Entrevista: Master Massive

 




E se o heavy metal tivesse escolhido outro caminho? É uma pergunta que poderia servir de ponto de partida para os Master Massive, banda que há mais de três décadas parece construir a sua própria resposta. Em White Shadows, essa realidade alternativa ganha novas formas: canções mais dinâmicas, três vocalistas e uma abordagem orgânica à gravação. Falámos com Jan Strandh sobre essa visão, o processo criativo da banda e o universo particular dos Master Massive.

 

Olá, Jan, e bem-vindo a Via Nocturna 2000. É um prazer ter finalmente os Master Massive connosco. Embora existam desde o início dos anos 90, o vosso nome tem-se mantido como uma espécie de tesouro escondido no underground do heavy metal. Para os leitores que estão a descobrir a banda pela primeira vez, como apresentariam os Master Massive e o que tem mantido o seu espírito vivo há mais de três décadas?

Obrigado pelo convite, Pedro! Aproximadamente entre 1980 e 1984, muitas bandas esforçavam-se por criar música que ainda mantivesse um forte elemento progressivo, reminiscente dos grupos progressivos da década de 1970. À medida que os anos 80 avançavam, isso foi-se desvanecendo gradualmente. As bandas tornaram-se cada vez mais comerciais e enfrentaram uma pressão crescente para produzir canções de sucesso. É aqui que entra a minha visão principal. Quero criar música que soe como aquilo em que o heavy metal poderia ter evoluído após 1988, se tivesse sido eu a moldar o seu futuro. Essa é a força motriz por trás dos Master Massive. Criamos música como se ela existisse numa realidade paralela.

 

Os Master Massive têm sido frequentemente descritos como uma banda de culto, em vez de um sucesso mainstream. Vês esse estatuto como algo que aconteceu naturalmente, ou seguir a tua própria visão artística sempre foi mais importante do que alcançar um público mais vasto?

A força motriz sempre foi criar a música que tanto eu como a banda amamos verdadeiramente. Essa sempre foi a nossa principal prioridade, e estamos dispostos a dedicar todo o tempo que for preciso para acertar. Ainda não alcançámos um público verdadeiramente vasto, mas, como referiste, construímos uma base de fãs leais que nos acompanha há décadas. Ao mesmo tempo, a Fireflash fez um excelente trabalho a divulgar o álbum, e vemos novos ouvintes a descobrirem-nos todos os dias.

 

White Shadows chega após mais um longo intervalo entre álbuns de estúdio. Olhando para trás, o que explica estes longos períodos entre lançamentos?

Há várias razões. Uma das principais é que trabalhamos à moda antiga. Demora muito tempo a desenvolver o material. Queremos que todas as faixas do álbum sejam fortes e não aceitamos nenhuma faixa de preenchimento. Também não compomos música simples, e isso leva o seu tempo até que todos na banda assimilem totalmente as canções. À exceção do nosso guitarrista ao vivo, Anders «Exo» Ericson, vivemos todos na mesma zona e reunimo-nos regularmente. Todos os membros da banda, exceto eu, também tocam noutras bandas, pelo que coordenar horários e planear ensaios é um verdadeiro desafio. É preciso ter uma visão forte para se manter empenhado naquilo que se pretende alcançar quando o processo demora tanto tempo. Os Master Massive estão em constante evolução, por isso estamos sempre a explorar novas ideias. Quanto a mim, concluí um programa de formação vocal de um ano e também me juntei a um coro que interpreta muita música clássica, incluindo obras de Bach e Brahms. Essa experiência permitiu-me orientar os cantores em White Shadows de forma muito mais eficaz.

 

A composição em White Shadows equilibra canções mais curtas e imediatas com o carácter épico que sempre fez parte da vossa música. Qual foi a visão criativa por trás deste álbum e em que medida o processo de composição diferiu do de Black Feathers On Their Graves?

Em primeiro lugar, queria fazer um álbum mais direto, com passagens mais rápidas e canções mais curtas. Mas a maior mudança foi convidar o Max Warnby para o processo de composição. O seu envolvimento deu-nos mais perspetivas no desenvolvimento das canções. Tentámos reunir-nos uma vez por semana, altura em que eu lhe tocava as minhas ideias e, juntos, selecionávamos os temas, os riffs e as melodias que ambos considerávamos mais fortes. O Max teve uma grande influência na escolha das ideias que acabaram por integrar o álbum. Só avançamos com uma canção quando ambos estamos completamente satisfeitos com ela. Ambos temos uma paixão profunda pelo heavy metal, mas viemos de gerações totalmente diferentes, cada um com a sua própria perspetiva musical. Por isso, quando ambos concordamos que uma canção funciona, é um bom sinal de que vai cativar os ouvintes.

 

Referiste que o material se tornou tão dinâmico que um único cantor não conseguia expressar plenamente tudo o que tinhas em mente, o que acabou por levar ao conceito de três vocalistas. Em que momento percebeste que esta abordagem não era apenas uma experiência, mas sim a escolha artística certa para os Master Massive?

Quando começámos a falar em trazer vozes adicionais para a gravação, foi o Marcus «Masken» Karlsson quem sugeriu o Tony Niva, enquanto o Max Warnby recomendou o Viktor Gustafsson, que acabara de se mudar para a nossa cidade natal. Acabou por ser uma experiência incrivelmente criativa e agradável trabalhar com três vocalistas. Por isso, quando um amigo nosso estava prestes a abrir um novo clube de rock, decidimos atuar com os três cantores para tornar a ocasião ainda mais especial. Aquele concerto resolveu a questão. Os Master Massive simplesmente funcionam melhor com três vocalistas e, felizmente, os três aceitaram o nosso convite para se juntarem à banda.

 

Ter três cantores muito diferentes confere ao álbum uma profundidade e variedade invulgares. Como é que decidiram qual o vocalista que iria interpretar cada secção e quão colaborativo foi esse processo entre os compositores e os próprios vocalistas?

Tanto o Tony como o Masken têm registos muito agudos. Se uma passagem tiver de ser lírica e aguda, escolho o Tony. Se tiver de ser poderosa e aguda, opto pelo Masken. O registo do Viktor é um pouco mais grave, e ele tem um estilo vocal mais sensível e expressivo. O mais importante é atribuir a cada cantor partes que se adequem à sua voz. Houve ocasiões em que pedi a dois cantores que gravassem a mesma secção porque não tinha a certeza de quem se adequaria melhor, mas isso normalmente não é necessário.

 

Viktor Gustafsson junta-se aos Master Massive em White Shadows, completando este trio único de vocalistas. O que é que ele trouxe à banda, tanto musicalmente como a nível pessoal, que fez com que se encaixasse tão naturalmente?

O Viktor vive e respira heavy metal da velha guarda. É um cantor com uma forte intuição, capaz de expressar uma escuridão profunda, mas que transita sem esforço para a luz. Tem um timbre que reivindica verdadeiramente o seu próprio espaço na paisagem sonora, quase como um comentário às guitarras de metal. Com uma naturalidade e um espírito genuíno, tornou-se uma parte verdadeiramente apreciada da família Master Massive.

 

Depois de lançarem os vossos álbuns anteriores pela ViciSolum Productions, White Shadows marca a vossa primeira colaboração com a Fireflash Records. O que motivou a mudança para uma nova editora e o que vos convenceu de que a Fireflash era o parceiro certo para este novo capítulo?

Tínhamos um contrato de dois álbuns com a ViciSolum, que foi cumprido com Black Feathers On Their Graves. A forma como acabámos por assinar com a Fireflash é uma história fantástica. Em 1987, a minha canção Time Out Of Mind foi tocada na rádio nacional sueca, num programa que todos os fãs de heavy metal ouviam na altura. Um desses ouvintes era Uffe Petterson, dos Mezzrow. Ele adorou a canção e nunca a esqueceu. Através de conhecidos em comum, acabei por ficar a saber disso, por isso entrei em contacto com ele. Ele apresentou-me imediatamente ao Markus Wosgien e à sua editora, a Fireflash Records. A Fireflash parece ser o lar perfeito para nós. Têm uma extensa rede internacional e apoiam ativamente uma vasta gama de metal, incluindo o nosso estilo específico. Antes mesmo de assinarmos com a editora, Markus Wosgien comprou todo o nosso catálogo antigo para a sua coleção particular de discos, o que me pareceu um sinal muito bom.

 

Um aspeto que se destaca em White Shadows é a sua sensação muito orgânica. Gravar sem metrónomo é bastante invulgar hoje em dia, mas disseste que era essencial para captar o groove natural que procuravam. Foi uma decisão difícil no panorama atual da produção, e achas que os ouvintes vão notar conscientemente a diferença?

Na verdade, foi uma decisão bastante fácil. Quando sugeri a ideia aos meus colegas de banda, não fazia ideia de que o nosso baterista, Johan Hautajärvi, já tinha muita experiência em gravar bateria assim. Gravar sem click track é muitas vezes mais desafiante, mas, ao mesmo tempo, é mais fácil conseguir um groove e um resultado final mais naturais. Acho que muitas pessoas vão notar a diferença, especialmente quem gosta de gravações clássicas de pop, rock e metal.

 

A vossa música sempre combinou o heavy metal tradicional com influências progressivas e doom, mantendo-se, no entanto, inconfundivelmente Master Massive. Depois de todos estes anos, ainda sentes que há território por explorar para a banda, ou já alcançaram o som que sempre imaginaram?

Não há dúvida de que estou extremamente satisfeito com o novo álbum, tanto com o som como com a nossa interpretação nele. Os Master Massive sempre abraçaram novos desafios, mantendo-se fiéis às nossas raízes. Nunca compomos nem gravamos de acordo com uma fórmula ou conceito predeterminado. Neste momento, o Max e eu estamos a trabalhar tanto em material novo como em canções mais antigas, o que deverá ser suficiente para mais dois álbuns. Dito isto, há algumas coisas que já decidimos. Vamos continuar a gravar sem click track e vamos manter os três vocalistas. Esses são elementos que vamos manter do White Shadows.

 

Com um novo álbum, uma formação renovada e uma nova parceria com a Fireflash Records, quais são os planos dos Master Massive para os concertos ao vivo? Os fãs podem esperar ver o White Shadows ganhar vida em concerto num futuro próximo, e quão desafiante é recriar um álbum com três vocalistas no palco?

Já tocámos ao vivo com três vocalistas e, como somos uma banda que ensaia muito, estamos confiantes de que conseguiremos fazê-lo no palco. Os Master Massive têm um historial de realizar apenas alguns concertos, mas estes costumam esgotar e contam com a presença de fãs dedicados. Temos um concerto de lançamento do álbum agendado para agosto de 2026 na nossa cidade natal. Para além disso, não temos mais datas de concertos agendadas de momento. Mas se surgirem as ofertas certas da Europa, lá estaremos.

 

Muito obrigado pelo vosso tempo e por terem falado com a Via Nocturna 2000. Antes de terminarmos, gostariam de deixar uma mensagem final aos nossos leitores e a todos aqueles que continuam a apoiar os Master Massive em todo o mundo?

Se gostas de heavy metal melódico, pesado, mas criativo, deves a ti próprio dar uma oportunidade ao álbum White Shadows dos Master Massive. Pode muito bem ser o tesouro escondido que tens procurado. E a todos os fãs que nos têm apoiado ao longo dos anos: muito obrigado pela vossa lealdade, paciência e confiança nos Master Massive!

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