Entrevista: Sarah Negra

 

Antes de chegar a Amor e Magia, Sarah Negra (nome artístico de Sara Ribeiro) construiu um percurso singular que atravessa a música, a poesia, o teatro e a performance. Com mais de uma década de experiência nas artes performativas, Amor e Magia, o seu primeiro álbum de originais, essa visão ganha forma entre a espiritualidade, intervenção emocional, afirmação do feminino e procura de autoconhecimento. Nesta conversa com Via Nocturna 2000, a artista fala sobre a gênese do disco e os caminhos que pretende continuar a explorar no futuro.

 

 Antes de mais, bem-vinda ao Via Nocturna 2000 e obrigado pela disponibilidade para esta conversa. Para os nossos leitores que possam estar a descobrir o teu trabalho pela primeira vez, quem é Sarah Negra e como descreverias o universo artístico que procuras construir? 

Sarah Negra é uma voz que procura expressar liberdade e expansão de consciências e emoções a si mesma e a todos os que se cruzem com ela. Acho que o meu universo é um universo rico, plural, que dá lugar a todas as gentes e à descoberta de si mesmo, tudo isso com uma grande dose de espiritualidade e poder pessoal na sua raiz. Uma verdade que abala e revela. Um caso de amor sério.

 

Amor e Magia marca a tua estreia discográfica em formato de álbum de originais. O que te motivou a dar este passo nesta fase da tua trajetória artística e pessoal?

Este disco é um desejo antigo de ver muitas das minhas canções eternizadas de certa forma. Tenho muito material nas minhas gavetas, canto há vários anos e nunca tínhamos gravado um disco; demos concertos, gravámos EP, mas um disco, para mim, tem mais espaço para poderes construir uma viagem inteira, uma ideia inteira, mais consistência e espaço. Era urgente para mim gravar, na realidade palpável, pelo menos algumas das minhas canções.

 

Antes deste disco já tinhas percorrido diferentes áreas artísticas, da poesia à performance e à representação. De que forma todas essas experiências acabaram por convergir na construção deste álbum?  

Eu sou todas essas experiências, elas são o que compõe a matéria de que sou feita hoje, sou um combinado de todas as minhas experiências pessoais e profissionais e por isso elas influenciam e definem o que apresento na música na verdade. E isso é muito orgânico e muito assumido por mim, acho importante eu realçar essa minha pluralidade disciplinar e explorá-la mais ainda, levá-la mais longe porque isso na verdade é uma das características que me distinguem e me enriquecem enquanto artista e mulher.

 

O álbum apresenta uma linguagem musical muito própria, recusando fórmulas convencionais e explorando estruturas pouco previsíveis. Essa liberdade composicional foi algo planeado desde o início ou surgiu naturalmente durante o processo criativo?

Essa liberdade é a Sarah, e tudo o que eu faça tem essa característica. Nunca é algo planeado, é um modo de estar e de fazer as coisas. Tenho a felicidade enorme de ter músicos e produtores que abraçam esse abismo com alegria e mestria, esse abismo de trabalhar com uma criadora. Eu sou criadora, e isso faz com que recuse ordens e direções exteriores como direção principal. A minha principal direção e guia para qualquer coisa que faça é a minha intuição e a minha voz interior. Ouço sugestões, peço feedbacks, mas há em mim esta coisa meio selvagem de que num palco ou numa criação ninguém “manda em mim” porque o que fizer tem de ser meu, tem de fazer sentido para mim, caso contrário não faço, não digo, não canto. Mas isso depende muito dos artistas. Mesmo em teatro, há atores que preferem que o encenador lhes diga tudo o que têm de fazer, quando viram para a direita, para a esquerda, quando respiram, para onde olham, tudo marcado. Eu não funciono muito bem assim. Aceito as direções de um encenador porque sou generosa e madura para o fazer, mas nos primeiros momentos de aproximação ao texto, ao personagem, ao imaginário das coisas não preciso que me digam nada. Preciso de me ouvir primeiro a mim mesma para ter algo a propor e depois disso é que podemos cocriar eu e o encenador. Se eu não tiver o meu espaço e tempo enquanto artista para propor coisas para descobrir o que cada trabalho me traz e como vou expressá-lo, então sou só uma máquina. E eu não lido com o trabalho artístico dessa forma. Gosto de tornar tudo especial, honesto, meu, único, quero dar o melhor de mim, e para isso é preciso respeitar e defender o meu tempo de vazio, de aproximação e entendimento profundo das coisas. Acho que como diz Dostoievski “eu não sou um pau mandado”.

 

Ao longo do disco encontramos uma dimensão política muito particular, que coloca o amor e a paz no centro da reflexão social. Consideras que, nos dias de hoje, falar de amor pode ser um ato de resistência?

Acho que sim, mas acho que o amor tem de ser entendido, porque a verdade é que não sabemos nada do amor. Não sabemos, porque não sabemos nem sequer amar-nos a nós próprios. Este disco é para mim uma porta de soluções, mensagens que pensam de forma positiva sobre o assunto. O disco traz soluções ao amor e ao poder mágico de cada um, para os mais atentos, isso será muito claro. É importante trazer soluções para as práticas do amor, para que o possamos reinventar porque - acho que nisso podemos concordar - a maneira como temos olhado e praticado o amor não tem sido a mais bem-sucedida. Temos de nos reeducar para amar. Reaprender e por isso é urgente sim olhar isso que chamamos amor e mergulhar no assunto profundamente.

 

Síria é um dos momentos mais intensos do álbum, abordando a violência e o sofrimento humano através de uma construção sonora profundamente teatral e psicadélica. O que te levou a escrever esta composição?

Esta faixa é antiga e ao vivo é das mais impressionantes e impactantes, eu não poderia deixar de a gravar até pela sua importância dentro do panorama contemporâneo. Gostava que as pessoas entendessem que para que algo se desfaça ou se cure é preciso aceitarmos que temos de encarar as nossas sombras, amá-las. Olhá-las. O que se passa no mundo não é mais do que um espelho sobre o que se passa com cada indivíduo. E não admitirmos isso é impossível para nós libertarmo-nos e passarmos a estágios mais interessantes de existência individual e coletiva. O que é mais violento? Uma bomba atómica que destrói 3 países de uma só vez ou o silêncio e a apatia de uma Europa inteira perante o sucedido? Todos somos violentos, mesquinhos, mentirosos, somos bons também, mas é importante entender que nós somos como eles, esses a quem apontamos o dedo e chamamos de vilões. É dura essa verdade, mas é a verdade. Sem a aceitarmos não podemos libertar-nos dela. É por isso que nos dá medo, é por isso que nos dá nojo, porque nos revemos naquilo de alguma forma, sabemos que as nossas trevas mais obscuras expressas em grande dimensão podem transformar-nos em Trumps também. Para não temer e para agir, é preciso aceitar a totalidade do que somos - luz e sombra. Ninguém se aceita por completo e pior, ninguém aceita a dor coletiva. Ninguém quer tolerar a dor. Nem coletiva nem individual como matéria vital e fértil para a transcendência, para a transformação. Só a aceitação da dor coletiva pode trazer a ação para a revolução. Hoje em dia a maioria das pessoas foge da dor de qualquer tipo, de qualquer sofrimento, o mundo está mais doente e cruel do que nunca e vemos as pessoas a pregar o well-being, que para mim é uma espécie de cegueira sobre a realidade das coisas, uma fuga a si mesmas - como diz a canção: “Fujo para dentro de mim”.

 

O universo feminino ocupa um lugar central em temas como Bruxa e Mãe. Que importância tem para ti explorar estas diferentes dimensões da mulher através da música?

A questão feminina não poderia deixar de estar presente, porque a meu ver é também uma solução para encontrarmos novas formas de amar. Há a questão de as mulheres aceitarem e reclamarem, assumirem o seu poder enquanto líderes sociais, políticas e medicinais e há a questão de que o género masculino pode talvez aprender a aceitar o seu lado feminino com maior cuidado e consciência. No fundo é mais uma sugestão, mais uma ferramenta ou sugestão de ferramenta para o equilíbrio coletivo. Enquanto cada um de nós não for capaz de abraçar o seu poder intuitivo, feminino, sensitivo, respeitar esses poderes e criar uma vida que se permita ser guiada por eles, há muitas coisas na nossa realidade que vão parecer que estão em desarmonia. A meu ver, todos somos magos, intuitivos. As mulheres têm uma história de punição e perseguição por exaltarem esses poderes; os homens, uma história de ignorância sobre esses poderes. Mas há também na história da humanidade relatos felizes de indivíduos e comunidades onde esses poderes têm um equilíbrio e a partir desse equilíbrio é construída uma ordem coletiva interessante e pacífica de respeito ao todo e à comunidade. Podemos talvez olhar para nós com mais atenção e ir em busca desses relatos felizes. A magia e mediunidade nada mais são do que uma ciência/técnica/prática de autoconhecimento e ligação contigo mesmo e com o macrossistema em que estás inserido. Elas colocam-te em comunicação generosa e respeitosa para com o todo. Podemos, claro, continuar a ignorar esses nossos poderes, mas a meu ver, só temos a perder com isso.

 

Um dos aspetos mais originais de Amor e Magia é a inclusão de rituais e receitas de banhos de ervas associados a determinadas faixas. Como surgiu esta ideia e de que forma ela complementa a experiência musical?

Como disse, o disco propõe soluções, ou pelo menos eu tinha essa intenção. Os banhos são mais uma solução prática para que possas por ti mesmo semear amor e magia nas tuas rotinas quotidianas. É medicina natural e espiritual. Não vale a pena tomar banho todos os dias se nunca limpares a tua alma e o teu espírito. Somos muitos corpos e camadas, todos precisam de higiene e cuidado. Sou eu a tentar que as pessoas sejam incentivadas a cuidar de si.

 

Ao longo do disco, ouvimos elementos que evocam o fado, a bossa nova, ritmos tribais, spoken word e sonoridades mais próximas do rock e da pop alternativa. Como foi encontrar equilíbrio entre influências tão diversas?

Muito orgânico. Eu não me preocupo muito com estilos ou definições sobre a sonoridade das coisas. Como disse, vou para onde o meu coração pedir. Depois há, claro, aquilo que é a natureza musical do Alexandre e do Ricardo, aquilo que é o imaginário deles como músicos e como produtores do projeto. Os três juntos acabamos sempre por fazer esta mescla divertida de sonoridades e atmosferas, eu acho divertida. Acho que temos, ainda, a capacidade de sermos inesperados, até para nós próprios.

 

Ricardo Martins e Alexandre Bernardo assumem um papel importante enquanto músicos, cocompositores e produtores. Como funciona esta dinâmica criativa dentro do projeto?

Muito bem, muito fácil, muito feliz. Eu realmente, além de os ter no meu coração como amigos e parceiros maravilhosos, fico apaixonada tantas vezes pela mestria e pela qualidade deles como músicos. É muito bom, porque eles entendem a minha necessidade de liberdade, procuram ir ao encontro dos meus imaginários, sem se corromperem, mas são generosos para se entregarem e mergulharem em qualquer loucura que eu proponha. Permitem-me explorar estar perdida, apagar e recomeçar, têm muita capacidade de escuta e uma sensibilidade fora de série como compositores. Trazem soluções deles, ideias e desatam nós. Somos um trio que se permite contagiar, permitimos o contágio uns dos outros. Normalmente trago letras ou melodias de voz e ritmos e uma corrente de imagens de como vejo a canção ou o mood da canção. Eles transpõem isso para o nosso som de forma mágica. A força do Ricardo, a estrutura, a precisão dele são fundamentais para a nossa música, depois entra a complexidade das guitarras do Alex, que são mesmo delirantes algumas do ponto de vista harmónico, e a voz e letras fazem uma ligação entre tudo, da forma menos óbvia, creio eu. Mas é um resultado orgânico de 3 criativos que se põem a brincar com a matéria que estiver em cima da mesa, não temos grandes discussões ou conversas sobre cada tema, tocamos e as coisas compõem-se por si.

 

Contaste com a participação de Royal Bermuda e Miguel Dias neste trabalho. O que trouxeram estes convidados ao universo de Amor e Magia?

São amigos com quem já queria gravar temas, e achei que podiam ser um bom princípio para algo a que talvez dê continuidade a longo prazo. O Miguel traz um lado mais eletrónico que gostaria de voltar a experimentar e desenvolver mais à frente e os Royal trazem o drama das guitarras acústicas que tanto me comovem de uma maneira muito própria. Acho que são dois tipos de instrumental que encaixavam perfeitamente nos temas e, na verdade, são possibilidades de criação musical que quero explorar, então, estas colaborações são o ponto de partida para isso.


Existem planos para levar este espetáculo para o palco nos próximos meses?

De momento houve o concerto de dia 18, na Casa Capitão, e até agora mais nenhuma data a anunciar para este ano. Há depois uma possibilidade de apresentar o disco em formato de espetáculo de dança, mas ainda estamos a aguardar as respostas de financiamento da Dgartes e isso será apenas em 2027. A ideia era criar um bailado contemporâneo para o disco, com um elenco de intérpretes totalmente no feminino.

 

Para terminar, agradecemos a tua disponibilidade. Que mensagem gostarias de deixar aos leitores de Via Nocturna 2000 e a todos aqueles que estão prestes a descobrir Amor e Magia?

Espero que vos ilumine este disco e de coração agradeço cada instante da vossa atenção e escuta. Acho que o vosso tempo e atenção são o bem mais precioso que podem dar à nossa música.

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