Os Karmamoi nunca foram
uma banda acomodada às convenções do rock progressivo. Ao longo de uma
carreira que já ultrapassa os quinze anos, foram refinando uma identidade
assente na procura de novas soluções sonoras e conceptuais, sem perder de vista
a importância da canção. Eternal Mistake, o sétimo álbum de estúdio,
representa mais um passo nesse percurso. Construído durante dois anos e marcado
por uma colaboração particularmente próxima entre Daniele Giovannoni e Valerio
Sgargi, o disco cruza uma narrativa sobre inteligência artificial com uma
música rica em detalhes e atmosferas. Foi esse processo criativo, a evolução da
banda e os desafios de dar vida a um trabalho desta dimensão que serviram de
ponto de partida para a conversa que se segue com os dois criativos.
Olá, pessoal. Em primeiro lugar, sejam bem-vindos à Via Nocturna
e obrigado por terem dedicado o vosso tempo para falar connosco. Para os
leitores que ainda não estejam familiarizados com os Karmamoi, como é que
apresentariam a banda e a sua trajetória artística desde a sua formação em
2008?
DANIELE GIOVANNONI (DG): Olá a
todos, ciao Pedro, obrigado por nos receberem e por apresentarem o nosso
novo álbum, Eternal Mistake, aos leitores de Via Nocturna. Como
mencionaste, os Karmamoi foram formados em Roma em 2008, por isso, na verdade,
estamos a fazer 15 anos este ano. Eu sou o único membro remanescente da
formação original. Para vos dar um breve resumo da história, começámos como uma
banda de covers, tocando ao vivo sucessos de rock e prog.
Em 2010, senti a necessidade de criar música original; lembro-me de aparecer na
sala de ensaios com a minha primeira composição original. O pessoal gostou e
fizemos o arranjo juntos. Essa canção tornou-se o primeiro single dos Karmamoi,
intitulado Venere, que acredito ser impossível de encontrar hoje em dia.
A partir desse momento, tudo mudou. Deixámos de tocar covers e
dedicámo-nos inteiramente a compor a nossa própria música. O nosso álbum de
estreia, Karmamoi, foi lançado em 2011. Continua a ser o nosso único
álbum em italiano, pois mudámos para o inglês com o nosso segundo lançamento, Odd
Trip, em 2013. Eternal Mistake é o nosso sétimo álbum de estúdio —
percorremos realmente um longo caminho.
Eternal
Mistake é apresentado como o vosso trabalho mais ambicioso até à data,
combinando uma narrativa filosófica com uma experiência musical profundamente
imersiva. Podem falar-nos sobre o processo criativo que levou ao nascimento
deste álbum?
DG: Ao
longo dos anos, procurámos sempre evoluir e enriquecer o nosso som e
composição, mantendo uma identidade musical clara e reconhecível. A primeira
grande distinção de Eternal Mistake é que marca o primeiro álbum
verdadeiramente colaborativo dos Karmamoi. Até agora, eu próprio tinha
escrito todas as nossas canções, mas para este disco partilhei as tarefas de
composição, arranjos e produção com o nosso vocalista, Valerio Sgargi,
que é, em grande medida, o meu alter ego musical. Embora tenhamos origens
musicais diferentes, partilhamos a mesma visão artística e abordagem à música.
O processo criativo em si é bastante tradicional: tudo começa com uma ideia
musical, seja minha ou do Valerio, que depois desenvolvemos em todos os
aspetos, desde a harmonia e a melodia até à estrutura, letras e design de som. Assim
que ficamos satisfeitos com a estrutura central da canção, preparamos uma demo
e enviamos as respetivas partes aos outros músicos. A partir daí, o trabalho
torna-se um processo meticuloso de aperfeiçoamento contínuo, com cada elemento
a ser ajustado e melhorado passo a passo até surgir a versão final. Foi uma
jornada longa, mas gratificante. Na verdade, a criação de Eternal Mistake
demorou aproximadamente dois anos, desde as ideias iniciais até ao álbum
concluído.
O álbum explora uma fascinante história envolvendo um humano e
um humanoide, abordando temas como o amor, a emoção, a empatia, a imperfeição e
as fronteiras entre a biologia e a tecnologia. O que inspirou este conceito e
que mensagem esperavam transmitir através dele?
DG: Quando
começámos a escrever Eternal Mistake há dois anos, a consciência pública
sobre a inteligência artificial estava apenas a começar a crescer. Desde então,
os desenvolvimentos tecnológicos aceleraram drasticamente e cada vez mais
pessoas estão a delegar tarefas e, em alguns casos, até processos de tomada de
decisão à IA. Isto levantou uma questão importante para nós: o que acontece
quando os seres humanos perdem gradualmente o hábito do pensamento crítico? A
partir desse ponto de partida, desenvolvemos o conceito de uma história de amor
impossível entre um humano e uma humanoide chamada Lara. Através desta relação,
pudemos explorar temas como o amor, a emoção e a fronteira cada vez mais ténue
entre o código e o batimento cardíaco. A história também nos levou a refletir
sobre a ideia de controlo. Numa relação entre um ser humano e um ser
artificial, quem é que, em última análise, assume o controlo? O criador ou a
criação? À medida que a narrativa se desenrola, aborda a imperfeição, a ilusão
da imortalidade e uma das mais antigas questões filosóficas da humanidade: qual
é o sentido da vida? Eternal Mistake é, acima de tudo, um álbum
impulsionado por perguntas em vez de respostas. Convida os ouvintes a refletir
sobre estes temas e a tirar as suas próprias conclusões, porque nós próprios
não afirmamos, de forma alguma, ter todas as respostas.
Os Karmamoi sempre conseguiram equilibrar a sofisticação do rock
progressivo com uma narrativa emocional. Como decorreu o processo de composição
e criação de Eternal Mistake, e como
garantiram que os aspetos conceptuais se mantivessem ligados à própria música?
DG: Para Eternal
Mistake, na verdade, escrevemos muito mais canções do que aquelas que
acabaram por integrar o álbum. Assim que tivemos uma coleção substancial de
material, começámos a selecionar as faixas que melhor refletiam os temas e
assuntos que queríamos explorar. Nesse sentido, o processo de composição e
seleção foi guiado pelo conceito do álbum desde o início. O processo de
composição em si é um compromisso diário. O Valerio e eu trabalhámos nestas
canções ao longo de dois anos, trocando constantemente ideias, discutindo
arranjos e aperfeiçoando cada detalhe até chegarmos ao resultado final.
Pessoalmente, não acredito muito na inspiração repentina; acredito mais na
dedicação e na perseverança, em estar pronto quando o momento certo chegar. Foi
exatamente essa a abordagem que aplicámos ao longo da criação de Eternal
Mistake.
Musicalmente, o álbum mistura passagens orquestrais, um trabalho
de guitarra poderoso, texturas eletrónicas, atmosferas cinematográficas e grooves hipnóticos. Como é que abordaram o desafio de
combinar todos estes elementos?
VALERIO SGARGI (VS): A
nossa visão artística sempre consistiu em reunir uma vasta gama de influências
musicais e culturais num todo coeso. Desde o nosso álbum anterior, Strings From
The Edge Of Sound, temos vindo a desenvolver conscientemente um estilo
altamente eclético, cinematográfico e evocativo. As nossas inspirações provêm
de muitas fontes diferentes, refletindo os nossos gostos pessoais, experiências
e origens. Vão do rock e da música clássica às bandas sonoras de filmes,
às composições tradicionais italianas e até mesmo aos movimentos vanguardistas
do século XX. Ao longo da criação de Eternal Mistake, o Daniele e eu
trabalhámos em estreita colaboração para integrar estas influências diversas no
processo de composição. Foi dedicada muita atenção a alcançar o equilíbrio
certo entre os vários elementos musicais, garantindo que cada um contribuísse
de forma significativa para a narrativa global. Em muitos aspetos, a nossa
abordagem assemelha-se à composição de uma ópera, onde cada detalhe musical e
lírico existe para servir a história e o seu núcleo emocional. Esse foi o nosso
princípio orientador ao longo de todo o álbum: o conceito e a narrativa
forneceram o fio condutor que uniu todas estas influências diferentes numa
única visão artística.
A lista de faixas alterna entre peças de transição mais curtas e
composições mais longas e expansivas. Esta estrutura foi concebida desde o
início como parte da narrativa, ou surgiu naturalmente durante o processo de
composição?
VS: Desde
o início, imaginámos o Eternal Mistake como um álbum conceptual
complexo, construído em torno de composições relativamente longas ligadas por
peças mais curtas que funcionam quase como recitativos ou prelúdios. Em muitos
aspetos, a nossa inspiração estava mais próxima da estrutura de um poema
sinfónico do que da de um álbum de rock tradicional. Na verdade,
acabámos por ter de reduzir algumas das nossas ideias originais. O material que
estávamos a desenvolver estava a tornar-se tão extenso que corríamos o risco de
criar um álbum que fosse simplesmente demasiado longo e ambicioso em termos de
alcance. No entanto, este processo não diminuiu o resultado final; pelo
contrário, deixou-nos com uma riqueza de ideias que podemos explorar em
projetos futuros. Vemos o Eternal Mistake como um passo importante na
evolução da nossa linguagem artística. De agora em diante, pretendemos
continuar a desenvolver e a aperfeiçoar esta abordagem, não só em estúdio, mas
também nas nossas atuações ao vivo. O nosso objetivo é, cada vez mais, criar
espetáculos que contem uma história e mergulhem o público numa experiência
narrativa, em vez de simplesmente apresentarmos uma sequência de canções.
O álbum conta com convidados como Randy McStine, Adam Holzman,
Susanna Brigatti e Gabriele Giovannoni. O que é que cada um destes artistas
trouxe para o álbum e de que forma as suas contribuições ajudaram a moldar o
resultado final?
DG: Contar
com músicos de renome internacional como Adam Holzman e Randy McStine,
ao lado de jovens talentos emergentes como Susanna Brigatti e Gabriele
Giovannoni, encorajou-nos a explorar novos horizontes musicais. Cada
convidado trouxe a sua própria sensibilidade, personalidade e visão artística
para as canções em que participou. Depois de contactarmos o Adam e o Randy e
confirmarmos a sua disponibilidade, enviámos-lhes demos das faixas para
as quais queríamos que contribuíssem. Em poucos dias, eles enviaram-nos as suas
excelentes interpretações. Nessa altura, fizemos alguns ajustes nas canções; não
nas harmonias ou melodias, mas principalmente nos arranjos e, acima de tudo, no
design de som, para integrar plenamente as suas contribuições. Susanna,
por outro lado, é uma amiga querida e uma cantora maravilhosa. Tínhamos escrito
uma canção chamada We Are Going Home e sentimos que uma vocalista
feminina seria a contraparte perfeita para a voz do Valerio. A Susanna foi a
escolha natural, e a sua contribuição combinou na perfeição tanto com a
atmosfera da canção como com a interpretação vocal do Valerio. O Gabriele é um
jovem ator que interpretou a narração de abertura do álbum em The Regrets.
Sempre gostámos de colaborar com artistas de diferentes origens e de envolver
pessoas talentosas para enriquecer a nossa música com novas perspetivas e
influências criativas.
O álbum foi gravado ao longo de mais de um ano, entre Milão e
Roma. O período de gravação prolongado permitiu que as canções e os arranjos
evoluíssem significativamente em comparação com as vossas ideias iniciais?
VS: O processo criativo é frequentemente caótico
e misterioso. Algumas faixas mantiveram-se muito próximas da sua forma
original, enquanto outras, especialmente as peças mais longas e ambiciosas, sofreram
alterações significativas e evoluíram consideravelmente ao longo do processo de
composição. Isso faz parte da natureza da criação de um álbum conceptual: as
ideias crescem, desenvolvem-se e, por vezes, tomam rumos inesperados. No
entanto, apesar de todos os ajustes e aperfeiçoamentos ao longo do caminho, a
visão geral que tínhamos quando começámos a trabalhar em Eternal Mistake
permaneceu completamente intacta. Olhando para trás, posso dizer que alcançámos
exatamente o que nos propusemos a fazer. O álbum final reflete fielmente os
objetivos artísticos e conceptuais que nos inspiraram desde o início.
Olhando para trás, para a vossa discografia, de que forma é que Eternal Mistake representa uma evolução em relação aos vossos
lançamentos anteriores e onde acham que marca a maior mudança no som dos
Karmamoi?
DG:
Definitivamente, a forma como construímos o álbum. Como mencionei, a colaboração entre o Valerio
e eu desenvolveu-se através de uma troca de ideias constante e altamente
construtiva. No final do processo de gravação, percebemos que o álbum tinha
adquirido um caráter diferente em comparação com os nossos lançamentos
anteriores, mantendo-se, no entanto, fiel às nossas raízes sonoras. Eternal
Mistake é um álbum construído sobre diferentes camadas de som, melodia,
harmonia, dinâmica e uma vasta gama de influências musicais que se entrelaçam e
interagem continuamente, permitindo que cada elemento tenha espaço para se
expressar. O som final representa a síntese perfeita de todos estes
componentes, e acredito que é isso que realmente distingue o álbum das nossas
produções anteriores. Além disso, as letras desempenham um papel fundamental na
transmissão e no realce das emoções evocadas pela música, acrescentando outra
dimensão à atmosfera geral e à narrativa do álbum.
Existem planos para levar o Eternal Mistake ao público através de digressões ou concertos
selecionados, e quão desafiante será recriar um álbum tão rico e complexo no
palco?
VS/DG: Atuar
ao vivo é absolutamente essencial para nós, e estamos a trabalhar arduamente
para levar o Eternal Mistake ao palco nos próximos meses. Em muitos
aspetos, o álbum foi concebido tendo já em mente a atuação ao vivo. Os nossos
concertos irão apresentar vários elementos novos concebidos para melhorar a
experiência do público, incluindo conteúdo de vídeo sincronizado, arranjos
musicais exclusivos criados especificamente para o palco e, claro, a energia
única que só uma atuação ao vivo pode proporcionar. Traduzir um álbum como o Eternal
Mistake num espetáculo ao vivo é um processo complexo que vai muito além do
estúdio de gravação. Requer um planeamento cuidadoso, equipamento técnico
dedicado, software especializado e faixas de acompanhamento para
reproduzir fielmente a riqueza e a profundidade do som do álbum. O nosso
objetivo é manter-nos o mais fiéis possível à versão de estúdio, ao mesmo tempo
que transformamos a música numa experiência ao vivo envolvente que transmita
plenamente a atmosfera, as emoções e a narrativa do disco.
Por fim, obrigado mais uma vez pelo vosso tempo. Há mais alguma
coisa que gostassem de partilhar com os nossos leitores sobre o Eternal Mistake e o futuro dos Karmamoi antes de concluirmos
esta entrevista?
DG/VS:
Obrigado mais uma vez, Pedro, e obrigado à equipa editorial da Via Nocturna
pelo espaço que dedicaram aos Karmamoi e ao nosso novo álbum, Eternal
Mistake. Para uma banda independente como nós, isto é muito importante.
Vamos tentar tocar o máximo possível para levar a nossa música ao maior número
de fãs possível. O futuro reserva muito mais música; estamos a trabalhar num
álbum ao vivo de um concerto gravado no ano passado nos Países Baixos. O meu
desejo para todos é que a paz possa finalmente ser encontrada em todo o mundo e
que possamos voltar a ser preenchidos de beleza e arte. Saudações a todos os
nossos leitores e boa música! Prog On!




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