Entrevista: Manuel Linhares

 


Desde a nossa conversa em 2022, por ocasião de Suspenso, Manuel Linhares mudou-se para Nova Iorque e abriu mais espaço ao imprevisto na sua música. Atlântico, o seu quarto álbum, reflete essa transformação. De regresso a Via Nocturna 2000, o cantor e compositor fala da liberdade descoberta na improvisação, numa conversa sobre escuta, risco e a procura de uma linguagem cada vez mais pessoal.

 

Olá, Manuel, bem-vindo de volta a Via Nocturna 2000! Quando conversámos em 2022, estavas a apresentar Suspenso. O que mudou na tua vida e na tua música até chegares a Atlântico?

Mudou muita coisa. Há mais música, naturalmente, mas também mais maturidade e, sobretudo, mais vivências. Há três anos mudei-me para Nova Iorque, e essa mudança teve um impacto muito grande na minha vida, tanto pessoal como artística. É uma cidade que nos desafia constantemente, que nos obriga a sair da nossa zona de conforto e nos coloca em contacto com pessoas, ideias e formas de pensar muito diferentes. Acho que Atlântico reflete precisamente esse acumular de experiências. Não é apenas o resultado de um percurso musical, mas também de tudo aquilo que fui vivendo, das mudanças, das perguntas que foram surgindo e da forma como me fui transformando. Sinto que, com o tempo, vou encontrando uma linguagem cada vez mais minha, não necessariamente porque tenha todas as respostas, mas porque tenho cada vez mais coisas que preciso de expressar.

 

Depois de viveres nos Açores e no Porto, radicaste-te em Nova Iorque. O que mudou na tua forma de compor e cantar quando a cidade deixou de ser apenas uma influência e passou a ser o teu quotidiano?

Viver em Nova Iorque é estar constantemente exposto à criatividade. É um verdadeiro melting pot de artistas, não apenas músicos, mas também artistas plásticos, atores, bailarinos e pessoas de tantas outras áreas. Existe uma energia muito particular, uma vontade permanente de experimentar e de fazer coisas acontecer. Estar nesse ambiente acaba inevitavelmente por influenciar a forma como pensamos e criamos. Ao mesmo tempo, Nova Iorque é uma cidade de contrastes enormes. Há uma riqueza cultural extraordinária, mas também desigualdades sociais muito evidentes, realidades que coexistem lado a lado e extremos que nem sempre são fáceis de ignorar. Essa convivência com tantas diferenças obriga-nos a olhar para o mundo de outra maneira. Acho que tudo isso me trouxe mais liberdade e frescura, tanto na composição como na interpretação. Tenho explorado cada vez mais a improvisação e a possibilidade de não saber exatamente onde a música me vai levar. Nova Iorque ensinou-me muito nesse sentido: a confiar no momento, a estar mais disponível para o inesperado e a perceber que, por vezes, é precisamente aí que acontecem as coisas mais interessantes.

 

De Traces Of Cities e Boundaries a Suspenso, tens procurado uma linguagem cada vez mais tua. Que possibilidade encontraste em Atlântico que ainda não tinhas conseguido explorar nos discos anteriores?

Penso que cada álbum é um retrato de quem somos num determinado momento. Os meus quatro discos são, de certa forma, um espelho do meu percurso enquanto cantor e compositor, das experiências que vivi e das questões que me interessavam em cada fase. Em Atlântico, sinto que a improvisação ganhou um espaço ainda maior. Tenho vindo a explorá-la cada vez mais, tanto no trabalho vocal como na performance ao vivo, e Nova Iorque tem sido um contexto muito fértil para isso. O contacto com músicos extraordinários, que estão muito disponíveis para experimentar e correr riscos, tem-me permitido descobrir outras possibilidades. Neste álbum, isso aparece de forma muito explícita através de dois temas completamente improvisados: Beyond The Atlas Improvisation e Behind The Atlas Improvisation. São momentos em que não existe uma composição prévia a orientar a música. Existe apenas um ponto de partida, a escuta e a relação entre os músicos naquele instante. Foi uma dimensão que ainda não tinha explorado desta forma nos discos anteriores e que me parece muito representativa de onde estou artisticamente.

 

Beyond The Atlas Improvisation surge a meio do álbum e Behind The Atlas Improvisation encerra-o. O que quiseste abrir com a primeira improvisação e deixar por resolver com a última?

Vejo esses dois temas como dois momentos de respiração e, de certa forma, como vislumbres de esperança no meio do álbum. Atlântico aborda tensões que atravessam o mundo contemporâneo: a guerra, a destruição, as desigualdades, a liberdade e as contradições da sociedade em que vivemos. São questões que ultrapassam fronteiras e que, de alguma forma, acabam por nos tocar a todos. No meio de tudo isso, senti necessidade de criar espaços onde a música pudesse existir sem palavras, sem uma mensagem definida e sem a obrigação de chegar a uma conclusão. A improvisação permite precisamente isso: abrir uma porta para o desconhecido, deixar que algo aconteça sem saber antecipadamente qual será o resultado. A primeira improvisação abre esse espaço, e a última deixa-o continuar a ressoar. Não diria que há algo por resolver no sentido de uma resposta em falta. Pelo contrário, gosto da ideia de terminar o disco sem fechar completamente o sentido daquilo que ouvimos. E assim, Behind The Atlas Improvisation termina o álbum com esse desejo de esperança. Não uma esperança ingénua, que ignora os problemas do mundo, mas a possibilidade de continuarmos a procurar, a criar e a imaginar outras formas de estar nele.

 

De alguma forma trazes a canção para o jazz. O que uma composição precisa preservar para continuar a ser uma canção, mesmo quando dás aos músicos liberdade para a transformar?

Para mim, a palavra tem um papel fundamental e acrescenta uma dimensão muito particular à música. Sinto que, quando a palavra encontra a música certa, as duas podem levar-se mutuamente para lugares que talvez não alcançassem sozinhas. Isto não significa que a música instrumental não consiga contar histórias ou transmitir ideias profundas. Pelo contrário. Mas, no meu caso, a palavra é muitas vezes uma forma de dar corpo a algo que preciso de expressar. Depois, há uma grande liberdade na forma como essa canção pode ser interpretada. A composição não tem de ser uma estrutura fechada; pode ser um território onde os músicos encontram espaço para interagir, improvisar e trazer a sua própria identidade. A dimensão interventiva também está muito presente na minha música, porque não consigo ser indiferente ao que me rodeia. Aquilo que acontece no mundo, as injustiças, as relações humanas e as questões que nos atravessam acabam por entrar naquilo que escrevo. Não procuro necessariamente dar respostas, mas gosto da possibilidade de a música levantar perguntas e abrir espaço para a reflexão.

 

Cantas em português e em inglês. A língua muda apenas a forma como escreves ou também altera a voz que encontras para interpretar cada tema?

Sem dúvida. A fonética do inglês é bastante diferente da do português, e isso altera a forma como a palavra se encaixa na música, o ritmo da frase e até a maneira como usamos a voz. Escrevo e penso nas duas línguas, por isso, por vezes, uma canção surge naturalmente em português e, noutras ocasiões, em inglês. Curiosamente, sinto alguma facilidade em escrever em inglês, enquanto o português me coloca desafios diferentes. É uma língua foneticamente mais complexa, com uma acentuação e um ritmo muito próprios, e isso torna a escrita melódica particularmente interessante. Talvez seja precisamente por isso que tenho procurado escrever cada vez mais em português. Gosto desse desafio de encontrar melodias que respeitem a musicalidade da língua sem perderem a liberdade e a espontaneidade da composição. Ao mesmo tempo, tenho sentido que o público internacional aprecia muito ouvir-me cantar em português, mesmo quando não compreende. Há qualquer coisa na sonoridade da língua que comunica para além do significado literal. Mas também gosto de ter temas em inglês, como Holding Arms, porque aí existe uma ligação mais direta à palavra e à mensagem, que o público pode compreender de imediato.

 

No disco cruzam-se os Açores, Portugal continental, o Brasil e Nova Iorque. Como evitaste que essas influências fossem apenas uma coleção de referências e as tornaste parte da mesma música?

Acho que isso acontece de uma forma bastante natural. Não me sento a compor com a intenção de juntar influências de determinados lugares ou de criar uma mistura de estilos. Essas referências fazem parte da minha bagagem e daquilo que fui ouvindo, estudando e vivendo ao longo dos anos. Muitas vezes, só depois de a música estar composta é que consigo identificar de onde vêm determinadas influências. Uma certa melodia pode ter uma relação com a música portuguesa, um ritmo pode trazer algo da música brasileira e a forma como os músicos interagem pode estar muito ligada à experiência do jazz em Nova Iorque. Mas, no momento da criação, essas coisas já estão misturadas dentro de mim. É como a linguagem de qualquer pessoa: é feita de tudo aquilo que absorvemos ao longo da vida, mesmo quando não temos consciência disso. Não quero que Atlântico soe a uma coleção de referências geográficas. Quero que soe à minha música, à forma como essas experiências se cruzaram e passaram a fazer parte de quem sou.

 

O piano de Glenn Zaleski é um ponto de apoio essencial no álbum. Que espaço lhe deixaste na composição e quanto do que ouvimos nasceu da interação entre vocês em estúdio?

O Glenn é um pianista extraordinário. Lembro-me de o ouvir tocar com a saxofonista Melissa Aldana e de sentir imediatamente vontade de o convidar para tocar comigo. Há músicos que têm uma forma muito particular de ouvir e de responder à música, e foi isso que me chamou a atenção nele. Neste álbum, o seu contributo foi muito importante. Nas composições escritas, existe naturalmente uma estrutura e uma intenção musical que ele respeita, mas fá-lo sempre com a sua identidade, trazendo ideias, cores e uma sensibilidade muito próprias. Depois, há os dois temas completamente improvisados que gravei em duo com ele. Aí, a liberdade foi total. Não havia uma composição prévia, uma sequência de acordes ou uma estrutura que tivéssemos de seguir. Era simplesmente um diálogo entre a voz e o piano, construído a partir da escuta e daquilo que ia acontecendo naquele momento. Adorei esse processo porque exige uma disponibilidade enorme. Temos de estar atentos ao outro, mas também ao que está a acontecer dentro de nós, sem tentar controlar demasiado o resultado. Acho que esses dois temas mostram uma dimensão muito íntima da relação entre nós enquanto músicos.

 

A influência brasileira nota-se preferencialmente na percussão de Atlântico. Como trabalhaste esses ritmos?

Tenho um fascínio enorme pela música brasileira, por compositores como Guinga, Milton Nascimento e Caetano Veloso, entre muitos outros. É uma música com uma riqueza melódica, harmónica e rítmica extraordinária, que me acompanha há muitos anos e que, naturalmente, acabou por influenciar a minha própria linguagem. Mas há uma pessoa fundamental para perceber essa dimensão de Atlântico: António Loureiro, o produtor do álbum. Para além de ser um músico e multi-instrumentista extraordinário, é brasileiro e trouxe para o disco uma sensibilidade muito própria, tanto na produção como nos arranjos. Trabalhámos muito de perto na construção dessa sonoridade, procurando uma relação natural entre o jazz, os grooves e as texturas percussivas. A escolha do Keita Ogawa também foi essencial. É um percussionista extraordinário, com uma linguagem rítmica muito rica e uma capacidade incrível de se adaptar a diferentes universos musicais. O que me interessava não era simplesmente acrescentar ritmos brasileiros a composições de jazz, mas encontrar uma forma dessas influências fazerem parte da música desde dentro, contribuindo para a sua identidade e para a forma como ela respira.

 

Em O Que Diz A Minha Voz, a pergunta vai além do canto. Hoje, depois de quatro álbuns e de tantas mudanças de lugar, o que te diz a tua voz?

Essa canção tem uma dimensão muito pessoal, porque parte também de uma experiência concreta em que perdi a voz e tive de confrontar a possibilidade de não poder contar com aquilo que sempre foi o meu principal instrumento de expressão. Quando a voz faz parte da nossa identidade e daquilo que fazemos todos os dias, perceber que ela pode falhar é algo que nos obriga a olhar para nós próprios de outra maneira. Fez-me pensar não só na voz enquanto instrumento, mas também naquilo que precisamos de expressar e na importância de encontrar formas de o fazer. Para mim, cantar é muito mais do que produzir som. É o corpo a transformar-se em som, mas é também uma maneira de trazer à superfície coisas que vêm de um lugar muito profundo, quase como uma purga. Hoje, acho que a minha voz me pede sobretudo honestidade: que continue a procurar, a escutar e a não ter medo de me expor. Ao fim de quatro álbuns, continuo a descobrir coisas sobre ela e sobre mim próprio. E talvez seja precisamente isso que mantém esta relação tão viva.

 

Já apresentaste Atlântico ao vivo em Nova Iorque. Como queres levar agora estas canções ao palco? Há mais concertos previstos, nomeadamente em Portugal?

O primeiro concerto de apresentação aconteceu a 9 de junho, no Shapeshifter Lab, em Brooklyn, Nova Iorque, e foi muito especial poder levar esta música ao palco pela primeira vez, sobretudo numa cidade que tem sido tão importante para a construção do álbum. Agora, o disco continua a viajar. No dia 7 de novembro vamos apresentá-lo no Cairo Jazz Festival, no Egito. Estou extremamente entusiasmado com este concerto e festival. Para o início do próximo ano, estamos a preparar concertos em Portugal. Estou prestes a poder anunciar algumas datas e há boas surpresas a caminho. Quero muito que o disco tenha uma vida longa em palco, porque é aí que a música continua a transformar-se e a ganhar novas possibilidades.

 

Que peso tem para ti ver Atlântico em consideração para os GRAMMYs, ainda antes de existirem nomeações?

É, acima de tudo, uma grande honra. Ver Atlântico em consideração para os GRAMMYs®, em três categorias, é um reconhecimento muito significativo de um trabalho que foi feito com muita dedicação e com uma enorme vontade de encontrar uma linguagem própria. É importante dizer que estar em consideração não significa ter uma nomeação. É uma etapa diferente, mas que já representa uma oportunidade de o álbum chegar a outras pessoas e de ser ouvido num contexto internacional muito abrangente. Este disco foi construído entre Portugal e Nova Iorque, com músicos de diferentes percursos e sensibilidades, e tem sido muito gratificante perceber que continua a encontrar ouvintes e a despertar interesse em diferentes países. Independentemente do que vier a acontecer, fico muito feliz por este trabalho poder circular, ser escutado e representar, à sua maneira, uma parte da música portuguesa contemporânea.

 

Manuel, obrigado por voltares a Via Nocturna 2000. Para terminarmos, que mensagem gostarias de deixar aos nossos leitores e a quem ainda está prestes a descobrir Atlântico?

Gostava de deixar um convite para que as pessoas continuem a ouvir música com tempo e curiosidade, e para que apoiem os artistas de que gostam. O streaming mudou profundamente a forma como descobrimos e consumimos música, mas a música continua a ter uma importância enorme na nossa vida, na forma como nos relacionamos com os outros e como compreendemos o mundo. Ouçam os álbuns, vão aos concertos, comprem música quando puderem e partilhem aquilo que vos toca. Para quem cria, saber que existe alguém do outro lado a ouvir com atenção faz toda a diferença. E, naturalmente, convido-vos a descobrir Atlântico. É um disco feito de lugares, pessoas, memórias e perguntas, mas não é preciso conhecer a minha história para entrar nele. Cada pessoa encontrará certamente as suas próprias ligações e interpretações. Muito obrigado à Via Nocturna 2000 pelo convite e a todos os que continuam a acompanhar e a apoiar a música.

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