Nasceu
com a intenção de juntar vários músicos, mas acabou por se tornar um espaço
inteiramente pessoal. Criado por Renato Henriques, guitarrista dos Cronaxia, o
projeto Saccaya encontrou na
liberdade de trabalhar a solo a forma de cruzar música, fotografia e crenças
pessoais. Em Via Negativa, esse
percurso ganha expressão em composições essencialmente instrumentais. Nesta
conversa, Renato explica como transforma ideias em ambientes sonoros, por que
decidiu revelar os primeiros esboços das músicas e o que significa criar um
disco que pede tempo para parar e ouvir.
Olá, Renato, bem-vindo
a Via Nocturna! Saccaya nasceu em 2015 como um espaço de expressão espontânea,
livre e sem barreiras. Dez anos depois, o que continua intacto dessa ideia
inicial e o que mudou até chegares a Via Negativa?
Olá, Pedro, muito obrigado por esta oportunidade para
divulgar o trabalho de Saccaya. No início, tinha a intenção de procurar
outros músicos para depois desenvolvermos em conjunto as ideias que tinha, mas
na altura tocava guitarra nos Cronaxia e não tinha muita disponibilidade
para me dedicar a este projeto, e fui deixando na gaveta. Entretanto, em 2020,
com a vontade de pôr de pé este projeto, mas com a incerteza do cenário que
vivíamos na altura, procurar outros músicos estava fora de questão, o que me
levou a desenvolver tudo sozinho, aos poucos, as músicas foram ganhando forma,
comecei a incorporar as minhas crenças, maneira de estar na vida e outro hobbie
que tenho que é a fotografia, o que acabou por deixar de fazer sentido para mim
formar uma banda, e naturalmente tornou-se algo pessoal, um projeto a
solo, penso que foi a única coisa que
mudou, de resto, acho que se mantêm intacta essas “3 regras”, expressão
espontânea, livre e sem barreiras, são 3 pilares que quero manter como
principio.
Como nasceu Via Negativa? Houve
desde o início uma ideia ou conceito a orientar o álbum, ou foste descobrindo o
seu caminho à medida que a música surgia?
O álbum Via Negativa começou a ganhar forma em
2023, um ano após a edição da demo tape de estreia. Os conceitos e
músicas começaram a surgir naturalmente. Fui trabalhando as músicas à volta de
cada tema. Penso que o conceito central do álbum anda à volta do
autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal. Cada um conta um pouco das
minhas crenças e gostos, da maneira de estar na vida.
O disco vive muito de
ambientes densos e introspetivos. Sendo a música essencialmente instrumental,
como se constrói uma narrativa sem palavras e como sabes quando aquilo que
queres transmitir ficou realmente dito?
Na construção da música, tento substituir a narrativa
de palavras por ambientes sonoros e estruturas musicais, que, a meu ver,
representam a ideia e o conceito por detrás do tema. Ao desenvolver o tema,
procuro sempre que o seu desenrolar tenha um princípio, meio e fim, e que haja
dinâmicas de tensão e relaxamento, como se quisesse contar uma história.
Geralmente, o meu “barómetro” para definir o término da música é o meu coração
e os meus sentimentos, enquanto aquilo que estou a criar não tocar o meu
coração de forma positiva, não dou como terminado o processo criativo e,
através dos sentimentos, “vejo” se foi tudo dito e se não há mais nada para
dizer.
A primeira faixa
ultrapassa os dez minutos, mas há uma fluidez que faz com que essa duração
passe despercebida. É difícil manter uma composição tão longa em movimento sem
cair na repetição ou acrescentar partes apenas para prolongar a viagem?
Folgo em saber que quase não sentiste a duração da
música. Esse é um ponto muito importante para mim. Eu gosto bastante de músicas
longas. No futuro, gostaria de fazer uma composição com pelo menos 30 ou 40
minutos de duração, algo como os Edge Of Sanity fizeram com o álbum Crimson,
ou o Fredrik Thordendal fez com o álbum Sol Niger Within. Mas,
voltando à faixa de abertura, Door Without Doorman, sentia que tinha de
ser uma música longa, devido ao tema em si. Essa música é inspirada numa
prática de meditação, focada na atenção plena do momento presente, onde estamos
atentos à mente e ao corpo. Quando os pensamentos surgem, não nos apegamos, não
nos envolvemos, não lutamos, simplesmente os deixamos entrar, reconhecemos e
deixamos seguir o seu caminho natural. Daí o nome da música, Door Without Doorman.
Na música quis representar todos os sentimentos que um ser humano pode
experienciar na meditação: quietude, agitação, desejo, aversão e dúvida. Exemplificando a minha resposta anterior, no
caso desta música, quando comecei a criá-la, tinha a ideia de que ela iria
ficar, no mínimo, com 15 minutos de duração. A certo momento, quando ela já
estava com 12 minutos, senti que algo estava a deixar de fluir. Acabei por
retirar os últimos 2 minutos. Imediatamente, senti que a música já estava
terminada; já tinha dito tudo o que queria. Acho que é desafiante conseguir
manter interessante uma composição longa, mas o que senti mais dificuldade foi
largar a ideia fixa que a música tinha de ter pelo menos 15 minutos.
A guitarra é
naturalmente a grande voz dos Saccaya, mas os teclados e restantes elementos
programados têm um peso enorme e, por vezes, criam dinâmicas rítmicas bastante
interessantes. Como trabalhas esse equilíbrio entre a interpretação orgânica da
guitarra e aquilo que nasce da programação?
Na gravação dos temas, uso as minhas capacidades
técnicas e os meios que tenho disponíveis. Tenho sempre o objetivo de registar
na totalidade todos os sons que tenho em mente, o que passa por utilizar o som
de saxofone, percussão, diferentes tipos de instrumentos de cordas, etc. Como
apenas toco guitarra, acaba por ser a principal voz; é o instrumento em que
melhor me consigo exprimir. Em relação aos restantes instrumentos, recorro à
programação. Por questões práticas, não tenho bateria, teclados, percussão, mas
tenho sempre o intuito de soar o mais humano/orgânico possível, principalmente
no som da bateria. No final, o resultado acaba por ser bastante enriquecedor
para mim, pois aprendo através da prática e através dos erros que cometo ao
utilizar e tomar consciência do papel que cada instrumento tem na música.
Sinto o uso do reverb ao longo do
álbum, o que amplia bastante a sua dimensão atmosférica. Para ti, esses e
outros efeitos são apenas ferramentas de produção ou acabam por funcionar como
mais um instrumento na composição?
O uso do reverb é um instrumento fundamental na
composição. Gosto muito do seu som e daquilo que ele adiciona, essa dimensão
atmosférica que falaste. Nesse campo, tenho como referência e influência o Devin
Townsend, assim como as músicas mais atmosféricas dos Marillion e Pink
Floyd, entre outros. É algo que ainda estou a aprender a usar e que, usado
de forma correta, pode enriquecer bastante a música.
Em determinado momento
surgem sons de bebés, um elemento bastante inesperado dentro deste universo
instrumental. De onde veio essa ideia e que significado têm esses sons dentro
da narrativa de Via Negativa?
Usei o som de um bebé a rir na música What The Future
Holds. Esse tema é uma reflexão apreensiva que faço acerca do futuro da
Humanidade: que valores, legado, fundações, exemplos estamos a deixar para as
gerações futuras. O bebé representa o futuro. Escolhi especificamente ele a rir
para dar um tom de esperança, para que as próximas gerações possam fazer
melhor, para que os valores universais possam prevalecer face à ganância e ao egoísmo
que vivemos presentemente.
Transition é uma pequena peça que separa
duas faces do disco, enquanto Greetings And Thanks fecha o percurso com
a tua própria voz e um agradecimento, algo que, de certa forma, recupera a
ideia de Obrigado. Por que sentiste necessidade de quebrar o discurso
nestes pontos e, sobretudo, de terminar o álbum falando diretamente ao ouvinte?
Inicialmente, a música Transition foi desenhada
para fechar o álbum, daí o seu nome. Queria que fosse uma ponte para o que
ainda está por vir. Mas no final, ouvindo o álbum no todo, não gostei de como
as faixas entre si estavam a fluir, e por isso decidi tirá-la do fim e
colocá-la no meio, o que fez mais sentido para mim. Mas penso que ela manteve o
seu propósito; ficou como uma passagem da 1ª parte para a 2ª parte do álbum. Eu
tinha a intenção de agradecer ao ouvinte no final do álbum, pelo seu tempo dispensado para
ouvir o meu álbum, e sim, voltei à ideia da música Obrigado, onde eu
faço uma homenagem e agradecimentos a todos os artistas que criaram música que
me tocou de forma positiva, mas, neste caso, agradeço ao ouvinte. Esta ideia,
em parte, foi inspirada pelo que os Type O Negative fizeram no álbum October
Rust, onde eles cumprimentam e agradecem ao ouvinte.
A faixa bónus Seeds é
particularmente curiosa porque, mais do que uma composição convencional,
permite-nos entrar no processo criativo e ouvir melodias que estiveram na
génese de temas como The Practitioner’s Path e What The Future Holds.
Por que decidiste mostrar os “esboços” e imperfeições do processo em vez de
deixares apenas a obra acabada?
Geralmente, quando tenho uma ideia que me agrada,
registo-a através da guitarra no telemóvel ou no DAW, e achei bastante
interessante mostrar o momento de nascimento, a semente daquilo que viria a
tornar-se algumas das músicas que compõem o álbum. Acho que serve como um bom
complemento ao álbum.
Via Negativa surge pensado para a
imersão e para uma escuta muito própria. Como imaginas transportar este
universo para palco? Há planos para apresentar o álbum ao vivo e, nesse
contexto, como pensas recriar a combinação entre guitarra, teclados e elementos
programados?
Sim, o álbum foi pensado e desenhado para ser
assimilado com uma escuta própria, mais atenta e com tempo. Acho que a
sociedade hoje em dia, de forma geral, anda sempre a correr de um lado para o
outro, sempre ocupada e sem tempo a perder, o que faz com que a forma como
ouvimos música também esteja alinhada com esse ritmo. Não quero estar a
generalizar, mas penso que, presentemente, já não existe o hábito de estar
apenas sentado e a desfrutar da experiência que é ouvir um álbum, e este álbum
foi pensado exatamente para isso, para parar e deixar-se levar pela viagem. Apesar
de ter curiosidade de ver como estas músicas soariam ao vivo, de momento, não
tenho planos para tal. Quero manter este projeto a solo, mas se fosse para
tocar ao vivo, não estaria interessado em usar backing tracks; teria de
contratar músicos para recriar o álbum o mais fiel possível, o que se tornaria
bastante dispendioso. Para já, o propósito principal deste projeto é continuar
a ser criativo, continuar a desenvolver as capacidades de compositor e
guitarrista, explorar novos sons e conceitos.
Renato, obrigado pelo
teu tempo e por nos apresentares um pouco melhor o universo de Via Negativa. Para
terminarmos, que mensagem gostarias de deixar aos leitores de Via Nocturna e a
quem está agora a descobrir o teu projeto Saccaya?
Eu é que agradeço por esta oportunidade de mostrares e
dares um palco a este projeto. Os meus parabéns e agradecimento pelo trabalho
que a Via Nocturna tem desenvolvido em prol da música em Portugal ao
longo dos anos, por dar voz a quem ainda não tem voz. O vosso site está muito
bem estruturado e organizado com reviews, entrevistas, playlists,
videos. Para terminar, quero apenas desejar aos leitores de Via Nocturna
e a quem descobrir o projeto Saccaya felicidades, que fiquem bem e em
paz.

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