Entrevista: Santa Clara Blues

 

Quatro anos depois da conversa em torno de Montes Altos, reencontramos uns Santa Clara Blues que continuam fiéis à sua essência: amizade, partilha e prazer genuíno de criar música sem pressas nem imposições. Mas encontramos também um coletivo transformado pelo tempo, pela distância e pelas experiências acumuladas. Entre Portugal e o Reino Unido, retiros em Santa Clara, chamadas telefónicas, gravações trocadas pelo WhatsApp e encontros esporádicos onde as ideias ganham corpo, os Santa Clara Blues construíram o sucessor de Montes Altos à sua própria maneira. Nesta conversa, Miguel Ângelo Candeias e José Mendes levam-nos aos bastidores da criação de Hearts And Souls e trazem novas histórias para contar.

 

Olá e bem-vindos de volta ao Via Nocturna! É um prazer voltar à conversa com os Santa Clara Blues quatro anos depois da nossa última entrevista. Como têm vivido este percurso desde Montes Altos até à chegada de Hearts And Souls?

MIGUEL ÂNGELO CANDEIAS (MAC): Os últimos quatro anos foram ocupados com trabalho, outro projeto (aqui no Reino Unido) e a compor os temas para Hearts And Souls. Mas tudo a seu tempo e sem sobressaltos.

JOSÉ MENDES (JM): Como banda foi um processo mais longo de composição e gravação entre os dois álbuns, mas Santa Clara Blues permite esse tempo, faz parte da génese do projeto, é uma banda para fazermos coisas juntos sem pressões até à velhice. E pessoalmente temos todos vários projetos musicais em que estivemos envolvidos.

 

Hearts And Souls nasce de uma forte reflexão sobre o ser humano, a sociedade e a perda de uma certa “essência pura”. Como surgiu este conceito e até que ponto acabou por orientar emocionalmente o disco?

MAC: O conceito só foi formado quase na fase final da gravação do álbum. As canções foram saindo, e conforme as fomos compondo, o Zé (José Mendes) ligou os pontos e assim chegamos a Hearts And Souls. As canções, de uma forma ou de outra, apontavam para ali.

JM: O tema Hearts And Souls que o Fast escreveu descreve o processo de gravação no nosso primeiro álbum, o fim de semana, a pandemia, a ligação e a entrega da banda. Mas ao longo da gravação do segundo álbum e depois de ler as letras do Miguel, o nome e conceito começaram a fazer sentido, porque os temas refletem sobre a condição humana, umas vezes num contexto social, outras mais pessoais, até triviais, mas sempre com o ser humano no centro.

 

O intervalo entre discos acabou por ser relativamente longo. Que desafios pessoais, logísticos ou criativos contribuíram para esse espaço temporal entre Montes Altos e este novo trabalho? 

MAC: A distância física entre mim e os restantes membros da banda influenciou o nosso poder de nos reunirmos para trabalhar. Também devemos ter em conta que na altura em que gravamos o primeiro álbum, estávamos a viver os dias de Covid, com confinamentos e algo surreal no ar. Mas há males que vêm por bem, isto permitiu que tivéssemos tempo disponível. Assim que o Covid abrandou, voltou tudo ao “normal”, trabalhos, outros projetos. Como tal demoramos mais tempo a criar.

 

Referem que a distância física entre os vários elementos dificultou a composição e a preparação do álbum. Como conseguiram manter viva a identidade dos Santa Clara Blues mesmo estando separados geograficamente?

MAC: Parte desta pergunta já respondi na anterior. O que manteve e mantém a identidade desta banda é a nossa amizade e amor uns pelos outros, e isso será sempre a coisa mais importante.

JM: No primeiro álbum grande parte das bases das músicas nasceram de uma partilha entre nós os dois e acho que isso plantou uma semente que definiu a génese dessa identidade que descreves. Mas essa identidade de Santa Clara Blues foi depois refinada por todos os músicos, logo é sempre mais rica em conjunto, mesmo partindo de uma antiga empatia e amizade. No Hearts And Souls trocámos ideias por chamadas telefónicas, gravações sobre gravações de telemóvel trocadas por WhatsApp e combinámos um fim de semana em Porto Covo para começar a alinhavar algumas músicas logo no início do processo, além dos retiros de Santa Clara, claro. Mas a novidade é que algumas músicas já foram compostas pelo Miguel e pelo João, ou pelo Miguel com o Nelson, ou por mim com o Nelson e a identidade mantém-se. Se o próximo tiver músicas que venham do Rui Guerra e do Rui Pereira, acredito que a identidade será a mesma, só mais rica. A nossa identidade será sempre a partilha de todos em volta da semente plantada no Alentejo.

 

Uma distância física que também se verificou ao nível da captação, com o álbum a ser gravado entre Portugal e o Reino Unido, passando pelo Estrela de Alcântara e pelo Amblin’ Man Recording Studios, em Suffolk. De que forma essa divisão geográfica influenciou o ambiente e o resultado final do disco?

MAC: A divisão geográfica sempre teve influência (falando por mim) naquilo que fazemos. Os temas, as letras, muitas dessas coisas são o resultado do facto de eu viver onde vivo, das experiências que tenho e das pessoas que conheço. Gravar com o Ian (Amblin Man) foi a escolha natural, já tínhamos cancões prontas para gravar e assim foi possível pôr tudo em andamento.

JM: A escolha dos estúdios teve a ver com as condições/disponibilidade geográficas dos músicos e gostaria de acrescentar aqui o Estúdio King no Barreiro do Nick Nicotine que usámos para gravar o solo do Redemption (que deu jeito porque estávamos sem espaço de gravação no planeamento do Miguel Lima e falei com o Nick e fui lá gravar o solo depois de umas cervejas na esplanada. Obrigado, bro). Claro que esses estúdios tiveram uma ligeira influência no resultado final, mas todo o ambiente e estética sónica do álbum acabaram por ser definidos nas misturas feitas pelo Miguel Lima no Estrela de Alcântara.

 

A composição dos Santa Clara Blues esteve sempre ligada à amizade, à partilha e às jams espontâneas. Como funciona hoje o vosso processo criativo? Há alguém que traz as bases dos temas ou tudo nasce de forma mais coletiva? 

MAC: Continua a funcionar muito assim, pelo menos na grande parte. Cada vez que nos juntamos, sai sempre algo. Se bem que neste álbum já temos cancões compostas com outros membros da banda, como o Good ol Boy (eu e o João Sérgio), o Hearts And Souls (eu e o Fast Eddie Nelson) e o Ringo And Jubas Never Jammed Together (Ze e o Fast Eddie Nelson). Ao dizer isto, não quer dizer que a contribuição dos demais seja menos importante. A verdade é que estas canções sem o trabalho de todos os membros seriam muito mais pobres.

JM: Yep é isso, acho que acabei por responder a esta na 4ª pergunta.

 

O disco mantém essa forte base folk, blues e bluegrass, mas a entrada do Rui Pereira e do Rui Guerra trouxe claramente novas cores à sonoridade da banda. Sentem que este álbum representa também uma espécie de renascimento dos Santa Clara Blues?

MAC: Não lhe chamaria renascimento, mas a adição de novas cores, usando o teu termo, permite-nos ser mais criativos na sonoridade da banda.  O que cria riqueza. Já conheço o Rui Pereira há imensos anos, já tinha tocado com ele antes, e foi a primeira pessoa que me veio à ideia quando pensamos convidar alguém para tocar bateria. O Rui Guerra já não foi assim, conheci-o através do Fast Eddie Nelson, e a primeira vez que o vi tocar fiquei logo naquela de “Aimn, curtia de tocar com este gajo”.

JM: A nível criativo e instrumental é como uma caixa de especiarias, ficou mais rica e com mais possibilidades. Mas o mais importante foi ter mais dois amigos para fazer parte deste coletivo de partilha para fazer coisas fixes.

 

O primeiro single, Hearts And Souls, acabou por funcionar como excelente porta de entrada para o álbum. Foi uma escolha imediata ou existiram dúvidas relativamente ao tema que melhor representaria o disco?

MAC: Que eu me lembre, sim. Hearts And Souls foi composto logo a seguir a termos terminado a gravação do primeiro álbum, e mesmo sem sabermos a direção do novo álbum, escolhemos pôr esta canção na rua como o primeiro single.

 

Uma das faixas que mais curiosidade me desperta pelo título é Ringo And Jubas Never Jammed Together. De onde surgiu este nome tão peculiar e que história existe por detrás dele?

MAC: O Zé é a melhor pessoa para responder a esta pergunta.

JM: O Jubas era um cão e um amigo que escolheu com a minha família, quando adoeceu com cancro e durante os meses seguintes essa melodia apareceu-me em bocados, onde ia tocando sem objetivo. Passados dois dias de ele morrer, acordei em pânico no meio de um sonho com ele e tive a sensação real e física de que o tinha perdido para sempre, nessa manhã toquei a música de ponta a ponta e gravei no telemóvel. Depois mostrei ao Nelson e, como ele tinha perdido o Ringo, decidimos gravar a música juntos, uma espécie de elegia instrumental, um lamento sobre estes nossos dois amigos que nunca brincaram juntos.

 

A capa do álbum utiliza uma fotografia histórica da inauguração da Junta de Freguesia da Baixa da Banheira, em 1967, carregada de simbolismo comunitário e ligada aos valores de Abril. Porque sentiram que esta imagem era a representação perfeita para Hearts And Souls

MAC: Quando se decidiu que o álbum se ia chamar Hearts And Souls, andamos a pensar e a buscar uma imagem/foto que refletisse onde crescemos, onde brincamos, onde nos tornamos adultos. Quando o Zé encontrou esta foto, foi quase instantâneo, vai esta.

JM: Sempre quisemos que os álbuns representassem sítios. A Baixa da Banheira (Xangai) é o sítio onde crescemos e onde a ideia do Hearts And Souls pode ser projetada a nível pessoal, mas é mais que isso. Ela também pode ser projetada no sentido de comunidade e união que os habitantes da baixa tinham, vieram de norte a sul do país para trabalhar nas fábricas e instalaram-se ali, numa zona de pinhal, quintas, nas terras baixas junto ao Rio Tejo, ao lado das fábricas. Mais tarde vieram os “retornados” das ex-colónias e todos tiveram de aprender a integrar-se e a funcionar em comunidade, onde a liberdade de Abril foi muito importante. Hoje é uma vila que nasceu dessa união, onde a minha geração e a geração anterior devem muito a esta comunidade. Aprendi a ver-me no outro, aprendi que sou feito de muitos, aprendi a fazer coisas na rua com outros e que pessoas de culturas diferentes podem conviver juntas e partilhar conhecimento. Era normal numa rua estares a ouvir Bonga numa janela, na outra Bob Marley, no outro lado Slayer e um coro alentejano numa coletividade. Isso era a Baixa, por isso esta fotografia de comunidade fez sentido na capa.

 

Os Santa Clara Blues continuam muito associados a essa ideia de música feita sem pressa, de forma cinematográfica, inspirada pelo “tempo lento do Alentejo”. Essa atmosfera continua a ser essencial para a identidade da banda?

MAC: Sim, continua. Nem queremos que seja de outra maneira.

JM: Yep, faz parte da tal génese que falava numa das respostas em cima.

 

A apresentação oficial aconteceu na ADAO, no Barreiro, uma cidade com forte ligação à história e identidade da banda. Ainda sentem essa ligação emocional muito intensa às vossas origens e à comunidade onde cresceram?

MAC: Seria impossível não sentir. Umas vezes com carinho e outras vezes com gosto agridoce. O Barreiro e a Baixa da Banheira vão ser sempre sítios importantes para mim. O edifício da ADAO, esta gravado na minha memória desde que existo, era um quartel de bombeiros, e eu curtia de ir mirar os veículos. E hoje em dia, quando estou em Portugal, o Barreiro é a minha base.

JM: Sim, e neste momento é a cidade onde sinto que faço parte de uma comunidade com a minha família e amigos. Tanto a nível pessoal como musical.

 

Com o lançamento de Hearts And Souls, existe a possibilidade de vermos os Santa Clara Blues numa digressão mais extensa nos próximos meses? Há planos para levar estas novas canções a outras salas e festivais?

MAC: Digressão não diria, temos de escolher bem quando e onde tocamos, simplesmente porque não posso estar aí por muito tempo. Existe um par de festivais onde curtia de tocar, mas tem sido difícil organizar algo.

 

Para terminar, obrigado pelo vosso tempo e por regressarem ao Via Nocturna. Querem deixar uma última mensagem para todos aqueles que têm acompanhado os Santa Clara Blues desde Montes Altos e que agora recebem Hearts And Souls de braços abertos?

MAC: Sejam bons uns para os outros.

JM: Obrigado por ouvirem a música, gravada ou ao vivo. Vejam mais música ao vivo e façam bandas.

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