E se
uma música pudesse ser uma cena, uma memória ou até um lugar onde regressamos
quando as palavras já não chegam? É nesse território, algures entre a imagem e
a emoção, que Alexandre Santos tem vindo a construir Cineasta. Em Unreel, essa viagem ganha uma dimensão particularmente
pessoal, por isso voltamos à conversa com o mentor do projeto sobre todo esse
processo, sobre a liberdade de compor sem fronteiras e sobre a vontade de,
finalmente, transformar Cineasta também numa experiência para os palcos.
Olá, Alexandre. Antes
de mais, é um prazer voltar a receber-te no Via Nocturna. Para quem possa estar
a descobrir o teu trabalho através de Unreel, como apresentarias o projeto
Cineasta e aquilo que o distingue das restantes aventuras musicais do teu
percurso?
Olá, Pedro, muito obrigado pelo convite e é com grande
prazer que volto à Via Nocturna! Cineasta é um projeto que teve
início há 2 anos. O álbum de estreia foi lançado em 2024 e agora volto com Unreel.
Cineasta é um projeto maioritariamente instrumental, em que a melodia e os
arranjos são o foco principal. Não me quero prender a um estilo musical, quero
principalmente explorar as minhas emoções em cada música e experimentar
diferentes sonoridades. Isto acaba por ser bastante diferente do que fiz em Scar
For Life, por exemplo, porque, sendo uma banda com vocalista, a voz acabava
sempre por direcionar o ouvinte para um determinado estilo musical, o que é
natural, mas sinto que agora posso explorar cada vez mais outras
vertentes.
Unreel chega como o segundo capítulo
de Cineasta. Sentiste que este era um álbum que precisava de acontecer neste
momento da tua vida ou foi o próprio processo de composição que acabou por
ditar essa necessidade?
Diria que as duas coisas se complementam. O processo
foi natural, mas longe de ser fácil. Compor e gravar funcionou como uma
terapia: tive de encarar os meus demónios e deitar tudo cá fora através das
melodias. Passei por uma fase muito atribulada e cheguei a pensar em desistir
da música. Não por falta de criatividade, porque a inspiração estava lá, mas
porque me faltavam a energia e a força mental para organizar o trabalho e
começar a gravar.
O próprio título sugere
a ideia de algo que se desenrola, como uma película cinematográfica. Até que
ponto Unreel foi pensado como uma narrativa contínua e que
significado atribuis a esse nome?
A ideia é exatamente essa. O álbum nasceu de esboços
ao piano que gravei no telemóvel quando estava prestes a desistir da música. Só
em novembro passado decidi recuperar esses ficheiros e redescobri melodias que
já tinha esquecido. Isso deu-me o balanço necessário para criar as maquetes e
avançar. Unreel reflete o desenrolar da minha vida nos últimos dois
anos. Não é um trabalho conceptual, mas tem um fio condutor claro: vai da
melancolia e da dor do luto até à força e à esperança. Para encontrar essa luz,
precisei de encarar o sofrimento e procurar um sentido para tudo o que vivi.
Ao longo dos anos
participaste em projetos bastante diferentes entre si. Há algo que apenas
consigas dizer através de Cineasta e que nunca teria lugar noutra das tuas
bandas?
A grande diferença é a total liberdade de expressão.
Nos meus projetos anteriores, a composição dependia muito do estilo e da voz do
vocalista. Adoro esse trabalho de colaboração, mas sempre tive vontade de
explorar o formato instrumental, que já surgia pontualmente noutros discos.
Cineasta permite-me fazer isso sem barreiras. É um desafio recomeçar do zero e
ter uma tela em branco, mas é extremamente recompensador.
Referiste que muitas
destas ideias nasceram de pequenos registos de piano feitos no telemóvel
durante um período particularmente difícil da tua vida. Como é que esses
esboços se transformaram no álbum que hoje ouvimos?
Foram dois anos duríssimos. Perdi o meu pai após uma
batalha longa contra o Alzheimer e, um mês antes, separei-me da minha
companheira de longa data. Fiquei sem chão porque o meu pai era o meu porto
seguro e o meu melhor amigo. Os últimos cinco anos da doença dele foram
exaustivos para mim e para os mais próximos. Quando ele partiu, senti um misto
de exaustão e alívio por saber que o sofrimento dele tinha terminado. O ano
seguinte foi como reaprender a andar. Sentava-me ao piano e gravava ideias
soltas no telemóvel, sem qualquer plano. Meses mais tarde, ao ouvir os
registos, percebi que tinha ali a base para um disco. O entusiasmo voltou,
comecei a desenhar os arranjos e avancei para as gravações finais.
Apesar de ter origem
num contexto pessoal complicado, Unreel transmite uma sensação de esperança e
serenidade. Foi importante para ti que o disco deixasse essa mensagem em vez de
se tornar um exercício de introspeção mais sombrio?
Sim, totalmente. Momentos difíceis fazem parte da vida
de qualquer pessoa e cabe-nos aprender com eles para crescer. A minha forma de
comunicar com o ouvinte é através da música, e quis mesmo transmitir conforto e
esperança. A tempestade passa sempre; hoje chove, mas amanhã fará sol. É fácil
cair no negativismo, mas o meu objetivo com este disco é mostrar que
conseguimos superar os obstáculos e, no final, sentir orgulho da nossa
resiliência.
Em Unreel cruzam-se
elementos de cinematic rock, post-rock e rock progressivo,
mas sem que o álbum pareça preso a qualquer género específico. Quando compões,
pensas conscientemente nessa identidade sonora ou deixas simplesmente que a
música encontre o seu próprio caminho?
Como o próprio nome indica, quero que cada faixa tenha
uma forte componente cinematográfica, permitindo ao ouvinte fechar os olhos e
viajar. Como não estou preso a fórmulas, deixo-me guiar apenas pelo que sinto
na altura. Sei que a música instrumental às vezes afasta o público porque se
associa a álbuns técnicos feitos "para músicos". Eu próprio não tenho
paciência para isso. O meu foco não é a técnica; vejo-me mais como um
compositor do que como um instrumentista.
Este é também o
primeiro trabalho em que decides gravar temas na tua língua materna. O que te
levou a dar finalmente esse passo? Sentiste que escrever em português exigiu
uma abordagem diferente?
O meu pai, Paulo Alexandre, era cantor (para além de
ter tido outras atividades) e sempre cantou em português. Este passo foi a
minha forma de lhe prestar homenagem. Procurei a voz ideal durante meses e,
quando estava quase a desistir, encontrei a Sombra. O encaixe foi
perfeito e as letras dela captaram exatamente a essência das músicas. Ela
gravou a ...E Foi Amor e a Recomeço. Inicialmente seria apenas um
tema, mas decidi dividi-lo. O primeiro é muito cru, sem efeitos ou truques —
apenas piano, voz e violinos — sobre a dor da despedida e o desapego. O segundo
fala sobre retomar as rédeas da vida, trazendo uma sonoridade mais forte, mas
mantendo a mesma base melódica.
As quatro faixas
cantadas contam com participações bastante distintas: Sombra, Mark Boals e
David Reed Watson. Como nasceu a escolha de cada um deles e de que forma
influenciou a identidade final dessas composições?
Como o álbum é muito dinâmico, procurei as vozes que
melhor serviam o ambiente de cada tema. O David Reed Watson é um grande
amigo; colaboramos regularmente e trabalhar com ele é sempre uma escolha óbvia
e natural. Já o Mark Boals (conhecido pelo seu trabalho com Yngwie
Malmsteen) trouxe uma cor completamente diferente ao projeto. Arrisquei o
convite; ele gostou da música e fiquei bastante contente com o resultado.
Voltaste igualmente a
reunir Vicente Ferreira e German D, músicos que já fazem parte do universo de
Cineasta desde o início. O que acrescentam eles à tua visão enquanto compositor
e produtor?
São dois músicos excecionais que elevam as composições
a outro nível. O meu processo com eles é simples: envio os temas com os
arranjos base e as baterias programadas e dou-lhes total liberdade para fazerem
a sua magia. O talento e a identidade que trazem às músicas são
insubstituíveis.
Num projeto chamado
Cineasta, a componente visual é quase inseparável da música. A capa de Unreel reforça essa
ideia. Até que ponto a estética visual faz parte da narrativa que pretendes
construir?
O plano inicial era ter um vídeo para cada tema. Era
ambicioso, mas prefiro pensar em grande. Depois, por questões de orçamento,
tive de reajustar as expectativas, mas a estética visual continua a ser
fundamental para Cineasta. Neste momento, estou a trabalhar no vídeo de ...E
Foi Amor com um jovem realizador e com a Sombra. Já fechámos o guião
e o casting. Será a primeira vez que vou transpor o universo do Cineasta
para o ecrã e estou muito entusiasmado com o desafio.
Cineasta parece ser um
projeto particularmente aberto à experimentação e à colaboração. Há territórios
musicais que ainda gostasses de explorar nos próximos capítulos?
Há imenso território por explorar. Não me entusiasma a
ideia de repetir a mesma fórmula álbum após álbum. A grande vantagem de Cineasta
é funcionar como um diário musical livre de barreiras estilísticas. O tema Recomeço
já me deixou algumas pistas sobre caminhos futuros, mas, para já, o foco está
no presente.
Os teus projetos sempre
tiveram uma forte componente de estúdio. Ainda assim, existe a possibilidade de
Unreel
ganhar vida em palco ou, pelo menos, tens vontade de levar Cineasta para esse
contexto?
É o que mais gostaria de concretizar, mas gerir toda a
logística e agendamento de concertos sozinho é inviável com tudo o que já tenho
em mãos. Precisava de uma parceria que assumisse o agenciamento para eu me
focar exclusivamente nos ensaios e no conceito visual do espetáculo. Sei que o
som de Cineasta não se enquadra facilmente nos cartazes habituais, mas
isso também nos dá a liberdade de criar as nossas próprias datas.
Para terminar, que
mensagem gostarias de deixar aos leitores do Via Nocturna e a todos aqueles que
se preparam para descobrir Unreel?
Aos leitores, peço que continuem a apoiar os artistas,
jornalistas e criadores que trabalham de forma genuína para trazer algo de
novo. Um abraço e parabéns ao Pedro por manter o Via Nocturna ativo e
relevante há tantos anos. Unreel saíu a 23 de julho em todas as
plataformas de streaming, e a edição em vinil chega poucas semanas
depois. Podem acompanhar todas as novidades e aceder às redes sociais em www.alexsantosmusic.com. Muito obrigado e um grande abraço!




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