Entrevista: Shadowmare


Depois de uma década marcada por uma forte componente progressiva, Transfiguration encontra a banda reduzida a um quarteto, com uma só guitarra e uma abordagem mais curta, direta e intensa. O resultado não é propriamente uma rutura com o passado, mas antes a descoberta de uma nova forma de fazer soar os Shadowmare. Voltamos a estar à conversa com o coletivo algarvio, agora para nos falar sobre esta transformação, a opção por temas mais concisos e o regresso do uso do português.

 

Olá, pessoal, e bem-vindos novamente a Via Nocturna 2000! É sempre um prazer voltar a conversar convosco, depois de várias entrevistas ao longo do vosso percurso. Desde a nossa última conversa, a banda atravessou mais uma etapa de mudança e chega agora com Transfiguration. Como estão e como gostariam de apresentar este novo capítulo aos nossos leitores?

Boas, é sempre um prazer também estar à conversa novamente com a Via Nocturna 2000. Transfiguration é realmente um novo capítulo, um capítulo mais natural, leve e orgânico onde nos sentimos mais conectados que nunca.

 

Na verdade, estamos perante uns Shadowmare bastante diferentes. Foi precisamente essa vontade de romper com aquilo que já tinham feito que esteve na origem do álbum, ou a transformação acabou por acontecer naturalmente durante o processo de composição?

Houve aqui, sim, uma necessidade de mudança, com as novas formações e depois a adaptação a 4 membros; entendemos logo que algo tinha de mudar. O mindset já ia borbulhando e depois naturalmente acabou por acontecer.

 

O próprio título, Transfiguration, parece particularmente adequado ao momento que atravessam: há aqui uma verdadeira transfiguração dos Shadowmare. Em que medida sentem que esta mudança representa uma evolução da banda e não apenas uma alteração de circunstâncias?

Para além, claro, da representação de todas as mudanças que tivemos, o álbum todo, da primeira música à sétima, é mesmo isso: sentimos algo mais forte, algo que nos fez querer procurar intensidade, uma entrega mais direta e até talvez mais bruta, menos delicada como outrora.

 

Uma das mudanças mais evidentes está na formação: os Shadowmare passam a apresentar-se como um quarteto e com apenas uma guitarra. Foi necessário reaprender a escrever Shadowmare com esta nova configuração?

Sim, essa mudança foi crucial; fez-nos adaptar as músicas do segundo álbum, mas entendemos logo que não era tarefa fácil, pois as músicas foram feitas para dois leads de guitarra. Rapidamente entendemos que teríamos que começar a trabalhar novos temas.

 

Outra diferença marcante está na duração e estrutura dos temas. Transfiguration aposta em composições muito mais curtas, diretas e cruas. Esta opção nasceu da necessidade de dizer mais com menos ou simplesmente da vontade de eliminar tudo aquilo que já não era necessário?

É mais por aí, menos é mais. Não queremos eliminar nada nem esquecer nada para trás, porque, como é óbvio, é história da banda e de todo o crescimento. Simplesmente toda a vontade dos 4 guiou-nos para músicas mais curtas e intensas.

 

Com temas mais curtos e diretos, existe também menos espaço para desenvolver aquelas construções progressivas e técnicas que faziam parte da vossa assinatura. Sentem que estão a abdicar de alguma coisa ou que, simplesmente, estão a explorar outra forma de expressar a mesma intensidade?

Temos a noção de que, por serem mais curtas, perdemos um pouco o espaço para os tais solos grandes, dobragens, progressividade nas cordas. Ao mesmo tempo veio-nos entregar uma nova forma de nos expressar. Não quer dizer que nunca voltaremos a um álbum totalmente progressivo, mas de momento não é de todo a nossa vibe, por isso seguimos o instinto e o coração mesmo que isso fuja da marca de imagem inicial de Shadowmare.

 

E há um caso que leva essa ideia ao extremo: o tema-título, Transfiguration, tem apenas 44 segundos. O que vos levou a criar uma faixa tão curta e, sobretudo, a considerá-la suficientemente importante para dar nome ao álbum? 

Sim, 44 segundos eram um solo antigamente de Shadowmare, agora é uma música (risos). A música já andava a ser marinada; depois foi acrescentada aquela espécie de xilofone/kalimba no início e no final. No final de contas, a intenção é mesmo provocar e mostrar que somos mais do que músicas mega compridas com imensos solos. O nome surgiu; não tínhamos nome adequado e acabou mesmo por ficar o do álbum, mais um marco que nunca tinha acontecido em álbuns anteriores, onde nunca houve música intitulada com o mesmo nome do álbum.

  

Em 2025 lançaram 10 Anos de Nós para Vós, uma celebração de uma década de Shadowmare, e logo depois surge um álbum que parece abrir uma nova fase. Conseguem olhar para Transfiguration como o verdadeiro primeiro passo da segunda década da banda?

Sim, sem dúvida, 10 Anos de Nós para Vós é a música que fecha a primeira década como um agradecimento a todos os que fazem parte da família Shadowmariana. Este novo trabalho Transfiguration é o arranque de uma, quem sabe, segunda década.

 

Esse trabalho já dava um passo particularmente significativo ao utilizar o português. Agora, Sacrificar Para Ganhar mantém essa opção dentro do novo álbum. O que mudou na vossa relação com a língua portuguesa?

A letra em português e o cantar da nossa língua têm vindo a crescer imenso no nosso país em todos os estilos e géneros musicais; já não é visto como algo rasca, mas sim como algo com valor e orgulho. O vocalista João Infante trouxe essa perspetiva mais acentuada ainda depois de estar noutro projeto, Against Them All, onde tinha músicas gravadas em português. Cantar na nossa língua é sempre mais fácil para mostrar a mensagem e a emoção. Certamente se o futuro nos sorrir, irá haver mais temas em Tuga.

 

Com esta nova formação, com esta abordagem mais direta e uma música aparentemente mais crua, será interessante perceber como tudo isto funciona ao vivo. Já têm planos para levar Transfiguration aos palcos? E estão a preparar um espetáculo que acompanhe esta nova identidade dos Shadowmare?

Sim, Fatacil 2026 (23 de agosto) será a estreia do nosso álbum e desta nova energia. Não temos dúvidas de que irá contagiar mais gente do que trabalhos anteriores. Temos tido um ótimo feedback ao vivo da Mental Guests, música do segundo álbum onde já estávamos a dar os primeiros passos nesta nova abordagem. Já temos mais outras datas em vista, e esperemos alcançar novos palcos e festivais nacionais. Penso que este álbum dita a mensagem de que temos valor para tocarmos em mais sítios, esperemos que nos oiçam.

 

Para terminar, obrigado por voltarem a conversar connosco. Depois de tantas mudanças e de mais uma transfiguração no vosso percurso, que mensagem gostariam de deixar aos leitores da Via Nocturna 2000 que continuam a acompanhar os Shadowmare e o que podemos esperar daqui para a frente?

Obrigado nós, pelo convite e pelo apoio ao longo da nossa história. A mensagem que queremos deixar é que estamos mais fortes que nunca e queremos mostrar isso ao vivo mais do que em views ou streams. Por isso, ajudem-nos a chegar a mais palcos.


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