Quase cinco décadas depois dos primeiros passos dos KAT, Piotr
Luczyk procurou recuperar a energia de uma estreia e encontrou-a numa formação
internacional. Seis anos após The Last Convoy,
Death Is Not Enough dá o mote para uma conversa que vai muito além do
novo álbum. Com convicção e respostas desenvolvidas, Luczyk defende uma música
com identidade, emoção e algo para dizer. E deixa claro que ainda tem muitas
notas por tocar.
Olá, Piotr, bem-vindo a Via Nocturna 2000! Os KAT fazem parte da
cena metal polaca desde 1979, tendo
sobrevivido a mudanças na formação, pausas e diferentes épocas musicais. Com Death
Is Not Enough, sentes que estás a abrir um capítulo verdadeiramente novo ou
a reconectar-te com o espírito original da banda?
Olá! É ótimo ter a
oportunidade de falar contigo. Perguntas se Death Is Not Enough abre um
novo capítulo na história dos KAT. Acho que sim, até certo ponto, mas, ao mesmo
tempo, é um regresso ao espírito da banda de há mais de 40 anos. Para
contextualizar, diria que Death Is Not Enough é para os KAT o que
13 foi para os Black Sabbath ou Hardwired… To Self-Destruct foi
para os Metallica. Claro que não estou a comparar a música em si, mas
sim a ideia de regressar às nossas raízes. Queria recapturar a energia e a
frescura que as bandas têm quando gravam o seu álbum de estreia. Aquele momento
em que os músicos não pensam nas expectativas do mercado, nas tendências ou
mesmo na sua própria história. Simplesmente tocam a música que sentem
verdadeiramente. Paradoxalmente, para conseguir isso, tivemos de mudar a
formação da banda. E é exatamente aí que começa o novo capítulo a que te
referiste. Curiosamente, regressar às nossas raízes exigiu que eu reunisse uma
formação internacional. Músicos de diferentes países, com experiências e
personalidades distintas, juntaram-se pela primeira vez para gravar um álbum. E
isso trouxe exatamente o tipo de energia que eu procurava. De certa forma, o
ciclo fechou-se. Criámos um álbum com o entusiasmo e a frescura de uma estreia,
mas com a experiência que simplesmente não tínhamos há 40 anos. É por isso que,
para mim, Death Is Not Enough é simultaneamente um regresso às origens
dos KAT e o início de um capítulo totalmente novo.
Passaram seis anos desde The Last Convoy. O que aconteceu durante este período e como
se desenvolveu o processo criativo por trás de Death Is Not Enough?
Em primeiro lugar,
mudei-me para outro país. Já vivo fora da Polónia há vários anos, mas isso não
teve qualquer impacto na forma como a música dos KAT é criada. Desde o
nosso primeiro álbum, a grande maioria das canções dos KAT tem sido da
minha autoria, e nada mudou nesse aspeto. Ao longo de toda a história da banda,
além de mim, apenas três músicos contribuíram com composições próprias. Foram
os guitarristas Wojtek Mrowiec e Jacek Regulski e o baixista Harris.
Portanto, se a pergunta é sobre o processo criativo por trás de Death Is Not
Enough, a resposta é muito simples: correu sem problemas, sem grandes
dificuldades. A música dos KAT sempre tomou forma principalmente na
minha cabeça, e desta vez não foi diferente.
Receberam dois músicos brasileiros, o vocalista Guilherme de
Siervi e o baterista Pedro Tinello. Como é que eles se envolveram? Que
influência tiveram na direção musical do álbum?
Em primeiro lugar,
gostaria de acrescentar mais um músico aos nossos colegas brasileiros: o Sieg,
um vocalista da Coreia do Sul. Ele é tão essencial para o novo álbum como
qualquer outro músico envolvido. Quanto ao seu envolvimento e influência na
música, diria o seguinte: para mim, o valor da contribuição de um músico para
um álbum é determinado principalmente pela qualidade e pelo nível da sua
interpretação. E, nesse aspeto, cada um deles esteve ao mais alto nível. Cada
músico gravou as suas partes ainda melhor do que eu esperava. Cada nova faixa
vocal trouxe nova vida, emoção e personalidade às composições. Mas foi a
incrível bateria de Pedro Tinello que, por fim, uniu todos estes
elementos num todo coeso, enquanto Harris lançou uma base sólida com o
seu baixo. Foram a individualidade e as competências destes músicos que deram
às composições a sua forma e carácter finais. Portanto, não se tratou de mudar
a direção musical dos KAT, mas sim de realçar o que há de melhor nestas
canções.
O álbum reúne músicos da Polónia e do Brasil, com contribuições
líricas do escritor norte-americano Jason M. Stallworth. Como é que uma
colaboração tão internacional funciona na prática e quais são os seus maiores
desafios criativos?
Não é fácil, mas tudo
depende das pessoas com quem se trabalha. Todos têm de estar a avançar na mesma
direção e partilhar um objetivo comum. E esse objetivo é alcançar a mais alta
qualidade possível na música que estamos a gravar juntos. Para o conseguir, os
músicos têm de estar plenamente conscientes não só do que devem tocar, mas
também do que não devem tocar. E não estou a falar das minhas sugestões ou
exigências enquanto compositor. Trata-se de algo muito mais importante: a
maturidade musical. Um músico maduro não perde tempo a exibir truques técnicos
ou a tentar provar aos outros o quão bom é. Em vez disso, dedica toda a sua
criatividade, competências e energia a criar uma parte que se torne um elemento
integrante e perfeitamente adequado à composição. Por outras palavras, cada
instrumento tem o seu lugar. Há momentos em que deve passar para o primeiro
plano, mas há também momentos em que precisa de recuar e dar espaço aos outros.
Tocar numa banda não é uma competição para ver quem consegue tocar mais depressa,
mais alto ou de forma mais impressionante. Em teoria, isto parece muito
simples, mas, na prática, pode ser incrivelmente difícil, especialmente quando
se trabalha com músicos determinados a provar o seu estatuto ou a demonstrar a
sua superioridade a qualquer custo. Felizmente, no nosso caso, não houve o mais
pequeno problema com esse tipo de ego. Ninguém tinha nada a provar a ninguém.
Todos os músicos envolvidos na gravação de Death Is Not Enough não são
apenas instrumentistas ou vocalistas excecionais, mas, acima de tudo, músicos
plenamente conscientes e maduros. E é exatamente por isso que, apesar das
distâncias entre nós, das nossas diferentes nacionalidades e das nossas
diferentes experiências, fomos capazes de criar um álbum que soa como o
trabalho de uma única banda, em vez de uma coleção de atuações individuais
destinadas a exibir-se.
Guilherme traz um registo vocal impressionante, alternando entre
passagens agressivas e interpretações mais melódicas e emocionais. A sua
chegada alterou a forma como compões as canções, em particular as melodias
vocais?
Não. Todas as canções já
tinham sido compostas antes de o Guilherme receber as primeiras demos.
No entanto, trabalhar com ele fez-me perceber que não terei de limitar a minha
imaginação ao compor melodias vocais no futuro. O mesmo se aplica ao Sieg,
que cantou em Soulless Liar. Ambos têm capacidades vocais
extraordinárias, mas o que mais me importa é outra coisa. Cada um deles colocou
a sua própria alma, emoções e personalidade nas canções que interpretou,
conseguindo ao mesmo tempo harmonizar as suas vozes na perfeição com os
instrumentos. E é exatamente isso que significa fazer parte de uma banda. Ter
músicos excecionais não é suficiente. Uma verdadeira banda só surge quando as
suas competências individuais e emoções se unem para formar um todo coeso.
Death Is
Not Enough oscila entre o heavy metal tradicional dos anos 80 e uma
abordagem thrash mais suja e agressiva. Esta diversidade é algo que
procuras deliberadamente ou surge naturalmente durante a composição?
Acho que esta diversidade surge de forma totalmente
natural para mim. Quando componho, não penso a que género musical uma
determinada canção irá pertencer. Se uma composição for boa e nós gostarmos
dela, simplesmente fica no álbum. Curiosamente, todos os álbuns dos KAT são
diferentes, mas sinto-me igualmente à vontade com todos os estilos de metal que
se podem ouvir nos nossos discos. Para mim, a composição em si sempre foi o
mais importante, enquanto atribuir-lhe um rótulo de género específico é
secundário. Deixa-me dar-te um exemplo. Durante a gravação de Death Is Not
Enough, pedi ao Pedro para incorporar elementos
inspirados na música tradicional brasileira na sua bateria em certas secções. E
é possível ouvi-los, se prestares atenção. Gosto muito de combinar
diferentes influências musicais desta forma, porque confere à música um
carácter único e faz com que pareça mais viva e autêntica. É aí que a música
ganha verdadeiramente vida, em vez de ser simplesmente tocada corretamente.
O teu trabalho na guitarra é um dos pontos fortes do álbum,
especialmente os solos e a interação entre os riffs e as melodias. Depois de tantas décadas, como é que
continuas a desafiar-te a ti próprio como guitarrista?
Para simplificar, ainda
não toquei tudo o que quero tocar. Tenho os meus heróis da guitarra e tenho de
admitir que ainda há muitas notas por tocar antes de ficar satisfeito. Quanto
ao meu estilo, sempre fui fascinado por guitarristas que tocam com um forte
sentido melódico. Foram eles que moldaram a minha forma de pensar sobre a
guitarra. Para mim, a melodia é uma forma de expressão. É possível dizer muito
mais com apenas algumas notas cuidadosamente escolhidas do que com centenas de
notas tocadas a uma velocidade de tirar o fôlego. Mas mesmo a melodia mais
bonita precisa do apoio certo dos outros instrumentos. Só assim é que ganha o
seu verdadeiro significado e profundidade emocional. Vejo muitos
guitarristas excecionais no YouTube. As suas capacidades técnicas podem
ser absolutamente incríveis. Conseguem tocar coisas que teriam parecido
impossíveis há apenas algumas décadas. Mas há aqui um certo paradoxo: no fim de
contas, são os AC/DC que atraem 100 000 pessoas aos seus concertos para ouvir rock
‘n’ roll que não é particularmente complicado do ponto de vista técnico.
Mas com os AC/DC, consegue-se sentir o coração e a alma na música, e é isso que
importa. Isso mostra que a técnica, por si só, não basta. O que mais
importa é se se consegue dar ao ouvinte algo de que se lembre e que possa
cantarolar. É por isso que acredito que um guitarrista pode continuar a colocar
novos desafios a si próprio ao longo de toda a sua vida.
O álbum tem um som cru e direto que deliberadamente evita a
produção polida frequentemente ouvida no metal moderno. Achas que a obsessão
atual pela perfeição técnica retirou parte da personalidade do heavy metal?
Sem dúvida. As bandas dos
anos 80 e 90 eram quase instantaneamente reconhecíveis pelo seu som, pelo
caráter das suas composições, pela voz do vocalista ou pelo estilo dos seus
solos de guitarra. Cada uma delas tinha a sua própria identidade musical, algo
que as distinguia de todas as outras. Hoje em dia, essa individualidade está a
desaparecer. Poderia montar um medley de músicas de cinco ou até dez
bandas modernas, e suspeito que muitos ouvintes nem sequer perceberiam que
estavam a ouvir vários artistas diferentes. Todos estão a usar processadores
semelhantes, os mesmos sons e configurações. Os guitarristas estão a aprender
técnicas, escalas e padrões semelhantes, esforçando-se constantemente por
alcançar maior precisão e velocidade. Como resultado, a música está a tornar-se
quase tecnicamente perfeita, mas muitas vezes perde algo muito mais importante:
o seu próprio carácter. E isto leva-me de volta ao que estava a dizer
anteriormente. Pode-se tocar milhares de notas a uma velocidade incrível, mas
será que alguém conseguiu criar um solo de guitarra que evoque as mesmas
emoções que a interpretação de David Gilmour em Shine On You Crazy
Diamond? Para mim, essa é exatamente a diferença entre a perfeição técnica
e a verdadeira personalidade musical. A tecnologia pode ser utilizada para
alcançar um som quase impecável, mas nenhuma tecnologia poderá jamais
substituir a imaginação, as emoções e o estilo individual de um músico.
Os KAT ajudaram a consolidar o heavy metal na Polónia numa altura em que as circunstâncias
políticas e culturais do país eram muito diferentes. Olhando para a cena metal
polaca atual, o que é que melhorou e o que achas que se perdeu pelo caminho?
Na Polónia, o acesso a
instrumentos, amplificadores e equipamento musical profissional melhorou
definitivamente. Graças à Internet, toda a gente tem agora acesso
praticamente ilimitado à música de todo o mundo. E, na minha opinião, é
basicamente aí que termina a lista das principais melhorias. Se olharmos para a
cena musical polaca de uma perspetiva mais ampla e internacional, é difícil não
notar que a Polónia não conseguiu produzir estrelas globais do metal à
mesma escala que, por exemplo, a Suécia. Basta olhar para a cena sueca: Europe, Ghost,
Sabaton, Amon Amarth, In Flames, Opeth, Meshuggah,
Arch Enemy, HammerFall ou Yngwie Malmsteen. Estes
são artistas que construíram a sua reputação muito para além das fronteiras do
seu país, e muitos deles alcançaram um enorme sucesso comercial. Há uma razão
pela qual estou a referir especificamente a Suécia. Por volta de meados da
década de 1990, a cena de metal sueca começou a estabelecer uma posição
cada vez mais forte a nível mundial. Entretanto, a Polónia já tinha lançado
muitos álbuns que ainda hoje são considerados entre as conquistas mais
importantes da história do metal polaco. Tínhamos a música, as bandas e
a nossa própria história, mas não conseguimos transformar esse potencial num
sucesso internacional comparável. Para ilustrar a dimensão desta diferença,
basta olhar para os Sabaton. De acordo com a publicação especializada Pollstar,
foram vendidos mais de 250 000 bilhetes para 22 espetáculos da sua digressão de
2025, The Legendary Tour. Isso representa uma média de mais de 11 360
pessoas por espetáculo. Não conheço nenhuma banda de metal polaca que
consiga atingir consistentemente números comparáveis em digressões
internacionais. E é exatamente aí que vejo o maior problema. Ao longo das
últimas décadas, melhorámos as condições técnicas, o acesso ao equipamento e as
possibilidades de gravação, mas não conseguimos desenvolver um sistema
igualmente eficaz para construir a visibilidade internacional dos artistas
polacos. Portanto, se me perguntarem o que perdemos pelo caminho, diria que,
acima de tudo, perdemos uma oportunidade tremenda de tirar o máximo partido do
potencial que a cena de metal polaca já possuía há várias décadas. É
claro que tenho as minhas próprias opiniões sobre as razões por trás desta
situação, mas isso é assunto para uma conversa totalmente diferente.
Após quase cinco décadas, incluindo vários períodos de
inatividade, Death Is Not Enough soa
notavelmente enérgico e ambicioso. Na tua opinião, é um dos álbuns mais fortes
dos KAT? O que é que ainda o motiva a manter a banda a avançar?
Sim. Estou convencido de
que Death Is Not Enough ocupará o seu lugar entre os álbuns mais
importantes da discografia dos KAT. No entanto, acredito que este álbum,
tal como Without Looking Back, será recebido de forma diferente a nível
internacional do que na Polónia. Isto tem a ver com certos aspetos da
mentalidade nacional polaca, mas não vou preocupar-me com isso. Há coisas que
simplesmente não podemos mudar. Quando olho para trás, para a história dos KAT,
noto um certo padrão. Praticamente nenhum dos nossos álbuns recebeu o
reconhecimento que merecia nos primeiros cinco anos após o seu lançamento. Na
Polónia, a verdadeira apreciação pela nossa música só surgiu, normalmente,
cerca de vinte anos depois. Isso é uma geração inteira. É por isso que aprendi
a não dar atenção às reações ou críticas vindas da Polónia. O tempo é um juiz
muito melhor do que as opiniões formadas no calor do momento. O que me mantém
motivado? Acima de tudo, o facto de ainda ter a paixão e o desejo de criar e de
ainda ter algo a dizer através da música. Não estou interessado em gravar novos
álbuns apenas para dar alguns concertos. Se criar um novo álbum, quero que ele
contribua com algo significativo para a história dos KAT.
Com uma formação renovada e um novo álbum tão poderoso, quais
são os teus planos para levar Death Is Not
Enough para palco? Podemos esperar uma digressão internacional e como vais
equilibrar o material novo com os clássicos dos KAT?
Como provavelmente sabes,
organizar uma digressão internacional de concertos é um grande desafio
logístico e financeiro. Especialmente quando os membros da banda vivem em
vários continentes diferentes! Mas nunca digo «nunca». Por isso, não estou, de
forma alguma, a descartar essa possibilidade. O tempo dirá o que o futuro nos
reserva.
Piotr, obrigado pelo teu tempo e por partilhares as tuas
reflexões com Via Nocturna 2000. Antes de terminarmos, o que gostarias de dizer
aos nossos leitores, em particular àqueles que acompanham os KAT há décadas e
àqueles que estão a descobrir a banda pela primeira vez?
Obrigado! Muito obrigado
também, Pedro. Em nome de toda a banda, gostaria de enviar os meus melhores
cumprimentos a ti, Pedro Carvalho, e a toda a equipa da VIA NOCTURNA. Obrigado
pelas tuas perguntas muito interessantes e perspicazes, que refletem claramente
o teu profundo conhecimento musical.





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