Algumas canções precisam de esperar até que o seu autor esteja
pronto para as terminar. Foi assim com [humanised], que reúne ideias guardadas ao longo de anos e
levou Kristoffer Gildenlöw a explorar novas técnicas, sons e formas de
trabalhar. Dois anos depois da nossa conversa sobre Empty, voltamos a
encontrá-lo empenhado em alargar os horizontes da sua música a solo. Desta vez,
o olhar demora-se nos padrões e contradições do comportamento humano. Entre os
desafios da produção e a liberdade de mudar de direção, falámos de um álbum que
nos convida a olhar para o espelho e a tirar as nossas próprias conclusões.
Olá,
Kristoffer! Em primeiro lugar, bem-vindo de volta a Via Nocturna. Já
passaram dois anos desde a nossa última conversa, por altura do lançamento de Empty. Olhando para
trás, para esse período, como achas que evoluíste, tanto como músico como
compositor, e o que te levou a criar [humanised]?
Estou constantemente a escrever ideias e música em
diferentes géneros e direções. Tento manter cada álbum como um todo, em termos
musicais. Com uma certa variação no som e na sensação, as canções têm de se
encaixar umas nas outras e as canções e ideias que não se encaixam ficam
guardadas para mais tarde. E «mais tarde» pode ser «o próximo álbum», «daqui a
10 anos» ou… «nunca». Tudo depende do que eu quiser fazer a seguir e do que
decidir quando chegar lá. [humanised] é uma coleção de canções e ideias
nas quais tenho vindo a trabalhar há vários anos, mas que nunca pareciam
encaixar nos conceitos ou para as quais eu, pessoalmente, não estava pronto
para as concluir ou gravar. Agora era a altura certa. Era também o momento de
elevar a fasquia para mim próprio como músico, como cantor e como produtor.
Tive de mergulhar a fundo em diferentes técnicas de execução, técnicas de
produção e sons para concretizar as ideias que tinha na minha cabeça. Custou-me
muito tempo e energia, mas valeu a pena. Assim, nesse sentido, cresci bastante
como músico e produtor e aprendi muito simplesmente ao perseguir as ideias de
determinados sons e de produção.
Os teus álbuns estão
frequentemente ligados por temas abrangentes, em vez das narrativas
tradicionais dos álbuns-conceito. Qual foi a ideia central por trás de [humanised] e que
aspetos do comportamento humano moderno te interessaram mais explorar através
destas canções?
Adoro observar o que acontece. Sou mais um observador
do que alguém que participa. Os seres humanos são, de longe, as coisas mais
interessantes deste planeta. Não só estão em todo o lado e são fáceis de
estudar (em comparação com um buraco negro algures no universo), como também
somos surpreendentemente fáceis de acompanhar e prever, se aprendermos a
identificar os padrões e a distinguir as forças motrizes. E são esses padrões e
forças motrizes que nos tornam humanos. Então, o que é que isso significa? Ser
humano? Ser um «escravo» desses padrões e forças motrizes? Como é que nos vemos
a nós próprios? Como é que algo virtualmente objetivo, como a IA, veria os
seres humanos? Qual é a definição de ser humano? Quando é que se começa e
quando é que se deixa de ser humano? Por que razão um ser humano teria «mais
valor» do que outro… com base no seu QI, ações, educação, estatuto herdado,
emprego, condição física e mental…? Ainda existe algo como a «sobrevivência do
mais apto» entre os seres humanos e na sociedade humana? Por que razão temos,
afinal, uma sociedade? Agora podem aprofundar-se nestas questões, tentar
respondê-las de forma filosófica e discuti-las entre amigos. A minha intenção
com este álbum é apenas a sensibilização. Não estou a apontar o dedo a ninguém
nem a dizer a ninguém como deve viver a sua vida ou ser humano… Simplesmente,
mostro um espelho a quem estiver interessado em vislumbrar este mundo e, com
essa consciência, escolher o seu próprio caminho.
Tendo produzido,
misturado e arranjado o álbum sozinho, quão importante é manter o controlo
criativo total sobre a tua música e de que forma é que isso influencia o
resultado final?
Muito importante; caso contrário, teria formado uma
banda. Desta forma, posso levar as ideias que tenho na cabeça até ao fim, sem
compromissos nem discussões sobre as opiniões de outras pessoas. Agora, isto
não significa que não peça feedback, tanto na composição como na
produção, e estou sempre muito grato às pessoas que estão dispostas a
ajudar-me.
A colaboração sempre
foi um aspeto importante do teu trabalho a solo. Desta vez, contaste com o Leo
Margarit na bateria, o Daniel Magdič para um solo convidado em Landfill e o Thijmen
van der Meer em The Fields. O que é que cada um destes músicos
contribuiu para o álbum que achaste que não teria sido possível alcançar de
outra forma?
O Leo foi o primeiro a quem pedi. Sabendo que
precisava de um baterista muito bom para este álbum (alguém capaz de tocar
tanto metal progressivo complexo como ritmos groovy e dinâmicas jazzísticas),
o Leo estava no topo da minha lista. Nunca tocámos juntos nos Pain Of
Salvation, mas já tocámos em vários álbuns ao longo dos anos e sempre
mantivemos um bom contacto. Gravei todas as guitarras sozinho para este álbum,
mas sabia que precisava de alguém para assumir estes dois solos. Eu próprio não
sou um shredder e precisava de alguém que fosse um guitarrista de prog
metal nato. Sempre apreciei a forma como o Daniel toca guitarra e a sua
abordagem ao instrumento.
Olhando para a tua
discografia a solo, desde Rust até [humanised], há uma clara
recusa em repetir-te de um álbum para o outro. Trata-se de uma filosofia
artística consciente, ou cada álbum surge simplesmente de forma natural a
partir do ponto em que te encontras num determinado momento da vida?
Não é uma escolha consciente como estratégia ou algo
do género, mas sim mais um sentimento. Tenho algo dentro de mim que «preciso de
libertar» e, assim que isso sai, há outra coisa que «precisa de sair». Eu
próprio ficaria muito aborrecido se continuasse a fazer o mesmo álbum vezes sem
conta. Preciso de explorar coisas novas e de me transformar. E isso é também
uma das grandes vantagens de fazer isto a solo. Não tenho nenhuma banda à minha
volta com instrumentos específicos ou qualidades pessoais definidas, mas posso
escolher o que e quem precisar para levar a minha música em qualquer direção
específica.
O [humanised] é ser um
álbum que se poderia traduzir numa experiência ao vivo muito poderosa. Tens
planos para levar estas canções para o palco e como imaginas recriar um álbum
tão dinâmico e complexo num contexto de concerto?
Já fizemos alguns concertos de lançamento nos Países
Baixos e correu muito bem. Temos alguns concertos em festivais agendados, mas é
difícil conseguir atuações hoje em dia. É difícil encontrar agentes ou outras
bandas com quem fazer uma digressão.
Por fim, obrigado pelo
teu tempo e por partilhares as tuas ideias connosco mais uma vez. Há alguma
mensagem que gostasses de deixar aos nossos leitores e a todos aqueles que irão
descobrir o [humanised] nos próximos meses?
Só espero que as pessoas gostem do álbum e apreciem o
facto de ser diferente dos álbuns anteriores, o que me deu a liberdade criativa
para pintar numa tela grande e explorar diferentes estilos, texturas e técnicas
à medida que vou avançando, e espero que se juntem a mim nesta viagem.



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