Hellfest
2026 - Dia 3: sexta-feira, 19 de junho
O cansaço da viagem até Lyon, somado
ao do primeiro dia, poderia ter dado vontade de ficar na cama até mais tarde
nesta sexta-feira, mas nada disso. Porque se há um ponto em que continuaremos a
insistir todos os anos, vezes sem conta, é que o Hellfest ganha uma
dimensão completamente diferente de manhã. Antes do sol bater demasiado forte,
antes do público chegar em maior número. Mais arejado, o recinto torna-se ainda
mais agradável de percorrer, e é mais fácil mudar de palco para multiplicar os
encontros musicais.
O tempo de arrancar com o JeanLou, o
meu colega de quarto, e fica assente que chegaremos um nadinha tarde demais
para o primeiro horário das 10h30. Pena, porque, na opinião unânime dos
madrugadores, Dragunov no Valley teria merecido largamente um despertar
antecipado. Os nanteses jogavam em casa e será preciso ficar atento às suas
raras aparições pelo resto do território este verão para descobrir ao vivo o
seu post-metal instrumental sob máscara de gás.
Na City, a Guardiã sai lentamente da
sua letargia e recebe-nos com risos sardónicos.
Passada a Catedral, apercebemo-nos
rapidamente de que as filas do Sanctuary estão (mais uma vez) cheias. É tão
impressionante como na véspera e desejamos uma boa dose de paciência a quem só
agora se junta à fila.
Viramos em direção ao bosque porque o
objetivo inicial era não falhar Wake The Dead no Warzone. Entre o ioga
no Metal Corner e o hardcore dos marselheses, a escolha ficou
rapidamente feita. Vantagem para o two-step para começar o dia com o pé
direito! São apenas 11h e o clima no local já é mediterrânico. Os protegidos do
Flo dos Landmvrks claramente não vieram a Clisson para brincar, mas
antes para distribuir bons sopapos nos prémios da grande pancadaria. Aleksandra
está imparável atrás do microfone, e a plateia responde-lhe com o seu melhor
caos. Radical e sem concessões, tudo isto cheira a nódoas negras e dores
musculares nos próximos dias.
Como escrevi acima, aproveito esta
manhã para vaguear de palco em palco. Tirando o nome, de facto não conheço
muita gente do cartaz, por isso mais vale experimentar. Tento uma passagem por Yarostan
no Valley. Coincidência: também eles são de Marselha. Sem os murros. O que não
retira nada à potência vocal que libertam, diga-se, e deixo o grupo na lista
daqueles que ouvirei com mais atenção no regresso.
Não é tanto do gosto do JeanLou, por
isso seguimos para o Temple para mudar de estilo. E aí... é seguramente a
melhor ideia que ele terá tido no dia. Killus já está em palco e levamos
em cheio com o espetáculo completamente tresloucado dos espanhóis.
Carcterizados e maquilhados, o seu metal industrial tanto tem de
burlesco como de teatro, e é musicalmente excelente. Uma verdadeira chapada. Os
tipos estão a divertir-se imenso; isso vê-se e é contagiante como tudo.
Percebe-se melhor por que razão a tenda está a abarrotar, o que torna o
ambiente ainda mais louco. Um belo sucesso. O ponto alto do espetáculo continua
a ser aquela versão saída do nada de Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After
Midnight), dos ABBA, como último tema. O pior é que resulta mesmo!
Nem sequer são 13h e já tenho a sensação de ter assistido ao melhor concerto do
dia. Assombroso!
Encadear logo a seguir com as
raparigas dos Crypta no Altar vai revelar-se um pouco complicado. Tinha
gostado da passagem delas pelo Motocultor em 2024, mas confesso que fui
deixando o grupo um pouco de lado; entretanto, continuo colado ao que Killus
acabou de propor.
E depois hoje há um aperitivo gigante
às 14h no Muscadeath com os amigos da escola, e isso não se perde! O Hellfest
é também aproveitar os momentos com estes amigos que, em alguns casos, só vemos
uma vez por ano. Põem-se as novidades em dia, brinda-se, faz-se o balanço dos
primeiros concertos, ri-se, combinam-se encontros para ir ver outros juntos;
amizades raras e bonitas que também pesam na decisão de voltar todos os anos
para não falhar isto. Ocasião para constatar que este ano, uma vez mais, viemos
em grande número; vai ser preciso apertarmo-nos na fotografia!
Acabo por falhar o set dos Tesseract
na Mainstage 2, que tinha inicialmente inscrito no meu planeamento e que está
prestes a terminar dentro de poucos minutos. Mudança de planos: como vários
amigos seguem para a Warzone para ver Point Mort, decido acompanhá-los.
Desde a sua passagem pelo Hellfest no Valley, há exatamente 4 anos e 1
dia, percorreram já um bom caminho. Aliás, a plateia está muito cheia, prova do
entusiasmo que os parisienses agora despertam. O palco está coberto de flores,
Sam dá tudo, mas não consigo entrar no concerto e a atuação passa-me ao lado. 
Parto então para me posicionar no
Valley para Stoned Jesus. Se alguns podem estranhar ver de novo este
nome no cartaz de 2026, quando já tinham estado presentes no ano passado, é
porque os ucranianos têm uma história curiosa com o Hellfest.
Programados para este mesmo palco em 2025, problemas com o avião fizeram-nos
chegar demasiado tarde para poderem tocar no horário reservado. Ainda assim,
nada de cancelamento do set: foram transferidos para a Purple House. Uma
solução de recurso ligeiramente subdimensionada (suave eufemismo), tendo em
conta o ajuntamento à entrada e a longa fila de pessoas bloqueadas cá fora, à
espera em vão de que alguém saísse para ocupar o seu lugar. Nesse contexto
atípico, o concerto tinha sido extraordinário. 366 dias depois, o grupo dispõe
finalmente do enquadramento que merece e o público respondeu em peso para lhes
dar um acolhimento à altura deste regresso. Bandeira amarela e azul bem à vista,
Igor aproveita para recordar o episódio e saúda este bigger stage com
humor. O seu stoner de enorme beleza ressoa sob o sol de chumbo que
esmaga a relva. A temperatura deve andar perto da do ano passado dentro da
tenda, ao ponto de o vocalista se encarregar de oferecer água ao resto do grupo
e aos espectadores. Os piscares de olho sucedem-se («I’m the mountain, I’m the
Valley!») e, entre a alegria evidente de ali estar e palavras mais sérias sobre
a guerra, a banda não deixa de lembrar que tem a sorte de poder andar em
digressão. É importante para eles fazê-lo tanto quanto lançar novos álbuns e,
alegria das alegrias, o próximo, aliás, já está pronto.
Enquanto Accept se ocupa da
Mainstage 1 com uma boa dose de confetes, Dying Wish vira a Warzone do
avesso. Inicialmente, tinha previsto ir dizer um último adeus a Sepultura
na Mainstage 2, mas já os vi várias vezes nos últimos 24 meses, e os amigos
convencem-me a ficar no Valley para Torche. Desconhecidos para mim até
então, descubro que a sua última vinda a França remontaria a um Trabendo
parisiense há... 10 anos?! Ventoinha no máximo e cabeleira ao vento, o frontman
Steve Brooks mostra-se impressionado com a multidão presente neste Hell-Yeah!-Fest.
O som está super bom, é pesado, certinho, contundente. Uma atuação que tinha
tudo para cheirar bem à areia quente das praias da Flórida, até que o pouco
vento que sopra na pradaria decide outra coisa. Traz sorrateiramente às nossas
narinas o ar viciado das casas de banho situadas à direita do palco, vindo
assim estilhaçar o delicado casulo musical que a banda tinha conscienciosamente
construído. Um problema devido às condições climáticas extremas que convinha
resolver em 2027, já que o planeta não está a planear arrefecer nos próximos
anos. Tanto mais problemático quanto também se repete no Temple, com uma
configuração palco/casas de banho semelhante.
Queria ter aproveitado esta edição
para (finalmente!) ter a oportunidade de ver Helloween ao vivo, mas a
esta hora a Mainstage 1 já está inacessível. Toda esta gente a transbordar para
os relvados corta-me a vontade de me enfiar com dificuldade na multidão para
tentar vislumbrar outra coisa que não pequenas formigas gesticulantes. Para ver
o concerto nos ecrãs, comigo não contem; também não gosto disso. Falhado desta
vez, portanto, mas hei de apanhá-los um dia, hei de apanhá-los!
Em vez disso, volto à Hellcity para
ver HümanimaL dar tudo na Hellstage. É a primeiríssima vez que os
nanteses tocam no Hellfest e deixam tudo em palco. Aquilo bate forte, a
voz de Benjamin e a potência do grupo são cativantes. Tudo isto sob o olhar
atento de um Ozzy Osbourne que parece apreciar e dar-lhes a sua bênção.
Um belíssimo batismo de fogo!
Assim que o set termina, agarro
num hambúrguer e volto a instalar-me na Warzone para Malevolence.
Desenvolvi por estes tipos de Sheffield um amor crescente desde que os descobri
na primeira parte de Trivium e Heaven Shall Burn no Olympia, em
2023. Desde então acompanharam os amigos de While She Sleeps na
digressão de 2024 e fizeram a sua própria digressão como cabeças de cartaz em
2025 para o lançamento de Where Only The Truth Is Spoken. Impensável
falhar o primeiro Hellfest deles também! O acaso faz com que eu mate a
espera à conversa com um inglês da Cornualha que partilha o mesmo entusiasmo
pela malta do Alex, se não mais. Ainda não sabemos, mas a banda vai fazer
questão de demolir tudo. Mas mesmo tudo! Cada canção vai ser uma tentativa de
bater recordes para fazer deste concerto um momento memorável, um marco na
carreira deles. O maior número de crowdsurfers, o circle pit mais
largo (visível por satélite!), o caos é dantesco. Alex saboreia tudo em palco,
parece querer beliscar-se para acreditar no que está a ver. Exibe o mesmo
sorriso imenso de uma criança a quem tivessem oferecido no aniversário o
presente mais impensável e inacessível dos seus sonhos. É monstruoso de prazer
e de uma eficácia temível. Um regalo de brutalidade. Daqui a uns anos, quando
alguns olharem para trás a pensar que gostariam de ter assistido a isto ao
vivo, outros hão de pavonear-se com orgulho. Nós estivemos lá, vimos a História
a escrever-se!
O único inconveniente deste concerto
de doces malucos acabou por ser estar programado a morder o início dos Iron
Maiden na Mainstage 1. Bruce Dickinson já está em ação há 45 minutos
quando consigo posicionar-me junto à Mainstage 2 contígua. Felizmente ainda
resta 1h25 de espetáculo, e que espetáculo do caraças! Entre dois interlúdios
em francês, o mais parisiense dos ingleses segura aquilo como uma fera e
demonstra a quem ainda duvidasse (mas quem?) que é um cabeça de cartaz
incontornável. Esta etapa ao ar livre da Run For Your Lives Tour não é
nada menos do que uma demonstração fulgurante da sua grande forma. Os quadros
são variados e magnificamente encenados, os clássicos desfilam (com uma
discografia destas, como poderia ser de outra forma?). Janick Gers
continua tão habilidoso e possuído como sempre; ainda vai acabar por massacrar
o instrumento de tanto o maltratar daquela maneira em todos os sentidos. O set
principal termina com Iron Maiden de forma um pouco abrupta e com a
promessa de que o grupo voltará de uma maneira ou de outra, daqui a 1 ou 2
anos, quem sabe?... Mas era um estratagema hábil. O discurso de Churchill enche
o ar e, sobre o seu «We shall never
surrender», Bruce reaparece como piloto para a batalha de Aces High.
Épico! Saca de um Fear Of The Dark absolutamente esplêndido, cantado em
coro por todo o Hellfest, antes de acender o rastilho de um último Wasted
Years. «Incrível, Hellfest!»
solta o frontman, «Voltaremos,
como James Bond! Bom fim de semana, boa vida e encontramo-nos em Paris ou em
Lyon», conclui. Faltam superlativos e invejo quem vai ter a sorte de os
rever nessas duas datas.
Depois desta masterclass, chega
a vez de outro grupo habituado ao Hellfest revelar a sua armada na
Mainstage 2: Sabaton. Quem os viu em Nancy durante o Heavy Week-End
uma dezena de dias antes não se surpreende por reconhecer a mesma cenografia
depurada, com aquele único carro de combate monstruoso onde está montada a
bateria. Também sabem que o público vai ser atropelado por suecos a todo o gás,
liderados por um Joakim Brodén em noite grande. Começa logo com Ghost
Division + Yamato, que colocam a fasquia muito alta. O grupo goza em
Clisson de uma popularidade monumental desde 2019, ano em que substituíram em
cima da hora os pequeninos e caprichosos Manowar, que se recusavam a
saltar o obstáculo. A resposta da plateia arrepia o vocalista, que não hesita
em qualificar o festival como um dos melhores do planeta. É uma frase feita,
claro, mas neste caso temos muita vontade de acreditar, tal é a forma como as duas
Mainstages reagem aos temas tocados. A apreensão de passar logo depois de Iron
Maiden acaba por transcendê-los e entregam, mais uma vez, um espetáculo
impressionante, generoso, visualmente impecável e musicalmente empolgante. O karaoke
em Templars funciona mesmo bem e o regresso de Napoleão ao palco em
carne e osso torna-se um número muito bem oleado, que encaixa perfeitamente no
desenrolar do espetáculo. Bónus: percebemos que o tanque pode ser içado no ar,
o que o torna ainda mais ameaçador e vem rematar a empreitada de destruição
visual. Definitivamente, não me farto. Já anunciaram duas novas passagens por
França em 2027, em Nantes e Toulouse. Será muito provavelmente com a cenografia
completa da tournée Legends, e não posso deixar de aconselhar os
curiosos que levaram uma chapada esta noite a ir ver isso mais de perto.
Ultra - do caraças - Vomit assume a
seguir a Mainstage 1. Eles também trouxeram a artilharia pesada para este
regresso depois de 7 anos de ausência. Deviam ter estado presentes na edição de
2025, mas a operação do Fetus a uma hérnia discal levou ao cancelamento
forçado. O plano não foi por água abaixo durante muito tempo, já que a banda
confirmou rapidamente que seriam apenas adiados para este ano (uma vez que
conhecíamos um nome do cartaz com antecedência!). Depois de 18 anos de
sofrimento na Mainstage 2, ei-los finalmente na maior cena do Hell - do caraças
- Fest, e, como tinham anunciado, vieram claramente «dar-nos com tudo na tromba». Fala-se até de uma captação ao vivo
para fazer um DVD (ou uma VHS), o que será uma boa forma de avaliar a prestação
deles, porque eu não fico. Escapo-me durante a aula dos dedos de metal
no ar, rumo ao Temple.
Os amigos esperam-me à frente de The
Gathering. Tinha cometido o erro de os falhar algumas semanas antes em
Paris: uma vez, mas não duas. Ainda para mais, esta digressão marca o regresso
da vocalista original do grupo, Anneke van Giersbergen. A sua voz
cristalina ressoa por toda a tenda quando me posiciono o mais perto possível.
Ela não toca os temas: habita-os e vive-os a fundo. O resultado é ultra
planante, é estupefaciente e ela prende-me por completo. Tudo funciona, o tempo
fica suspenso, é impossível explicar como e até que ponto a música deles me
transporta. O estado de sideração é total e saio de lá emocionalmente esgotado.
Na Mainstage 1, Ultra Vomit
continua em cena. Fico a saber que Christian dos Gojira se juntou a eles
no palco para o tema Calojira (óbvio!) e que Manard se lançou numa
homenagem a Ozzy, cantando Crazy Train. Estão já no fim do set; o
rammsteiniano Kammthaar irrompe antes de um fogo de artifício (já o
segundo do festival) iluminar a noite deste terceiro dia, mais uma vez bem
preenchido. Até amanhã para a continuação!
Reportagem a cargo de Matthieu
Chatenay

















































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