sonoridade, sem perder a identidade
balcânica, ska e de fanfarra que vos caracteriza. Como foi encontrar
esse equilíbrio entre inovação e ADN Kumpania Algazarra?
Foi um processo bastante natural. Nunca sentimos que
estávamos a abandonar a nossa identidade, porque aquilo que nos define continua
lá: os sopros, a energia de fanfarra, as influências balcânicas, o ska
e, acima de tudo, a vontade de pôr as pessoas a dançar e a celebrar. A
componente eletrónica surgiu mais como uma ferramenta para expandir o nosso
universo sonoro do que como uma mudança de direção. Fomos experimentando novas
texturas, beats e ambientes, mas sempre com a preocupação de que tudo
fizesse sentido dentro do ADN da banda. Na verdade, gostamos de pensar que os Kumpania
sempre foram uma banda sem grandes barreiras musicais. Ao longo dos anos fomos
absorvendo influências de muitos estilos diferentes e este disco é mais um
capítulo dessa evolução. O desafio esteve em encontrar o equilíbrio certo, mas
sentimos que conseguimos fazê-lo sem perder a nossa essência. Quem ouvir o
disco vai reconhecer imediatamente os Kumpania Algazarra, mas também vai
encontrar novas cores e novas camadas na nossa música.
Há uma ideia muito
forte de libertação, comunhão e resistência através da dança ao longo do álbum.
Sentem que hoje a música e sobretudo a festa também podem ser uma forma de
resposta ao clima social e emocional que se vive atualmente?
Sem dúvida. Achamos que a música e a arte sempre foram
formas de resistência e de alguma rebelião contra aquilo que nos é imposto como
normal ou inevitável. Ao longo da história, foram muitas vezes espaços de
liberdade, de questionamento e de união entre as pessoas. Hoje sentimos que
isso continua a ser muito importante. Vivemos tempos de grande pressão, divisão
e ansiedade, e a música tem a capacidade de criar momentos de comunhão onde as
diferenças ficam em segundo plano. Quando estamos todos a dançar, a cantar ou a
celebrar juntos, cria-se uma energia muito especial que nos relembra aquilo que
temos em comum. Para nós, a festa nunca foi apenas entretenimento. É também
uma forma de libertação, de expressão e até de resistência. Nem que seja
por algumas horas, permite às pessoas desligarem-se do ruído do dia a dia,
ganharem força e voltarem a ligar-se umas às outras. E isso, nos tempos que
correm, tem um valor enorme.
Ignite apresentou este novo capítulo
da banda como um verdadeiro hino coletivo e explosivo. Por que decidiram que
este seria o primeiro tema a mostrar ao público?
Escolhemos o Ignite porque sentimos que
representa muito bem o espírito deste novo capítulo dos Kumpania Algazarra.
É um tema que fala da importância da união, da celebração e da força que nasce
quando as pessoas se juntam à volta da música. A festa, para nós, nunca foi
apenas um momento de diversão. É um espaço de encontro, de partilha e de ação
coletiva, onde as pessoas se ligam umas às outras e criam algo maior do que a
soma das suas individualidades. O Ignite transmite exatamente essa
energia: uma espécie de chama que se acende quando estamos juntos e que nos faz
avançar como comunidade. Além disso, é um tema com uma energia muito forte e
contagiante, que junta na perfeição a identidade da banda com as novas
sonoridades que exploramos neste disco. Pareceu-nos a melhor forma de abrir a
porta para este novo trabalho e convidar o público a entrar connosco nesta
viagem.
No tema Ladólež, contam com
a participação do músico Slavko Pavlović. Como surgiu este encontro e o que o
trouxe musicalmente ao universo de Tudo ao Contrário?
O Slavko já é um amigo de longa data dos Kumpania
Algazarra e esta não é a primeira vez que colaboramos. Ao longo dos anos
participou em outros trabalhos da banda e sempre existiu uma ligação muito
natural, tanto a nível humano como musical. A presença dele em Ladólež
trouxe precisamente essa autenticidade e a sonoridade balcânica que faz parte
das nossas influências desde o início. Ao ouvi-lo, somos transportados para
muitas das experiências que vivemos ao longo dos anos, dos festivais, das
viagens e dos momentos partilhados com músicos dos Balcãs que tanto nos
inspiraram. Musicalmente, a participação do Slavko ajuda a ligar duas dimensões
muito presentes neste disco. Por um lado, traz a sonoridade acústica e
tradicional dos Balcãs, que faz parte das raízes dos Kumpania Algazarra.
Por outro, essa mesma identidade convive naturalmente com os elementos
eletrónicos que exploramos neste álbum. O resultado é um encontro entre as
nossas influências mais antigas e a vontade de experimentar novos caminhos.
Este é também o
primeiro álbum dos Kumpania Algazarra editado em vinil. Era um objetivo antigo
da banda? O que significa para vocês ver finalmente um disco vosso ganhar esse
formato mais físico e intemporal?
Sim, era um objetivo que já tínhamos há bastante
tempo. Sendo este o nosso 10.º disco, pareceu-nos o momento certo para
finalmente dar esse passo e celebrar este marco de uma forma especial. O vinil
tem um significado diferente. Numa altura em que a música é cada vez mais
consumida de forma digital e imediata, gostamos da ideia de criar um objeto
físico que as pessoas possam guardar, colecionar e revisitar ao longo dos anos.
Há algo de muito especial em pegar num disco, apreciar a capa, ler os créditos
e ouvir o álbum do princípio ao fim. Para nós, este vinil acaba por ser mais do
que um formato. É uma forma de assinalar o percurso da banda e de deixar um
registo mais intemporal desta fase dos Kumpania Algazarra. É um objeto
que materializa muitas histórias, muitos quilómetros e muitos anos de música.
Os Kumpania sempre
foram uma banda marcada pela multiculturalidade e pela mistura de influências.
Depois de tantos países, festivais e experiências vividas ao longo destes anos,
sentem que essa diversidade continua a ser o principal combustível criativo da
banda?
Sem dúvida. Aliás, sentimos que essa diversidade é
hoje ainda mais importante do que quando começámos. Cada viagem, cada festival,
cada encontro e cada cultura com que nos cruzamos acabam por deixar uma marca
na banda e na forma como vemos a música. Sempre tivemos um espírito muito
aberto e uma enorme curiosidade pelo que se faz noutras partes do mundo.
Gostamos de absorver diferentes sonoridades, ritmos, tradições e formas de
estar, abraçá-los com respeito e depois fundi-los naturalmente com a nossa
própria linguagem musical. Mas essa aprendizagem vai muito para além da música.
O contacto com outras culturas também nos ensina muito sobre a vida, sobre as
pessoas e sobre diferentes maneiras de olhar para o mundo. Essa troca de
experiências continua a ser uma das maiores riquezas dos Kumpania Algazarra
e uma fonte inesgotável de inspiração para continuarmos a criar, evoluir e
surpreender-nos a nós próprios.
Para terminar: depois
deste 10.º disco e de uma carreira tão longa e intensa, o que é que ainda vos
entusiasma mais nos Kumpania Algazarra quando sobem a palco ou entram em
estúdio?
Depois de tantos anos de estrada, de estúdio, de palco
e até de música feita na rua, sentimos que o público já faz parte dos Kumpania
Algazarra. Está presente em tudo o que fazemos, mesmo quando estamos a
compor ou a gravar. É quase como se estivessem connosco em espírito durante
todo o processo criativo. O que nos continua a entusiasmar mais é precisamente
essa ligação com as pessoas. Ver alguém a dançar, a sorrir, a cantar ou
simplesmente a partilhar um momento com quem está ao lado continua a ser uma
das maiores recompensas que a música nos dá. Quando entramos em estúdio,
tentamos criar músicas que tenham vida para lá da gravação. E quando subimos ao
palco, o desafio é transformar essas músicas numa experiência coletiva, onde a
energia circula entre a banda e o público. Essa troca continua a ser mágica
para nós e é, provavelmente, a principal razão pela qual continuamos tão
apaixonados por aquilo que fazemos.




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