Bossa & Bordeaux (KAT GANG)
(2026, NKR Records)
Um pé em Paris, outro no Rio de Janeiro, mas sem ficar
presa a nenhuma das duas margens. É nesse espaço intermédio, onde a chanson
francesa encontra a bossa nova brasileira e ambas se deixam
atravessar pelo jazz, que Kat Gang encontra a matéria-prima para Bossa
& Bordeaux. Depois de um
percurso que inclui formação na Berklee e distinções enquanto vocalista, a
cantora demonstra conhecer bem o terreno que pisa. Aqui, porém, prefere não o
ocupar com material próprio. Ao contrário de Come Closer, onde também
surgiam composições suas, este é um exercício inteiramente dedicado à
interpretação. É uma opção que funciona. Entre ecos de Édith Piaf, António
Carlos Jobim e João Gilberto, Kat Gang evita a tentação de
fazer arqueologia musical e procura antes mudar a perspetiva sobre
canções já muito revisitadas. C'est Si Bon, Sous Le Ciel de Paris,
Só Danço Samba e Água de Beber convivem com escolhas menos
óbvias, como Jardin d'Hiver, de Benjamin Biolay, ou Douce
Ambiance, de Django Reinhardt. Familiaridade e descoberta
equilibram-se com elegância. Bossa & Bordeaux não precisa de
inventar novas canções para encontrar uma voz própria: basta-lhe saber como
respirar dentro das antigas. [88%]
In Concert (ALCANTARA)
(2026, Oskar Records)
Gravado no Zō
Centro Multiculturale, em Catania, In Concert transporta para o palco
o universo dos Alcantara através da interpretação integral de Tamam
Shud, segundo trabalho de estúdio, complementada por alguns temas de Solitaire,
numa seleção que permite perceber a continuidade entre os dois momentos da sua
discografia. A música dos Alcantara vive muito de atmosfera, espaço e
desenvolvimento gradual, e essa natureza encontra aqui um contexto
particularmente adequado. Os vocais, muito tranquilos e envolventes, ajudam a
manter esse estado de suspensão, enquanto os teclados e o violino acrescentam
novas tonalidades ao desenho sonoro. Entre a dimensão espacial dos Pink
Floyd, a densidade progressiva dos Riverside e uma evidente ligação
à escola italiana de prog, os Alcantara encontram uma identidade
própria, reforçada ainda pelo interessante diálogo entre o inglês e o italiano.
No fundo, In Concert funciona como uma extensão natural dos discos de
estúdio. Há aqui espaço para respirar, pequenos desvios e uma maior amplitude
instrumental. Uma experiência sólida e coerente. [83%]
Respira-se a Terra, Não o Mundo (OS VULTOS)
(2026, Spectral
Works)
Depois de termos
percorrido outras faces do universo dos Os Vultos, Respira-se Terra,
Não o Mundo aproxima-se curiosamente do ponto de partida. A intenção era
repetir a fórmula do primeiro EP, Umas Cruzes Pesam Mais Que Outras, com
uma canção e um ou dois instrumentais, mas as sessões de ensaio de junho de
2007 acabaram por ditar outra solução, quando surgiram duas composições não
instrumentais. Alguém/Hamster, Correr, Correr recupera a estratégia de Vultos
IV: primeiro nasce Alguém e, da improvisação sobre essa composição,
surge Hamster, Correr, Correr. Em Árvores, o formato de canção
revela-se particularmente trabalhado, com maior definição e um teor melódico
mais acentuado, antes de mergulhar numa secção central de noise/drone
onde o baixo ganha especial peso através do pounding e scratching.
Sopro, instrumental de teclados inspirado pelo órgão de uma igreja,
encerra o EP num registo em suspensão. Mantendo a componente experimental, há
aqui uma aproximação mais evidente à canção que torna este registo
especialmente apelativo dentro do percurso que a Spectral Works tem
vindo a disponibilizar. [75%]
Os Vultos V – O Conforto da Manada (OS VULTOS)
(2026, Spectral
Works)
Sucesso, fama, poder,
dinheiro, estatuto. A lista poderia servir de mantra para muita gente, mas os Os
Vultos respondem-lhe com um encolher de ombros: nada disso importa se a
música deixar de ser o centro. Os Vultos V – O Conforto da Manada,
gravado em agosto e setembro de 2007, mantém essa postura e prolonga a
identidade construída nos restantes trabalhos onde a experimentação, a dimensão
poética e a ligação às tradições e costumes transmontanos continuam a ocupar
lugar central. Aqui, porém, há um problema que se torna difícil ignorar: os
quatro temas ultrapassam os 13 minutos. E não se trata apenas de duração. Cada
um é, na realidade, formado por duas partes distintas, frequentemente com
relações pouco evidentes entre si, o que torna o desenvolvimento excessivamente
prolongado. Destaque para Oração/Um Mais Um Igual a Um, tema
particularmente incómodo e agreste na primeira metade, antes de encontrar maior
musicalidade na segunda. Apesar disso, há riqueza nas guitarras, baixos,
teclados e texturas, além de uma dimensão conceptual que atravessa o disco. De Bisontes
a galopar a Mãe (Para M.), passando por Cassandra e pela philia
aristotélica, os Os Vultos continuam a recusar o conforto da fórmula. O
resultado é irregular, mas coerente com um percurso que nunca procurou
facilitar a vida ao ouvinte. [72%]
Where Silence Bleeds (EMORIAM)
(2026, Independente)
Dezassete minutos
podem ser suficientes para causar impacto. Para contar uma história, talvez nem
tanto. É precisamente aí que Where Silence Bleeds encontra o seu maior
paradoxo: há uma ideia estética muito clara, uma atmosfera bem definida e um
potencial evidente, mas tudo parece acontecer à velocidade da luz. Emoriam
é o mais recente capítulo criativo de Nuno Romero, músico ligado a Critical
Hazard, Legacy Of Payne, Stone Of Patience e Half Naked
Souls, assumindo aqui o controlo absoluto da criação, da execução
instrumental e da programação da bateria. O resultado traduz-se em seis
pequenas peças de death doom metal cinematográfico e instrumental, como
se fossem pequenos fragmentos de marchas fúnebres que avançam entre sombras,
melancolia e títulos de sugestão poética. A fórmula funciona e revela
personalidade. O problema é precisamente a sua duração: dezassete minutos
deixam estas ideias subdesenvolvidas, impedindo-as de ganhar a dimensão que
parecem prometer. Where Silence Bleeds acaba por ser mais promessa do
que concretização, mas uma promessa interessante. Porque há aqui boas ideias à
espera de mais espaço e de mais tempo. [76%]






Comentários
Enviar um comentário