Quase
uma década depois da última conversa com o Via Nocturna, os Chapa Zero
regressam com Pedra Dura, um álbum
que encerra um dos períodos mais difíceis da história da banda. Para trás
ficaram atrasos sucessivos, uma pandemia, mudanças de formação e a dolorosa
perda de Marco António. Ainda assim, os punk rockers nacionais recusaram
desistir de um conjunto de canções em que sempre acreditaram. Connosco, Nuno
Amaro revisita o longo caminho que conduziu até Pedra Dura, recorda o
contributo decisivo de Marco António e reflete sobre um álbum que continua a
olhar para a realidade social.
Antes demais,
bem-vindos de regresso ao Via Nocturna. É um prazer voltar à conversa com os
Chapa Zero quase dez anos depois da nossa última entrevista. Olhando para este
percurso, o que mudou na banda desde então e de que forma esse tempo ajudou a amoldar
aquilo que agora ouvimos em Pedra Dura?
Obrigado pelo apoio e é também um prazer voltar a
falar convosco quase 10 anos depois. Mudou muita coisa desde então, a começar
pela formação da banda —como já devem saber, o Marco já não está entre nós, e
há menos de um ano entrou o Cláudio, que já era um amigo de longa data. Lançámos
o Fia-te na Virgem em 2017 e, quando estávamos prestes a entrar em 2020 com
estas 10 músicas já prontas, surgiu a pandemia. Isso, juntamente com outras
situações que foram acontecendo ao longo destes anos, acabou por atrasar
bastante o lançamento do álbum. Mas queríamos mesmo trazer este disco para a
rua, porque acreditamos muito neste conjunto de músicas.
Pedra Dura surge após um longo
período sem novos registos de originais. Como nasceu este álbum e em que momento
sentiram que tinham finalmente reunidas as condições certas para avançar com ele?
Nós tínhamos todas as condições reunidas para lançar o
Pedra Dura há mais de 5 anos. Apesar de todas as adversidades, fomos
batendo à porta de algumas editoras. Mas sempre sem respostas positivas. Mudámos
de estratégia e decidimos avançar sem ajuda de editoras. E foi então que, há
cerca de 2 anos, por conselho de um amigo nosso (o Orlando Cohen), fomos
falar com o Paulo Vieira (Paulão) para nos ajudar na mistura das músicas.
Podemos dizer que o Paulo Vieira acabou por nos salvar da situação em que
estávamos. Pegou nas captações que tínhamos feito como Ramalho, já com mais de
dois anos, e fez um grande trabalho: regravou guitarras e vozes e tratou de
todas as misturas. Na minha opinião, fez um excelente trabalho e foi impecável connosco.
O intervalo desde o
trabalho anterior acabou por atravessar diferentes fases pessoais, musicais e
até do próprio panorama nacional. Esse afastamento foi algo natural ou existiram
obstáculos concretos que foram adiando o regresso discográfico dos Chapa Zero?
Ao longo destes anos surgiram vários obstáculos
pessoais, que não vale a pena detalhar aqui, e que acabaram por atrasar
bastante todo o processo. A isso juntou-se ainda a morte do Marco, em abril do
ano passado, um momento muito duro para a banda. Também o panorama nacional não
ajudou, porque, apesar de todas as dificuldades, insistimos junto de várias
editoras, mas, como já referimos, nunca conseguimos uma resposta positiva.
Em termos de
composição, como funcionou o processo criativo de Pedra Dura? Houve
uma abordagem mais coletiva em estúdio/sala de ensaios ou partiram de ideias
individuais que depois foram sendo trabalhadas em conjunto?
O processo até é simples. Normalmente, tudo começa com
uma ideia que o Kaveirinha traz de casa, quase sempre numa folha toda
amarrotada e cheia de rabiscos. A partir daí, vale tudo. Cada um vai dando ideias
e, muitas vezes, cada elemento está a imaginar a música a seguir um rumo
diferente. Mas, no fim, acabamos por chegar a uma malha em que todos se sentem confortáveis.
Posso até contar uma situação engraçada que aconteceu numa dessas músicas. O Kaveirinha
apareceu com a folha habitual amarrotada e começou a cantar por cima de uns
acordes. Nós fomos acompanhando, cada um com a sua cena, mas sempre que
chegávamos ao refrão, aquilo soava exatamente como os Cheap Trick. Ninguém
lhe dizia nada…até que chegou a um ponto em que tivemos mesmo de o avisar.
Rimou-nos todos com a situação e, na semana seguinte, o Kaveirinha já
apareceu com uma melodia diferente para o refrão. Mesmo assim, eu continuo a
associar essa música aos Cheap Trick. Procurem no CD… (risos)
O álbum é dedicado à memória
de Marco António (1977-2025), que nos deixou recentemente, como já referiste. Mas
ainda gravou a totalidade do disco?
O Marco teve um contributo fundamental em todas as músicas
de Pedra Dura, tanto ao nível da composição como da gravação. Fez um trabalho
espetacular e deu tudo ao disco. No entanto, ao nível da captação das
guitarras, tivemos alguns problemas técnicos que não permitiram aproveitar na
íntegra tudo o que ele tinha gravado. Mais tarde, quando começámos a trabalhar
com o Paulo Vieira, o Marco estava envolvido noutro projeto e disse-nos que não
tinha disponibilidade para regravar essas partes. Foi então que o próprio Paulo
se disponibilizou para regravar algumas guitarras. Ainda assim, este CD é muito
do Marco. O contributo dele está lá, de forma clara, e tenho a certeza de que ele
ia curtir muito este disco.
O álbum apresenta dez
temas bastante diretos e sem grandes excessos de duração, mantendo uma abordagem
crua e frontal. Essa concisão foi algo deliberado, no sentido de recuperar uma
certa urgência e impacto mais imediato do punk rock português
de outras décadas?
Podemos dizer que sim. É assim que sabemos fazer e,
até hoje, é assim que queremos continuar a fazer. Ao vivo, as músicas até têm
tendência a ficar mais curtas. Não somos muito de acrescentar solos ou fazer
grandes paragens só para as esticar. A exceção talvez seja a Não Vais
Parar, porque é uma música especial e achamos que merece esse destaque…
(risos).
Musicalmente, sente-se
em Pedra
Dura uma banda fiel à sua identidade, mas simultaneamente mais madura e
consciente daquilo que pretende transmitir. Consideram este álbum uma
continuação natural do passado dos Chapa Zero ou uma espécie de novo capítulo?
Na minha opinião, este disco representa uma evolução
natural da banda e acaba por ser mais um capítulo importante na nossa história.
O facto de as músicas terem sido compostas e gravadas pela mesma formação
nota-se muito no resultado final. Todos nós estávamos confortáveis com estas
músicas, e isso sente-se no disco. É o reflexo da mistura das ideias dos quatro
elementos da banda, algo que não aconteceu da mesma forma no Fia-te na
Virgem, em que metade dos temas tinha sido composta por antigos elementos.
Com a entrada do Cláudio, inicia-se agora um novo capítulo, o que é
perfeitamente natural.
O alinhamento volta a
revelar um disco muito ligado à inquietação social e ao quotidiano vivido “na
rua”. Sentem que Pedra Dura acaba por funcionar também como um retrato do
desencanto e das tensões dos tempos atuais?
Sim, concordo. De certa forma, este disco é um retrato
do mundo visto pelos olhos do Kaveirinha, que escreveu todas as letras. Mas
não num sentido de desânimo, antes pelo contrário. As letras têm uma carga
positiva e de resistência. Basta olhar para a Pedra Dura: “Eu sei que
o jogo está viciado, mas eu vou dar a volta ao resultado! As portas que se
fecham ao meu lado não abrem. Mas eu vou querer entrar”. É muito dessa
forma que lidamos com o desencanto e com as tensões: sem baixar os braços, mas
antes transformando isso em força para continuar.
Num tempo em que os
lançamentos são muitas vezes rápidos e imediatos, que importância continua a
ter para vocês o formato “álbum” enquanto obra completa e pensada como um todo?
Para nós, isso continua a ser importante. Ainda
ponderámos fazer apenas o lançamento em formato digital, mas acabámos por
insistir em editar o disco também em formato físico. Ter este conjunto de
músicas reunido num CD, com tudo o que isso implica enquanto objeto, continua a
ter um significado especial para nós. Marca uma fase da história da banda,
independentemente de representar uma evolução ou não. E este CD, em particular,
tem ainda mais peso, porque assinala um período bastante conturbado da banda, mas
também do mundo que nos rodeia.
Há planos para
transportar Pedra Dura para os palcos nos próximos meses? Que expetativas
têm relativamente ao reencontro como público e de que forma imaginam estas novas
músicas a ganhar vida ao vivo?
Sim, já há planos. Temos um concerto apontado para o fim
do verão e, claro, estamos abertos a mais convites. Neste momento, estamos
praticamente a fechar a preparação do novo set para apresentar ao vivo.
A ideia é levar um alinhamento que percorra os três álbuns da banda, com
destaque para cinco temas do novo disco, sem esquecer as músicas mais
clássicas. Temos andado um pouco fora do circuito há já algum tempo, mas
acreditamos que a malta ainda se vai lembrar das malhas antigas e, pelo meio,
vai também conhecer as novas. Que venham mais concertos. Somos uma banda de punk
rock e aquilo de que gostamos mesmo é de tocar ao vivo.
Para terminar,
agradecemos novamente a disponibilidade para esta conversa quase uma década
depois do nosso último contacto. Queres deixar uma mensagem final aos leitores
do Via Nocturna e a todos aqueles que têm acompanhado o percurso dos Chapa Zero
ao longo destes anos?
Queremos agradecer ao Via Nocturna pelo convite
e a todos os que têm acompanhado os Chapa Zero ao longo destes anos. É
muito especial perceber que, passado tanto tempo, a nossa música continua viva na
memória. E apoiem a música underground nacional, especialmente as bandas
punk rock. Venham mais concertos e apareçam! Um grande obrigado a todos
pelo apoio.



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