Reviews VN2000: O ANTICICLONE 2025; CABRITA; OS VULTOS; KACTOSLITOS; A MOSCA

 


O AntiCiclone 2025 (V/A)

(2026, Basalto Cultural)

A Basalto Cultural — Associação de Artes lançou recentemente O Anticiclone 2025, uma compilação dupla em CD que reúne 28 músicos e bandas das ilhas de São Miguel e Terceira. O projeto nasceu de um convite aberto lançado em janeiro de 2025, mas a adesão superou todas as expetativas. O que inicialmente estava pensado como um único disco transformou-se numa edição dupla, refletindo a diversidade e a riqueza da produção musical regional. Do hip-hop ao heavy metal, passando pelo rock alternativo, rock progressivo, punk, funk rock e metal extremo, O Anticiclone 2025 apresenta um panorama abrangente da música feita nos Açores. O projeto conta com o apoio da PDL26 – Capital Portuguesa da Cultura, partilhando o lema O Lugar do Amanhã, uma ideia que encaixa perfeitamente na missão desta coletânea: dar visibilidade ao presente da música açoriana enquanto projeta o seu futuro. Entre as prestações mais significativas destacam-se os EGO, que oferecem um dos momentos mais entusiasmantes da compilação através de um rock fortemente inspirado na década de 1970, os A Dream Of Poe, que confirmam a sua qualidade no universo do doom gothic metal, e os Dog Meet e Fipos, que elevam o segundo disco com propostas de rock progressivo e funk rock particularmente inspiradas. Outros destaques incluem a agradável surpresa trovadoresca do duo Mário Raposo & Carmen Raposo, o consistente rock alternativo dos Orange 3 e dos Kakerlakk, a intensidade dos Carnification no death metal, a solidez dos Mantra Nostrum, a energia punk dos Damage Device, a maturidade pop rock dos The Music Box e a complexidade sonora dos Rhεûmα. Como verdadeira montra do talento regional, O Anticiclone 2025 constitui um documento importante para a história recente da música açoriana, demonstrando que a criação artística nas ilhas continua viva, diversa e em permanente evolução. [84%]



Afterlife (CABRITA)

(2026, Omnichord Records)

O EP Afterlife, de Cabrita, funciona como uma extensão conceptual do universo iniciado em UMBRA (2023), retomando esse material para o submeter a novas leituras colaborativas e transformações sonoras. O disco reúne seis temas, cada um reinterpretado com a participação de diferentes artistas da cena portuguesa, como Stereossauro, Scúru Fitchádu, Mirror People, Iguana Garcia e Rita Braga, entre outros. Mas, neste caso, não se trata de uma simples continuação. Trata-se, sim, de assumir um exercício de reconfiguração. Por exemplo, um tema como To The Spine (com Stereossauro) parte de material anterior e é reconstruído em direção a uma estética mais eletrónica e textural, sem perder a base jazzística do saxofone de Cabrita. O resultado é um trabalho de circulação entre géneros (jazz, eletrónica e música experimental) e multicultural, onde a ideia de “vida posterior” das composições funciona como eixo conceptual. Afterlife destaca-se, assim, essencialmente pela capacidade de transformar o já existente em novos territórios sonoros. [78%]




Vultos II – A Luz Imprime Memórias (OS VULTOS)

(2026, Spectral Works)

Formados em Bergen, na Noruega, em 2005, os Os Vultos nasceram do encontro improvável entre emigrantes, estudantes, trabalhadores precários e noites passadas entre cafés, bibliotecas, concertos e caminhadas junto ao fjord. Liderados pela presença discreta de Abel Van Pires, transmontano emigrado na Noruega, Os Vultos desenvolveram uma abordagem profundamente intuitiva e autodidata à música. Sem ambições comerciais e movidos apenas pela necessidade de criar, passaram 2005 e 2006 em ensaios incessantes, deixando surgir ideias de canções que rapidamente se transformavam em longas improvisações. Em maio e junho de 2006, instalaram o improvisado Pus Studios no kollektiv onde viviam e gravaram, em apenas dois meses, Vultos I, Vultos II e Vultos III. O objetivo inicial não era editar discos, mas usar o estúdio como ferramenta de composição. Décadas depois, esses trabalhos inéditos começam a ser recuperados pela Spectral Works, subsidiária da Ethereal Sound Works. Surgindo como uma peça central dessa arqueologia sonora, Vultos II – A Luz Imprime Memórias é o primeiro registo a ver a luz do dia. Romântico e profundamente atmosférico, o disco move-se entre drones densos, loops hipnóticos, sequências suaves e guitarras low profile que se dissolvem lentamente na névoa. Há ruído, programação e sintetizadores e as limitações vocais de Abel Van Pires nunca são escondidas. Pelo contrário, num registo próximo da declamação poética, transformam-se numa força expressiva, onde textos melancólicos flutuam sobre longos temas envoltos em reverberação, memória e estranheza. [73%]




Find The Gold (KACTOSLITOS)

(2026, Independente)

Find The Gold apresenta-se como a mais ambiciosa proposta de Lito Pedreira sob a designação Kactoslitos, procurando unir composições originais e versões de temas marcantes num mesmo enquadramento conceptual. A intenção é clara: construir uma narrativa centrada na resiliência, através de uma fusão de rock alternativo, eletrónica e ambientes minimalistas. Contudo, o resultado revela-se mais irregular do que o conceito inicialmente promete. Um dos momentos mais conseguidos surge em Pastor 2.0, versão do icónico tema dos Madredeus, numa prestação que ilustra bem o que uma versão deve ter: respeitar o original, mas conseguir levá-lo para outros níveis de exploração. No entanto, embora possua ideias interessantes e uma visão artística genuína, Find The Gold acaba por perder impacto devido a um alinhamento algo desequilibrado e à escassez de momentos verdadeiramente memoráveis, sendo a prestação vocal um dos aspetos que revela demasiadas limitações para poder ser negligenciada. Ainda assim, este registo confirma a vontade de Lito Pedreira em explorar novos territórios criativos e consolidar uma linguagem muito própria, mesmo que os resultados fiquem aquém das suas ambições. [72%]




A Mosca Mosca (A MOSCA)

(2026, Independente)

Tal como o inseto que dá nome ao álbum e à banda, este disco parece pequeno à primeira vista, mas revela uma capacidade notável de perturbar o ambiente à sua volta. Move-se de forma errática, muda subitamente de direção e regressa sempre ao ponto onde causa maior incómodo, recusando ser ignorado. Em a mosca mosca, o experimentalismo do coletivo português manifesta-se mais como uma recusa deliberada de fórmulas previsíveis do que propriamente como gesto de provocação. As canções desenvolvem-se através de estruturas pouco convencionais, onde reverberações amplas, camadas densas de fuzz e investidas de noise desenham uma paisagem sonora em constante transformação. Apesar da dificuldade em situar o álbum numa única coordenada estética, é possível detetar ecos da inquietação emocional dos Ornatos Violeta ou da urgência mais angular associada aos Marquise. O seu núcleo identitário nasce do confronto entre elementos eletrónicos e guitarras abrasivas, sempre em permanente tensão. Firme, insistente e física, a componente rítmica assume, aqui, um papel determinante, conduzindo as composições para um campo que acentua o seu caráter inquieto e imprevisível. [81%]

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DISCO DA SEMANA VN2000 #25/2026: Veil Of Ashes (MORBID DEATH) (Firecum Records)

GRUPO DO MÊS VN2000 #06/2026: HOURSWILL (Ethereal Sound Works)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #26/2026: FarFrom God (MOONSPELL) (Napalm Records)