Antes de tudo, convém avisar os leitores: esta não é uma
entrevista particularmente preocupada em oferecer respostas lineares,
definições fechadas ou o conforto das fórmulas promocionais habituais. Os Puto
Bacoco movem-se precisamente no sentido contrário. Com sarcasmo, reflexão
filosófica, gosto pelo absurdo e uma recusa militante em encaixar em categorias
pré-definidas. Aliás, o quarteto portuense também construi com Uma Noite Muito
Estranha um objeto artístico tão imprevisível quanto fascinante. E nesta
conversa com Gil da Costa, tão desconcertante quanto estimulante, as certezas
dão frequentemente lugar a paradoxos. Preparem-se: esta poderá não ser uma
noite normal, mas é precisamente isso que a torna tão interessante.
Olá, Gil, antes de mais, bem-vindos. Para quem ainda não conhece
os Puto Bacoco, como é que apresentas a banda e o universo que estão a
construir?
Olá. O Universo está “construído” ou, se vai construindo
(por definição), de forma caótica - tanto quanto as teorias da física fazem
crer. O “nosso Universo” - se entendo o termo lato da questão que fez -
poderá redundar num ecossistema socio-cultural geográfico que, por sua
espontaneidade, possa transparecer uma definição identitária regional. Contudo,
não temos intenção, de todo, nem de “ser por ser esporadicamente” e, muito
menos, “construir Universos”.
O nome Puto Bacoco desperta imediatamente curiosidade. Como
surgiu e o que representa para vocês?
O nome surgiu de uma piada aquando da criação de algumas
músicas no café que existia no centro comercial Stop, durante o período de 2017
a 2019. O centro comercial Stop é um espaço no Porto que alberga imensos projetos
musicais. Recomendo a qualquer pessoa que não conheça investigar um pouco. O
nome foi dado, quase anedoticamente, porque a ideia deste “projeto musical” era
uma brincadeira.
Uma
Noite Muito Estranha é apresentado como um retrato urbano, cru e
cosmopolita. Que “noite estranha” é esta afinal?
É o nome do álbum… Uma Noite Muito Estranha! Seguindo
a batuta da pergunta: Urbano, tem a definição simples de “citadino”. Cosmopolita
tem a definição simples de “sem fronteiras geográficas”. A pergunta, estranha
como a “tal noite”, remete à dicotomia que tentamos apresentar neste trabalho. Creio
que esse “desconforto inquietante” da pergunta possa ter tido influência do
álbum. Se sim, fico feliz.
O álbum sugere observação do quotidiano e das tensões da cidade.
Até que ponto as experiências pessoais de cada um influenciaram a escrita dos
temas?
Influenciaram como em
qualquer trabalho. Umas vezes sim, outras não. E, na mistura das mesmas,
fica tudo difuso.
Há uma mistura muito pouco comum de influências, onde se incluem
ritmos balcânicos, flamenco, indie rock
e música urbana. Como é que conseguiram encontrar equilíbrio entre referências
tão distintas?
Fico muito triste por
achar que existe equilíbrio.
O disco foi construído ao longo de vários anos e entre mudanças
e adversidades. Houve algum momento em que tenhas chegado a pensar que o álbum poderia
nunca acontecer?
É uma pergunta muito
interessante… Existe a questão da materialização da obra, que em si é a
partilha - em nudez absoluta - para com o utilizador (o qual consideramos, por política
artística interna, como “Capaz”). Ao mesmo tempo, é discutível se o álbum
“aconteceria”, ou não, caso não tivesse saído das nossas redes privadas. A
pergunta é, a nível estético, peculiar e complexa.
Há uma sensação muito cinematográfica em algumas músicas, como
pequenas histórias urbanas. Quando compõem, pensam primeiro em imagens, em
emoções ou em sons?
Escrever/compor com o
sentido de que o tema deve passar uma sensação, remeter a um estado
metafísico; que sorria, que morda, que beije, que cuspa. Mas, que nunca
relate… Que ladre, de forma comprensiva a humanos. Ousar descrever algo
prático, até aparentemente, sem o ser, empírico, de forma a despoletar uma
“solução química” (entenda-se a expressão filosoficamente, por favor) no/a
ouvinte, fazendo-o/a inferir coisas que não são explícitas, mas sim,
“socialmente retumbadas”.
Como funciona o processo criativo entre os elementos da
banda? Há funções muito definidas ou tudo acontece de forma mais caótica e
coletiva?
Há funções muito
definidas. Mas, também possibilidade para todos darem opinião, talento e
criatividade.
O álbum conta com convidados como Gileno Santana, Nelson
Conceição e Nelson Silva. O que é que cada um trouxe ao universo sonoro de Uma
Noite Muito Estranha?
Todos eles foram
fantásticos. Enormes músicos.
A participação de Gileno Santana nos trompetes acrescenta uma
dimensão muito festiva em certos momentos. Já tinhas essa colaboração pensada
desde o início?
Não. Foi um acaso
muitíssimo feliz, assim como um gigante prazer.
Apesar de ser um álbum de estreia, sente-se uma identidade muito
consolidada. Tinham consciência de que queriam apresentar logo um trabalho tão
conceptual?
Fico contente por
sentir que temos uma identidade consolidada. Isto, para nós, é “como quem
espeta uma bandeira”! Não nos preocupamos com as críticas, ou
classificações, porque sabemos o que trazemos para a mesa. O tal caos! E,
na verdade, a única coisa que podemos assegurar é a pureza e a dedicação com
que este trabalho foi feito. Com a intenção de acrescentar. Não de
“fazer parte”!
O formato ao vivo parece ser muito importante para os Puto
Bacoco. Como é que imaginam transportar toda esta densidade sonora e emocional
para palco?
Isso nem se
pergunta. Quem nos seguir, quem tiver curiosidade de ir aos concertos, vai
entender. Partimos tudo, caríssimo!
Depois das apresentações e showcases FNAC, já existem planos para uma digressão mais
extensa ou presença em festivais?
Estamos abertos para
concertos de todos os tipos. Agrada a ideia da banda tocar só com instrumentos
acústicos, tipo “génese”. Não obstante, o nosso concerto“rock” é bastante
potente. Somos “bichos”, e queremos tocar…
Obrigado pela conversa. Queres deixar uma última mensagem para
quem vos acompanha e para quem vai agora descobrir os Puto Bacoco?
Obrigado pela
entrevista. Puto Bacoco está a chegar à tuga toda, vamos partir
isto tudo!

.jpg)

Comentários
Enviar um comentário