Quase
dez anos e sete álbuns depois, os Zurrapa continuam a transformar a “azia” em punk rápido, corrosivo e sem cerimónias. Mai$ uma
Mo€dinha… Mai$ uma Voltinha! não altera a fórmula, mas mostra uma banda mais
oleada, com melodias e arranjos mais cuidados, convidados entre amigos, uma
estreia em vinil e a mesma vontade de provocar, divertir-se e dizer o que lhe
apetece. Nuno Mendonça conta-nos como se deu mais esta voltinha.
Olá, Nuno! É um prazer
voltar a ter-vos na Via Nocturna. Na altura diziam que a “azia” alimentava a
revolta e acabava transformada em música. Com Mai$ uma Mo€dinha… Mai$
uma Voltinha! prestes a sair, a azia aumentou; aprenderam a digeri-la melhor
ou já estamos perante uma intoxicação crónica?
Boas!!! Obrigado por nos
aturarem mais uma vez! É
crónica mesmo, a azia cada vez arde mais, já não vai lá nem com merdas para o
refluxo. Isto não se consegue aprender a digerir, bem pelo contrário, cada vez
é mais insuportável ter de lidar com tanto filho da puta
Este é já o sétimo
álbum dos Zurrapa e chega quando a banda se aproxima de uma década de
existência. Vocês sempre assumiram que não pretendiam “inventar a roda”. Mas
até que ponto é possível continuar a dar voltas à mesma roda sem começar a
repetir fórmulas? Houve essa preocupação durante a criação deste disco?
É verdade, para o ano
completamos uma década, sem interrupções ou pausas, sempre a gravar e a tocar.
Quem diria!!! Sim, continuamos a não pretender "inventar a roda"; o
som que gostamos de ouvir já está feito. E é o que continuamos a ouvir. Por
isso sim, inconscientemente, acabamos por repetir fórmulas. Tentamos sempre
juntar alguma novidade a cada disco que sai, mas já estamos velhos para muita
aventura. Neste conseguimos abusar da boa vontade de alguns amigos para
gravarem umas cenas no disco e de resto a fórmula principal é a mesma: punk
rápido, sem grandes merdas, divertido e a bater em quem nos fode.
Mai$ uma Mo€dinha… Mai$ uma Voltinha!
nasceu na vossa forma normal de composição ou houve alguma alteração
significativa neste processo?
Nada, tudo igual. Somos
chatos que dói; não mudamos nada. O disco foi malhas que foram surgindo, letras
que foram se adicionando e ideias que em momentos de estupidez foram faladas… e
que fomos com elas até ao fim.
Musicalmente, parece-me
um disco bastante mais conseguido: continua abrasivo e direto, mas há mais
atenção às melodias, aos refrões e até aos arranjos. Foi algo deliberado ou é
simplesmente o resultado de quase dez anos a tocar juntos e de terem aprendido,
mesmo contra a vossa vontade, a fazer músicas melhores?
Achas mesmo ou estás
armado em miss simpatia? Não, na realidade, o processo de composição foi
igual, a mesma anarquia de sempre. A mesma ausência de regras e a teimosia
habitual. Admito que em algumas músicas é possível que tenhamos sentido a
necessidade de arranjar uma "revienga" qualquer para parecer que
dominamos a coisa, mas a verdade é que 99% foi saindo naturalmente. Os
quase 10 anos juntos facilitam o processo; já sabemos para onde um vai, o que o
outro está a pensar, etc.
Também nas letras noto
uma diferença. Continuam a provocar e a pôr o dedo na ferida, mas parecem
fazê-lo de forma menos brejeira e, por vezes, mais sofisticada. Sentem que
aprenderam que uma boa provocação pode ser mais eficaz quando não precisa
necessariamente de recorrer ao palavrão?
O uso do palavrão, pelo
menos para nós, não é pensado para chocar ou para "ficar fixe"; faz
mesmo parte do nosso vocabulário. Por norma quanto mais chateado estás, mais
eles saem e se não estamos felizes, não vamos dizer testículos, sai logo
colhões. Ao não se ser muito direto no que se quer dizer, por vezes acaba-se
por passar a mensagem errada, ou por nem a passar, mas sempre tentamos ter um
pouco dos dois mundos. Letras mais subtis e mais na “tromba", mas acho que
isso tem um pouco a ver com o estado de espírito do Fonseca quando as escreve.
Os títulos deixam
perceber que continuam a disparar em várias direções. O que vos irritou,
divertiu ou indignou o suficiente nos últimos anos para alimentar as letras
deste álbum?
Essa é uma pergunta
muito difícil. Temos sempre a classe política que insiste em prometer, dizer e
fazer merda atrás de merda e que nos dá ideias demais até. Depois há os copos de
que tanto gostamos e que é sempre divertido abordar. E há também a nossa
estupidez natural que leva a que piadas nossas acabem por ir parar ao disco...
só porque nos apetece.
Já agora, Eu Só Queria Ver a
Assembleia a Arder é um título que dificilmente passará despercebido. Numa
época em que uma frase é facilmente retirada do contexto e transformada numa
polémica nas redes sociais, ainda existe espaço para a provocação e o sarcasmo
sem que alguém os interprete literalmente? Isso alguma vez vos faz pensar duas
vezes antes de escrever?
Não, zero. Se nos
apetece dizer, dizemos. Naturalmente, ver a assembleia a arder não tem de ser
do sentido literal... mas pode! A grande maioria dos que lá andam não tem a
menor utilidade. Não desejamos que morram, mas com aquilo "a arder",
podia ser que fossem calcetar passeios. As polémicas que algo possa gerar nas
redes sociais é verdadeiramente algo para que não nos poderíamos estar mais a
cagar, para quem quer, é só mais um esgoto a céu aberto. Quem gosta de
chafurdar encontra sempre alguma merda.
Há três convidados no
disco: Hugo Conin em Encostado à Parede, Hugo “Mosgo” Rebelo, dos
Simbiose, em Vampiro Português, e Paulo “Seca Adegas” no piano do último
tema. Foram músicas que vos fizeram pensar imediatamente nestes músicos ou
procuravam precisamente participações que trouxessem algo que os três Zurrapa
não conseguiriam fazer sozinhos?
Os convidados surgiram
de forma natural, principalmente por serem amigos verdadeiros e malta que
admiramos. Ok, menos o Seca, que é só um palerma como nós. Mas sim, as músicas depois de
estarem feitas e numa espécie de pré-gravação, achamos que poderia ficar bacano
ter a guitarra do Conin numa e a voz do Mosgo na outra. A nossa questão era
apenas uma: é óbvio que eles não vão aceitar! Mas, por incrível que pareça,
aceitaram e ficamos verdadeiramente agradados com o resultado. Se fôssemos nós
a fazer, naturalmente seria algo diferente... e por consequência,
invariavelmente muito pior!!
E depois de onze temas,
decidem terminar o álbum com Ode Triunfal Ao Bagaço Em Dias de Sol (Fuga em
Ré Bemol): um título gigantesco para… alguns segundos e uma única nota de
piano, tocada por Paulo “Seca Adegas”. Isto é apenas uma monumental piada Zurrapa
ou há alguma história por detrás daquela que será, provavelmente, a composição
mais curta e menos trabalhosa da vossa carreira?
Lá está, essa ideia
surgiu não sei onde nem sei por quê, mas foi daquelas ideias que apareceu e eu
disse que ia concretizar. E a puta da nota foi mesmo tocada por ele!!!! Levei-o
lá a casa e ele gravou. O Seca Adegas anda connosco para todo o lado e já tinha
gravado as introduções das músicas todas no Lambe-me o CUbo e
desta vez deu-nos para isto... é uma obra de arte com um nome à altura, pelo
menos em quantidade de palavras.
Pela primeira vez, um
álbum dos Zurrapa terá edição em vinil. Para uma banda que sempre cultivou uma
postura muito ligada ao DIY e ao underground, ter finalmente
um LP nas mãos representa apenas mais um formato ou é daqueles pequenos marcos
que, há dez anos, dificilmente imaginavam alcançar?
Garantidamente há 10
anos começávamos a rir se alguém dissesse isso. Mas a verdade é que se mantém o
D.I.Y.; é apenas um formato diferente; desta vez decidimos que sim. E por
que não? Há malta que aprecia muito o formato e já nos tinham falado nisso
algumas vezes. Quando vimos a capa finalizada, entendemos que era porreiro
vê-la em grande. Se não se venderem, fazemos tiro ao prato com eles.
O disco saiu a 26 de
setembro e foi apresentado nesse mesmo dia na Fora de Rebanho, em Viseu, com os
Carne Pa Canhão. Já disseram que uma música só fica verdadeiramente “fechada”
quando é tocada ao vivo. Que planos existem para levar Mai$ uma Mo€dinha… Mai$
uma Voltinha! para a estrada depois da festa de lançamento? E há algum
destes novos temas que estejam particularmente curiosos para ver sobreviver ao
choque com o público?
Confere. O disco foi
todo finalizado ao vivo na Fora de Rebanho. Todo. Mais umas quantas das velhas.
E com os Carne Pa Canhão, para haver alguma dignidade na noite! Depois
do lançamento, já temos algumas datas marcadas e estamos a tratar de mais
algumas para promover o disco em palco e até ao início de 2027 a ideia é dar
forte nisso. Depois é possível que pensemos em alguma merda para os 10 anos da
banda. Ou cagamos e seguimos em frente, logo se vê na altura.
Para terminar, obrigado
por voltarem à Via Nocturna. Depois de sete álbuns, quase dez anos, muitos
copos e certamente algumas decisões de gosto duvidoso, o que ainda falta aos
Zurrapa fazer? E que mensagem querem deixar aos leitores da Via Nocturna que
vão gastar mais uma moedinha para dar esta nova voltinha convosco?
O que falta fazer é
tomar mais um punhado de decisões duvidosas (e outras mesmo más) e continuar a
rir e a divertir como crianças parvas em palco. Essa é a parte que é
inegociável. Dizermos o que queremos e divertirmo-nos. O resto vem por
acréscimo e aceitamos. Aos Manfios que seguem a Via Nocturna, que
continuem a seguir e a interagir com a malta para que isto dure eternamente. E
sim, se estiverem em larguezas financeiras, larguem lá mais uma moedinha e
comprem o nosso disco, que precisamos matar a secura! Muito obrigado pela
oportunidade e abraços!!




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